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Dmitry Kostyukov/The New York Times
Dmitry Kostyukov/The New York Times

'Abandonados' na floresta para amadurecerem rápido

Chamada de 'despacho', tradição de escotismo holandês busca ensinar autoconfiança a crianças e adolescentes

Ellen Barry, The New York Times

31 de julho de 2019 | 06h00

AUSTERLITZ, PAÍSES BAIXOS - Pouco depois das 22h de uma noite recente, um carro parou perto do limiar da floresta. A porta se abriu para a saída de três crianças: meninos loiros de 12 e 15 anos, e uma menina de 12 anos com tranças escuras e uma mochila coberta de emojis. Então, o motorista engatou a marcha e acelerou, esmagando o cascalho sob os pneus. Eram silhuetas minúsculas no pé da floresta, a quilômetros do acampamento de verão que estavam frequentando, com apenas um GPS primitivo indicando a direção certa. Estava escurecendo, e eles estavam sozinhos. Olharam para a noite: seria aquele o caminho certo a seguir? “Pode ser que sim", disse o líder da equipe, Thomas, de 12 anos.

Então, eles mergulharam na floresta. Essa é a tradição do escotismo holandês conhecida como “despacho", na qual grupos de crianças, geralmente pré-adolescentes, são instalados em uma floresta com a expectativa de encontrarem sozinhos o caminho de volta ao acampamento. A ideia é que a experiência seja desafiadora, e com frequência os jovens chegam às 2 ou 3 da madrugada.

Em algumas variações do desafio, livremente adaptadas a partir de exercícios militares, os adultos seguem as crianças a certa distância, mas se recusam a orientá-las, ainda que possam deixar bilhetes cifrados como dicas. Para tornar as coisas ainda mais difíceis, os organizadores podem até vendar os participantes a caminho do despacho, ou dirigir em círculos para desorientá-los. Às vezes, escondem-se na mata e fazem ruídos como os de um javali selvagem.

Se tudo isso parecer loucura, deve ser porque você não é da Holanda. Os holandeses tratam a infância de outra maneira. As crianças são ensinadas a não depender demais dos adultos; os adultos são incentivados a deixar que as crianças resolvam os próprios problemas. Os despachos são uma forma extrema de colocar em prática esses princípios, apostando na ideia de que, mesmo para crianças cansadas, famintas e desorientadas, há algo de emocionante no fato de estarem no comando. Muitos adultos guardam boas lembranças dos seus despachos. 

Rik Oudega, de 22 anos, líder de escotismo, lembra de ter sido parado pela polícia por dirigir na contramão quando estava a caminho de um despacho. Ele disse que sentiu o coração gelar “porque violei a lei". Os policiais olharam no banco de trás, onde havia quatro crianças vendadas, algo que, de acordo com Oudega, “não é permitido, na verdade". Ele tentou dar à situação uma aparência mais positiva. “Estou a caminho de um despacho", ele lhes disse. “Os dois se olharam, sorriram para mim e disseram: ‘Tenham uma boa noite. E procure seguir as regras’”.

As crianças no despacho em Austerlitz caminharam para a floresta, e o cheiro das agulhas de pinheiro subiu da terra. No céu, uma meia Lua apareceu. Durante alguns minutos, ainda ouviam o som dos carros na estrada, mas logo a mata se fechou ao redor deles. Aquela noite foi o primeiro despacho de Stijn Jongewaard, menino de 11 anos que disse ter aprendido inglês com os jogos da série Minecraft e séries como Havaí 5-0. Em casa, ele passa boa parte do tempo livre no videogame. Esse é um dos motivos que levaram seus pais a enviá-lo ao acampamento.

A mãe dele, Tamara, disse que chegou a hora de o menino assumir mais responsabilidades, e o despacho seria um passo nessa direção. “Stijn está com 11 anos", disse. “A nossa janela para ensinar certas coisas a ele está se fechando. Logo estará na adolescência, e terá que tomar decisões sozinho”.

Depois de caminharem por meia hora, o grupo deixou a trilha e entrou na floresta, mas em seguida fez uma pausa, debateu por alguns minutos o rumo a seguir, e voltaram por onde tinham vindo. A dez metros da trilha, um vulto imenso saltou por trás das árvores, assustando as crianças. Um cervo. Os despachos são uma parte tão normal da infância holandesa que muitos ficam surpresos ao serem indagados a respeito deles, imaginando que a prática é comum em todos os países.

Mas a romancista holandesa Pia de Jong, que criou os filhos em Nova Jersey, disse que os despachos refletem algo da filosofia holandesa em relação à paternidade: “Simplesmente soltamos os filhos no mundo. É claro que precisamos garantir que não morram, mas, fora isso, precisam achar seu caminho sozinhos".

Ainda assim, Pia, de 58 anos, começou a questionar se os despachos são mesmo tão divertidos assim. “Imagine estar perdido, sem ideia de para qual lado seguir", disse ela. “Podem demorar 10 horas, pode ser a noite inteira, a pessoa simplesmente não sabe”. Ela fez uma pausa. “Não me parece algo muito agradável de se fazer com as crianças, na verdade", afirmou.

Em 2011 e 2014, crianças participando de despachos foram mortas em atropelamentos quando caminhavam pelo acostamento. Desde então, a prática passou a ser objeto de regras. A equipe que participa do despacho leva consigo um celular para casos de emergência, e a associação de escotismo exige que os envolvidos usem coletes de cores chamativas, além de distribuir uma lista de parâmetros de conduta.

Olhando para as brasas de uma fogueira, os escoteiros líderes do despacho recente comentaram algo a respeito da crescente burocracia. “A sociedade está mudando", disse Oudega. “É um milagre termos permissão para acender fogueiras”. Mas ele acrescentou que a experiência central de um despacho não mudou. “A ideia é achar o caminho sozinho", explicou.

Já era uma hora da madrugada, e Stijn e os demais já estavam caminhando há três horas. Arrastavam os pés por uma estrada pavimentada em fila única, exaustos demais para conversar. Quinze minutos se passaram, e depois outros 15, e não havia sinal de que estariam se aproximando do local do acampamento. “Meus pais estão dormindo", argumentou Stijn. “Minha irmã está dormindo. Minha cabeça está cansada. Meus pés estão cansados”.

Um menino tinha pedido aos pais que o buscassem quando estavam perto da metade do desafio, o que pareceu dar aos demais determinação ainda maior para chegar ao fim. “Vou até a chegada”, observou Stijn. “Não sei por quê, mas vou até a chegada”.

Eram quase duas da madrugada quando eles chegaram ao acampamento. Havia uma fogueira quente, e salsichas com pão. As corujas estavam caçando, e seus gritos cortavam o céu acima deles. Os recém-chegados devoraram a comida, olharam para o fogo por alguns minutos, e então se recolheram nas barracas. 

Quando acordou na manhã seguinte, Stijn se considerava um veterano. Não sentia mais falta do videogame. E disse que, um dia, quando tiver filhos, vai querer que eles participem de um despacho. “É algo que nos mostra que, mesmo em momentos difíceis, é necessário seguir andando e não parar". E continuou: “Nunca tive de fazer isso antes”. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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