VICTORIA JONES/AGENCE FRANCE-PRESSE/Getty Images
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Abadia de Westminster se curva ao talento de artista pouco religioso

David Hockney é responsável por vitral que celebra 65ª aniversário da rainha Elizabeth

Farah Nayeri, The New York Times

01 Novembro 2018 | 06h00

LONDRES - Numa cinzenta manhã de setembro, David Hockney estava sentado sob a claraboia de sua sala em Londres, fumando um cigarro. As paredes estavam cobertas com obras dele: autorretratos emoldurados, suaves gravuras de seus cães, e uma grande fotografia composta em cores vivas.

Contra uma parede havia um pôster de sua mais nova criação: um vitral para a Abadia de Westminster comemorando o 65º aniversário do reinado da rainha Elizabeth. Medindo 3,5 metros por 8,5 metros, “The Queen’s Window” [Vitral da Rainha] retrata um espinheiro branco, uma moita florida, com os botões coloridos numa profusão de vermelhos, azuis, verdes e amarelos.

“O espinheiro é uma celebração: como se alguém tivesse despejado champanhe numa moita", disse Hockney, 81 anos.

Ele disse que criou o vitral retrabalhando uma ilustração antiga feita com o iPad. Hockney usou novas tecnologias ao longo de toda a carreira e já expôs obras criadas com iPhones e câmeras Polaroid ao lado de seus quadros em alguns dos museus mais importantes do mundo.

Depois do sucesso de sua retrospectiva 2017-18, que esteve em Londres na Tate Britain, no Centro Pompidou de Paris e no Metropolitan Museum, em Nova York, seu valor aumentou muito no mercado. 

“Portrait of an Artist (Pool with Two Figures)” [Retrato de um artista (duas figuras na piscina)] (1972), leiloado este mês na Christie’s, teve o preço estimado em 80 milhões de dólares: a venda, se chegar a tanto, fará dele o mais valorizado dentre os artistas vivos.

Diante do vitral de Hockney na Abadia de Westminster, o reverendo John R. Hall, cônego da igreja, disse que a obra de Hockney era “absolutamente vibrante: é muito legível, o que faz dela muito acessível, e acho que as pessoas vão gostar muito dela". Em comparação, o vitral vizinho, do século 19, representando os milagres de Cristo, foi descrito por ele como “tão escuro a ponto de ser quase ilegível".

A artista Helen Whittaker, especializada em vitrais, comandou uma equipe de 10 pessoas que produziu a obra a partir do desenho de Hockney. “Ficamos agradecidos por ele colocar nossa profissão no mapa, pois os vitrais são sempre vistos como o primo pobre do mundo da arte", disse ela.

Hockney é um dos muitos artistas que trabalharam com esse suporte. Outros exemplos do gênero incluem o incrível desenho de Matisse em azul e amarelo para a Capela do Rosário em Vence, França, e os vitrais de Chagall para igrejas na Inglaterra, França e Alemanha. O artista britânico Brian Clarke, que criou vitrais para arquitetos como Zaha Hadid, Norman Foster, e I.M. Pei, disse que a área “corre um tremendo risco de extinção, pois se tornou universalmente associada às igrejas".

Hockney não costuma frequentar muito a igreja, mas disse ainda ter “um Deus pessoal", afinal de contas, “Sabemos do big bang, mas o que havia antes? Temos que perguntar, não é mesmo?”

A ideia do vitral na abadia não era deixar um legado, acrescentou ele: “Tudo acabará voltando ao pó. Até mesmo a Abadia de Westminster".

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