Adriana Zehbrauskas para The New York Times
Adriana Zehbrauskas para The New York Times

A futilidade de boicotar abacates para combater os cartéis do México

Quando produtores de abacate são extorquidos por gangsteres, é loucura prejudicar ainda mais seus ganhos

Ioan Grillo, The New York Times

07 de março de 2020 | 06h00

CIDADE DO MÉXICO - A popularidade do guacamole está movimentando um comércio estrondoso na fronteira sul dos Estados Unidos. Algumas estimativas calculam que, apenas no domingo do Super Bowl, o consumo americano de abacates passou de 45 milhões de quilos. No ano passado, 950 milhões de quilos da suculenta fruta verde foram importados do México, um recorde.

O sucesso do abacate ilustra como o comércio pelo Rio Grande continua a crescer, apesar das lamúrias do presidente Donald Trump sobre o déficit comercial. Quando ele foi eleito, em 2016, as importações de todos os bens mexicanos somavam US $ 293 bilhões; no ano passado, chegaram a US $ 358 bilhões.

O crescimento das exportações de abacate, o chamado “ouro verde”, ajudou a tirar o México rural da pobreza, especialmente no estado de Michoacán, e a reduzir a necessidade de migrar para os Estados Unidos. Infelizmente, isso chamou a atenção dos cartéis de drogas, que extorquem os produtores de abacate, muitas vezes cobrando por cada quilo que exportam.

Produtores de abacate fartos dessa exploração pegaram em armas contra os cartéis e foram às ruas em protestos. O governador do estado prometeu uma nova unidade anti-extorsão, mas a política ainda não deu resultados. Embora esses problemas aconteçam há anos, uma recente onda de atenção midiática gerou um debate: é ético comprar “abacates de sangue”, considerados uma “mercadoria de conflito”?

O chef JP McMahon, dono de um restaurante estrelado pelo guia Michelin em Galway, na Irlanda, disse que os abacates são os “diamantes de sangue do México”. O Daily Mail chegou a usar a questão do abacate para atacar Meghan Markle, duquesa de Sussex, com um artigo intitulado “Como o lanche de abacate favorito de Meghan – amado por todos os millennials – está alimentando secas, assassinatos e abusos dos direitos humanos”.

Com experiência de cobertura da guerra às drogas no México desde 2001, acho extremamente equivocado defender o boicote aos abacates para combater os cartéis. Quando produtores diligentes são extorquidos por gângsteres, é loucura prejudicar ainda mais seus ganhos. Precisamos pressionar as forças de segurança mexicanas para impedir a extorsão, e não punir os produtores.

“Não é um problema limitado a uma mercadoria”, disse Falko Ernst, analista do México na Internacional Crisis Group. “Um boicote (aos abacates) acabaria com a vida de milhares de famílias trabalhadoras que não fizeram nada de errado”. Alguns relatórios argumentam que os próprios cartéis assumiram o controle das fazendas de abacate.

De fato, grupos criminosos mexicanos lavam dinheiro com uma série de empresas americanas, como informado em uma lista compilada pelo Tesouro dos Estados Unidos. Esses grupos também “investem” seus lucros nos Estados Unidos, como mostra o famoso caso dos cartéis que lavam dinheiro em corridas de cavalos no país. Isso não significa que um setor inteiro deva ser boicotado.

É verdade que existem preocupações com o desmatamento e o desperdício de água na produção de abacate mexicana. Mas isso se aplica a muitas outras culturas e requer a aplicação de leis ambientais, e não um ataque a todos os agricultores, inclusive aqueles que seguem as regras.

Também ajudaria se os Estados Unidos permitissem a importação de abacates de outras regiões do México. Atualmente, existe apenas um número limitado de municípios certificados pelo Departamento de Agricultura americano, o que leva a uma concentração de lavouras em Michoacán.

As origens do boom do abacate no México remontam à década de 1990, quando o marketing ajudou a aumentar a demanda americana para muito além da capacidade de produção da Califórnia, e então as portas se abriram para importações mexicanas. De 1997 a 1998, primeiro ano em que as importações foram permitidas, 6 milhões de quilos de abacates foram enviados para os Estados Unidos. Os deliciosos abacates cremosos foram um sucesso e, desde então, as importações aumentaram exponencialmente.

Em 2013, já havia extorsão generalizada de abacateiros pelo bizarro cartel dos Cavaleiros Templários. Os mafiosos também prejudicavam muitos outros negócios, como o cultivo de limão, a pecuária e os táxis, provocando uma revolta de esquadrões de vigilantes.

O colapso dos Cavaleiros deu um respiro aos agricultores, até que novas gangues (entre elas a igualmente bizarra Viagras) entraram em cena. Alguns agricultores conseguem evitar a extorsão; na cidade de Tancítaro, eles pagam por sua própria “polícia do abacate”. Segundo minha pesquisa, nesses enclaves há menos extorsão em Michoacán do que nos dias dos poderosos Cavaleiros Templários.

Os lucros dos abacates e de outras exportações legais, como o mezcal, podem oferecer alternativas ao tráfico de drogas. Em dezembro, viajei à cidade montanhosa de Guadalupe y Calvo, em Chihuahua, e vi como o prefeito Noel Chávez estava incentivando os agricultores locais a trocar o cultivo de papoulas e maconha pelo de abacate. “Pode ser a alternativa para a pacificação do país”, ele me disse.

Existem várias indústrias globais ligadas à violência dos cartéis. É preciso fazer mais esforços para impedir que as armas vendidas nos Estados Unidos fluam para o sul e que dólares oriundos das drogas sejam lavados em grandes bancos. Mas você pode degustar o extraordinário sabor do guacamole sem culpa: recusar-se a comê-lo não vai acabar com os cartéis.

Ioan Grillo é o autor de El Narco: Inside Mexico’s Criminal Insurgency e, mais recentemente, de Gangster Warlords: Drug Dollars, Killing Fields and the New Politics of Latin America. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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