Sherene Lambert
Sherene Lambert

Aborígenes usam DNA para recuperar restos mortais de antepassados

Um estudo científico está ajudando a repatriar ossos de aborígenes australianos espalhados por museus de todo o mundo

Carl Zimmer, The New York Times

15 de janeiro de 2019 | 06h00

Nos anos 1800, milhares de aborígenes australianos foram vítimas de um terrível comércio. Anatomistas abriram as suas tumbas e roubaram seus esqueletos. Depois de vários massacres, a polícia vendeu partes dos seus corpos a alguns museus. Hoje, muitos destes ossos se encontram longe de casa.

“Os restos mortais dos nossos ancestrais foram roubados deste país, e estão espalhados pelo mundo, em Londres, na Alemanha, Suécia, Suíça - até mesmo nos Estados Unidos”, disse Gudju Gudju Fourmile, um ancião do povo Yidniji e Gimuy Walubara, do norte da Austrália. Há dezenas de anos, os aborígenes australianos fazem pressões para que os ossos lhes sejam devolvidos. “Os espíritos dos nossos ancestrais não poderão descansar em paz se não retornarem ao seu país”, acrescentou Fourmile.

Alguns museus procuraram atender ao pedido. Mas dispõem de escassas informações sobre a procedência dos ossos. Os ancestrais dos aborígenes australianos de hoje chegaram ao continente há pelo menos 50 mil anos como uma única população, e se espalharam rapidamente pelo continente, distribuindo-se em 300 grupos linguísticos, como foram definidos.

Como atribuir os ossos certos ao grupo certo? Esta complexa questão recebeu uma resposta relativamente simples: o DNA das pessoas vivas pode ser usado para identificar as origens dos ossos que estão nos museus. Em dezembro, em um estudo publicado pela revista “Science Advances”, alguns geneticistas mostraram que poderiam usar fragmentos de DNA recuperados de ossos ou de cabelos para determinar o lugar da Austrália do qual estes restos mortais se originaram.

O estudo começou com um pedido. Em 2013, ossos humanos de 3.400 anos atrás foram descobertos em uma duna no extremo norte da Austrália, onde habita o povo Thaynakwith. Os representantes desta comunidade contataram os geneticistas para pedir que pesquisassem o DNA dos ossos. “Eles nos disseram: ‘Estamos realmente interessados em saber se esta é uma pessoa do nosso povo’”, contou David Lambert, geneticista do Australian Research Center for Human Evolution da Griffith University.

O fato representou uma reviravolta nas relações entre pesquisadores e aborígenes australianos, que costumavam mostrar-se relutantes em participar de estudos. Joanne Wright, geneticista da universidade, viajou até o povo Thaynakwith e colheu amostras de saliva para a análise do DNA. Ela também retirou amostras do esqueleto encontrado recentemente, mas o clima quente havia destruído o seu DNA.

Um ancião thaynakwith perguntou se ela poderia usar o DNA para repatriar os restos que se encontram nos museus. “Ele disse que o povo aborígene estava muito abalado com esta questão”, disse Wright. Um após o outro os grupos de aborígenes pediram aos cientistas que analisassem os restos humanos que guardavam - ossos descobertos em sua terra ou que haviam sido devolvidos por alguns museus.

A equipe recuperou o DNA dos restos mortais de dez aborígenes. Em cada caso, os ossos antigos estavam relacionados mais estreitamente a pessoas que ainda vivem nas proximidades. “É bom descobrir a conexão”, disse Fourmile, coautor do novo estudo. “É como alguém que foi tirado dos pais, e quer descobrir quem são os seus verdadeiros pais biológicos”.

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