Pixabay
Pixabay

A vida (tão pouco conhecida) depois da depressão

Novos estudos científicos buscam entender mais sobre a doença

Benedict Carey, The New York Times

03 Novembro 2018 | 06h00

Há uma geração, a depressão era considerada um hóspede indesejado: uma presença sombria que podia aparecer em consequência de uma perda e demorava para encontrar a porta da saída. As pessoas que ela assombrava reconheciam sua triste companhia - eu mesmo fiquei um pouco deprimido desde a morte do meu pai - sem terem medo de ficar doentes de forma crônica.

Hoje, a doença é vista como uma figura mais funesta, mais permanente, um monstro subterrâneo, prestes a assumir o controle da psique. Os pesquisadores em geral debatem os vários tipos de depressão, da leve à profunda e “endógena”, um desespero raro, quase paralisante.

Foram realizadas centenas de estudos, na busca de marcadores que permitam prever a depressão e identificar os melhores caminhos para a recuperação. Mas o tratamento é em grande parte um processo de tentativa e erro. Um medicamento que ajuda uma pessoa pode agravar a condição de outra. O mesmo acontece com as psicoterapias.

“Se você recebe o diagnóstico de depressão, uma das coisas mais fundamentais que irá querer saber é: quais são as chances de a minha vida voltar a ser normal?”, disse Jonathan Rottenberg, professor na Universidade do Sul da Flórida. “As pessoas supõem que nós temos a resposta a esta pergunta. Mas é embaraçoso afirmar que nós não temos”.

Em um artigo publicado na edição corrente de “Perspectives on Psychological  Science”, Rottenberg e seus colegas afirmam que, tentando compreender de que maneira pessoas com depressão poderiam escapar da doença, os cientistas se concentraram nos que estão aflitos, deixando de lado as pessoas que já sofreram, mas se recuperaram.

“Nós sabemos que muitos pacientes com distúrbio bipolar, por exemplo - uma doença grave, para toda a vida - passam muito bem após o tratamento, e podem trabalhar em empregos criativos”, afirmou Sheri Johnson, diretora do programa de tratamento de distúrbios mentais na Universidade da Califórnia, em Berkeley. “Mas não podemos prever quem. Por isso, é muito importante ter esse tipo de informação”.

No novo estudo, o dr. Rottenberg e outros afirmam que o esforço para compreender de que maneira as pessoas se recuperam da depressão é prejudicado pelo tipo de evidência disponível. As tentativas de tratamento costumam durar de seis a oito semanas, e visam a redução dos sintomas negativos, como uma autoestima muito baixa. O que acontecerá nos anos seguintes - e que evolução positiva ocorrerá, e para quem - é em grande parte um enigma.

“Acho ótimo - é uma boa ideia - observar as pessoas que se sentem bem depois de um período de depressão, a longo prazo”, disse a dra. Nada Stotland, psiquiatra do Centro Médico da Rush University. “Por outro lado, podemos simplesmente achar que são as mesmas que estavam em melhores condições antes”.

Em uma análise a ser publicada em breve, na revista “Clinical Psychological Science”, a mesma equipe de psicólogos faz uma estimativa aproximada do número de “melhoras” após uma depressão, usando dados de uma pesquisa nacional realizada periodicamente nos Estados Unidos. Ela inclui mais de 6 mil pessoas entre os 25 e 75 anos e mais de 500 que foram consideradas deprimidas. Cerca da metade das que haviam recebido o diagnóstico posteriormente se recuperaram, o que significa que não haviam apresentado os sintomas por pelo menos um ano. Uma de cada cinco delas - 10% do total -, dez anos mais tarde, sentiam-se muito bem.

As respostas à recuperação talvez não sejam simples. Algumas pessoas que se sentem muito bem depois, tomam diariamente comprimidos; outras talvez dependam de uma sessão semanal de psicoterapia. É provável que bons amigos e bons genes também influam. Além disso, alguns pacientes podem ter criado métodos próprios.

“O estudo desse grupo permite dar às pessoas com depressão não apenas alguma esperança”, disse Rottenberg. “Mas também algo que possam usar”.

Por enquanto, disse a dra. Stotland, o fato de que a depressão possa ser crônica não significa que as pessoas estejam condenadas.

“Nunca disse isto aos pacientes”, afirmou. “O que digo para eles é que poderão melhorar, e acredito que a maioria dos meus colegas faça o mesmo”.

Mais conteúdo sobre:
depressãoPesquisa Científica

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.