Chang W. Lee/The New York Times
Chang W. Lee/The New York Times

A vitória dos otimistas na França

Com o crescimento da economia da França, o otimismo no país atingiu, em janeiro, o nível maior em comparação aos últimos oito anos

Pamela Druckerman, The New York Times

31 Março 2018 | 10h00

PARIS - Quando as pessoas costumavam me perguntar o que eu sentia falta dos Estados Unidos, eu dizia: "O otimismo". Cresci na terra da esperança, depois me mudei para uma cujos slogans são "não é possível" e "o inferno são os outros". Eu andava por Paris me sentindo visivelmente animada demais.

Mas ultimamente, venho tendo uma espécie de chicotada emocional. A França está começando a parecer um país otimista, enquanto os americanos têm menos certeza de que tudo ficará bem.

O cinismo tem raízes profundas na França. No século 18, Voltaire ridicularizou os otimistas por sua ingenuidade e celebrou os pessimistas por sua lucidez. Ele ainda faz parte do currículo nacional para os alunos do nono ano francês, e o resmungão - o chorão insatisfeito e rabugento - continua sendo um arquétipo nacional. 

Entre os intelectuais, se você disser que tudo está indo mal, “todo mundo diz: 'Veja como ele é inteligente'”, explicou Frédéric Lenoir, autor de “Sobre a felicidade: Uma viagem filosófica”. Desde que me mudei para cá, as pesquisas regularmente mostram que os franceses são mais pessimistas quanto ao futuro de seu país do que as pessoas no Afeganistão e no Iraque.Os franceses não se tornaram magicamente alegres, mas há uma sensação crescente de que a esperança não é idiota, e a vida pode realmente melhorar. Como é comum com um novo presidente, houve um salto no otimismo depois que Emmanuel Macron foi eleito no ano passado. Mas desta vez, o otimismo permaneceu forte, e em janeiro, atingiu uma alta que superou os últimos oito anos.

O fato da economia francesa estar finalmente crescendo ajuda e Macron ter cumprido promessas que vão desde a revisão das leis trabalhistas até a redução do tamanho das turmas em creches em áreas desfavorecidas. Para aqueles que ainda estão de luto pela glória perdida da França como potência global, ele assumiu a liderança retórica sobre as mudanças climáticas e a União Europeia. E os franceses se sentem sortudos enquanto observam a Grã-Bretanha saltar da prancha com o Brexit e leem sobre crianças americanas sendo mortas na escola. Os eleitores aqui ainda têm queixas e muitos estão poupando seus julgamentos. Mas no contexto francês, isso é praticamente euforia.

"A França dos otimistas venceu e está arrastando a outra parte da França para o seu próprio lado", disse Claudia Senik, economista que dirige o Observatório do Bem-Estar, um centro de estudos acadêmico do país.

Os franceses estão até tendo um interesse intelectual nesta ideia exótica. Há clubes de otimismo, conferências e programas escolares, estudiosos da positividade e livros como "50 + 1 boas razões para escolher o otimismo". Em setembro, Macron foi patrono do Global Positive Forum, um grupo de estudo de "iniciativas positivas" nos negócios e no governo ("o amanhã pode ser melhor do que hoje", insiste o site do fórum). Ainda é um ajuste estranho. Um documentário de TV seguiu uma parisiense no outono passado, enquanto ela tentava adotar uma perspectiva positiva, como se estivesse aprendendo uma língua estrangeira. "Parece que é uma habilidade, uma disciplina que se aprende", ela se maravilhou.

Mas agora você pode se dar bem com a retórica de sonhar o sonho impossível, antes desprezada como psicofobia americana. "A partir do momento em que você diz a Macron que algo não é possível, ele tem uma tendência a considerar que é", disse um porta-voz da presidência.

Enquanto isso, o humor nacional dos Estados Unidos se moveu na direção oposta. Antes de Donald Trump assumir o cargo, o otimismo quanto à sua presidência era o menor em relação a qualquer presidente eleito desde pelo menos a década de 1970. Ainda estamos otimistas em relação à economia, mas apenas 27% dos americanos estão confiantes de que estamos "geralmente indo na direção certa", segundo uma pesquisa da Economist/YouGov.

O otimismo - até mesmo, e talvez especialmente em face da dificuldade - há muito tempo é uma marca registrada dos Estados Unidos. "O que o público americano quer é uma tragédia com um final feliz", teria dito o romancista William Dean Howells.

É um choque perceber que talvez não tenhamos um final feliz em breve. Eu sinto isso do outro lado do oceano. Amigos do ensino médio recentemente fizeram uma vaquinha para pagar as contas médicas de um colega de classe com câncer pancreático. Em outra chamada de vídeo, meu pai - um ardente patriota que cresceu durante a Segunda Guerra Mundial e nunca se interessou muito por política - de repente chorou pelo futuro dos Estados Unidos.

Claro, existem muitas variedades de otimismo americano. Nem todas estão condenadas.

Há o sonho americano que afirma que você pode conseguir o que quiser trabalhando duro o suficiente. Mas quando o Estado está indo atrás de imigrantes e se torna mais difícil passar para uma faixa de rendimentos mais alta, é difícil defender essa teoria.

Há a ideia do excepcionalismo americano - que somos exclusivamente abençoados e destinados a ter sucesso, por isso nossos problemas devem ser inevitavelmente resolvidos. Com os Estados Unidos ficando atrás de outros países ricos em campos desde a saúde às pontuações dos testes do ensino médio, também é difícil justificar isso.

A única forma de otimismo americano que ainda é crível é o tipo que vem dos alunos do ensino médio em Parkland, na Flórida. É um otimismo tático, tenaz e lúcido, na tradição do reverendo Martin Luther King Jr. Ele reconhece que algo está terrivelmente errado. E na melhor parte da tradição americana, essas crianças - e outras como elas - não estão choramingando. Elas estão determinadas a consertar isso.

É disso que mais sinto falta.

Os americanos sempre foram cheios de esperança. Isso não é mais o caso.

Pamela Druckerman é escritora e seu próximo livro a ser lançado é “There Are No Grown-Ups: A Midlife Coming-of-Age Story.”

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