Bryan Denton para The New York Times
Bryan Denton para The New York Times

Abuso sistemático de meninos em província afegã vem à tona

165 estupros nas escolas e pela polícia foram registrados na região

David Zucchino e Fatima Faizi, The New York Times

05 de dezembro de 2019 | 06h00

CABUL, AFEGANISTÃO - O garoto afegão de 14 anos disse que seu professor pediu "um pequeno favor" em troca de sua aprovação em seus exames finais. Então, o homem o levou para a biblioteca da escola, trancou a porta e o estuprou, disse o garoto. Na mesma escola, um garoto de 17 anos relatou tratamento semelhante por parte do diretor. Ele disse que o homem ameaçou matá-lo caso contasse a alguém.

Mas os meninos não ficaram calados e contaram o que aconteceu a um grupo de defesa de crianças em sua província, que descobriu que esses dois meninos não eram as únicas vítimas. De apenas três escolas na província de Logar, ao sul da capital afegã, o grupo afirmou ter recebido depoimentos de 165 meninos que disseram ter sido abusados sexualmente em suas escolas ou por autoridades locais a quem foram pedir ajuda. 

Agora, o Afeganistão está novamente envolvido em uma discussão sobre abuso sexual desenfreado de crianças e na relutância de muitas autoridades em lidar com o problema. Depois de conversar com o canal de notícias TOLO sobre a investigação, o líder do grupo de defesa de Logar, Mohammad Musa, e um colega, Ehsanullah Hamidi, foram detidos pela agência nacional de inteligência do Afeganistão. Mas, após enfrentar a pressão dos Estados Unidos e de grupos de direitos humanos, o governo afegão os libertou.

O abuso sexual sistemático de meninos no Afeganistão tem sido um problema há gerações. Bacha bazi - significa brincadeira com meninos - e é uma tradição centenária comum entre homens em posições poderosas que mantêm os meninos como escravos sexuais. Os meninos Bacha Bazi são forçados a se vestir como meninas e a dançar para homens antes de serem estuprados. Às vezes, os meninos são prostituídos pelo lance mais alto. 

Musa disse que seu grupo (Logar Youth, Social and Civil Institution) começou a investigar depois de ver um post no Facebook, em maio, que mostrava homens com meninos em posições sexuais. O post foi excluído rapidamente, disse Musa, mas o grupo conseguiu guardar muitas das imagens. Com elas, era possível reconhecer alguns dos meninos, que já haviam, inclusive, se queixado de abuso sexual antes, disse ele. 

O grupo de Logar começou a conversar com os estudantes e encontrou dezenas de pessoas que disseram ter sido estupradas. Muitos de seus depoimentos foram confirmados por professores ou por outras pessoas na área. Com o desenrolar dos casos, pelo menos sete meninos que disseram ter sido estuprados foram encontrados mortos, disse Musa, provavelmente pelas mãos de suas famílias.

Musa disse que o grupo de defesa levou os depoimentos dos meninos à polícia da província de Logar, mas que nenhuma ação foi tomada. Ele disse que vários meninos que concordaram em ser interrogados pela polícia foram posteriormente estuprados por policiais.

Shapoor Ahmadzai, porta-voz da polícia da província de Logar, disse que as acusações eram falsas. "Ninguém foi à polícia por casos de estupro", disse ele. "São apenas rumores." Ainda assim, o Ministério da Educação em Cabul disse, em 14 de novembro, que estava enviando uma delegação à província para investigar.

Em Logar, Shafiullah Afghanzai, diretor da escola Hamid Karzai, onde os garotos de 14 e 17 anos afirmaram terem sido estuprados, disse que o antigo diretor da escola havia sido transferido para outro distrito no início deste ano, depois de ser acusado de agredir sexualmente um garoto.

Afghanzai disse que os meninos também foram estuprados por professores de outras duas escolas da província. Ele disse que três meninos que denunciaram estupros foram mortos mais tarde pelo Taleban, que controla partes de Logar e condena o abuso sexual como anti-islâmico. Um porta-voz do Taleban não respondeu aos pedidos de entrevista. Musa disse que 25 famílias abandonaram suas casas com vergonha depois que seus filhos disseram que foram estuprados. Em vários casos, os meninos foram expulsos de casa por seus pais, disse Musa.

Wakil Kaliwal, chefe do departamento de educação de Logar, disse que talvez haja um ou dois casos de estupro de estudantes nas escolas da província, mas nenhuma epidemia de agressão sexual. Kaliwal acrescentou, referindo-se às agressões sexuais de meninos: "É uma questão em todo o país e Logar não é uma exceção".

O Afeganistão passou a reconhecer o Bacha Bazi e as infrações relacionadas como violações ao código penal nacional em maio de 2017. A pena é de até três anos de prisão - três a cinco anos se a dança for "um evento público". Se o crime for cometido por um professor, um instrutor ou um "superior de qualquer maneira”, a pena é de cinco anos de prisão. 

Em um relatório de 2018, as Nações Unidas documentaram 78 casos de agressão sexual contra meninos no Afeganistão, acrescentando que "a impunidade para os autores continua sendo um sério desafio". Lyla Lynn Schwartz, que assessora vítimas de trauma no Afeganistão, incluindo estupro, disse que meninos afegãos estuprados por homens geralmente sofrem de extrema angústia emocional e psicológica. As vítimas são frequentemente excluídas ou atacadas por seus familiares, que interpretam a situação com uma desonra.

O garoto de 17 anos da escola Hamid Karzai disse que se tornou sem-teto depois que seu pai o expulsou de casa, e que não frequenta mais a escola. “Meu pai disse que se me visse de novo iria me matar", afirma a vítima. / A reportagem foi escrita com a colaboração de Farooq Jan Mangal, de Khost, Afeganistão, e por um jornalista do New York Times na província de Logar. TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

Tudo o que sabemos sobre:
Afeganistão [Ásia]

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.