Dmitry Kostyukov para The New York Times
Dmitry Kostyukov para The New York Times

A violência da política racista na sociedade italiana

Crescimento do partido nacionalista Lega acirrou debate sobre imigrantes africanos

Vittorio Longhi, The New York Times

14 Julho 2018 | 10h00

A ascensão dos populistas de direita na Itália não surpreendeu os moradores da minha cidade, Macerata, que testemunharam casos de violência contra os imigrantes antes das históricas eleições de março.

Um mês antes do pleito, um militante da Lega, o partido nacionalista italiano, 28 anos, atirou contra um grupo de pessoas negras nas ruas de Macerata, ferindo seis. Luca Traini, o autor dos disparos, disse que agiu em retaliação pela morte horrível de uma jovem italiana, supostamente por  um traficante de drogas negro, na semana anterior.

Fiquei chocado por este fato ter acontecido em uma cidade pacata de cerca de 43 mil habitantes, onde passei a maior parte da minha juventude, filho de pai eritreu e mãe italiana.

Quando eu tinha cinco anos, minha mãe decidiu que deveríamos sair de Roma, e nos mudarmos para lá, por cauda da qualidade de vida. Ela considerou a cidade o lugar ideal para criar um filho, em um ambiente católico progressista. De raça mista, eu me sentia seguro em Macerata, minhas raízes africanas eram motivo de orgulho e me faziam sentir uma pessoa peculiar.

Certa vez, um colega de escola me dirigiu um insulto racial, e disse que eu deveria voltar para a África. Suas palavras não me ofenderam nem me assustaram; a professora me defendeu, e também as outras crianças.

Mas quando voltei para uma visita, em maio deste ano, apenas três meses depois do ataque de fúria de Traini, alguma coisa havia mudado. Caminhando pelas ruelas da cidade velha, não troquei as costumeiras saudações amistosas com as pessoas, e pude sentir a tensão quando indaguei a respeito dos ataques racistas. Pior ainda, muitos apoiaram Traini.

“Parece que a violência legitimou uma cultura racista que permaneceu subterrânea por muito tempo, escondida nos grupos de ultra-direita, na maior parte invisíveis”, disse Annalisa Ubertoni, ativista do movimento "Refugiados, Bem-vindos". “Agora, a comunidade nigeriana e outras pessoas negras vivem com medo”.

O prefeito de Macerata, Romano Carancini, atribui as tensões ao fracasso do sistema de assentamento dos refugiados da Itália. Os políticos se apropriaram desta fratura social. “A nossa cidade tem sido palco de uma campanha eleitoral xenofóbica”, ele acrescentou.

A propaganda racista revelou-se uma estratégia política eficaz. A proporção de eleitores de Macerata que apoiaram a Lega aumentou de 0,6% em 2013, para 21% nas eleições gerais de março.

Há algo mais do que uma indicação do passado fascista da Itália em sua recente guinada populista.

Os líderes da Lega evocaram reminiscências do sombrio período mussoliniano. O atual presidente da região Lombardia disse em uma entrevista à rádio que ele precisava “defender a raça branca”, uma referência à legislação racial de 1938 contra os judeus e as pessoas de etnia mista, os chamados “meticci” (mestiços).

“As instituições nacionais e a opinião pública deveriam ter freado muito antes este tipo de propaganda”, disse Cécil Kyenge, um médico italiano nascido no Congo que ocupa uma cadeira no Parlamento Europeu e que tem sido alvo de insultos racistas. “Eu me pergunto se ainda haverá tempo”.

Depois do atentado de Macerata, houve duas outras mortes por motivos raciais na Itália: um vendedor ambulante senegalês foi alvejado em Florença, e também um malês que representava trabalhadores migrantes de uma empresa agrícola da Calábria.

O líder da Lega, Matteo Salvini, atualmente ministro do Interior, ordenou que os navios de resgate de migrantes sejam impedidos de atracar nos portos italianos, e afirmou que mandará de volta todos os imigrantes ilegais. Ele falou abertamente de expulsar do país os romãs que não tiverem uma situação legal definida.

O outro partido da coalizão governista, o Movimento Cinco Estrelas, não é melhor. Há alguns meses, começou uma cruzada contra grupos que resgatam refugiados no mar, sugerindo que estariam ligados a contrabandistas. Seguiu-se uma intensa campanha de fake news, que conseguiu difamar os trabalhadores humanitários.

Mussie Zerai, um sacerdote eritreu que foi candidato ao Prêmio Nobel da Paz em 2013 por defender os refugiados, está sendo investigado por ajudar a migração ilegal.

“Eles têm consciência de que precisam nos menosprezar para agradar à opinião pública, e querem transformar o direito do mais fraco em direito fraco”, disse padre Mussie.

Há também as preocupações pelo relacionamento das forças não liberais da Itália com os supremacistas brancos da Europa e do outro lado do Atlântico. O nacionalista americano Stephen Bannon  gabou-se por ter contribuído para a afluência dos eleitores nas eleições italianas.

Os populistas italianos provavelmente apoiarão a oposição dos governos do Leste europeu a toda e qualquer relação construtiva entre a Europa e a África, que é a única maneira de tratar das causas da migração. 

Os líderes populistas retratam a África através das lentes da migração ilegal, interrompendo a discussão sobre o potencial de trabalho entre Europa e África em termos de desenvolvimento, investimentos, empregos e segurança.

O número de chegadas de migrantes da África diminuiu significativamente nos últimos anos; entretanto, o recente acordo da União Europeia sobre a migração mostra uma crescente indiferença em relação aos que buscam asilo. Por outro lado, os poucos que conseguem escapar das prisões da Líbia muitas vezes afogam no Mediterrâneo.

As próximas eleições europeias se realizarão daqui a menos de um ano, e definirão os desdobramentos futuros. Elas nos dirão em que tipo de sociedade queremos viver: uma sociedade que tem medo e exclui o outro ou uma sociedade que acolhe a diversidade em uma Europa mais rica e mais próspera.

Se os populistas vencerem, as poucas pontes construídas até agora entre os dois continentes serão derrubadas, e a vida pacífica em comunidades multirraciais, como Macerata, se tornará apenas uma vaga lembrança.

Vittorio Longhi é jornalista e autor, mais recentemente, do livro “The Immigrant War”.

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