Kiana Hayeri para The New York Times
Kiana Hayeri para The New York Times

Açafrão: a história de sucesso do 'ouro vermelho' no Afeganistão

Antes vista apenas como uma alternativa às plantações de papoula, a exportação da especiaria já rende US$ 25 milhões aos cofres do país

Mujib Mashal, The New York Times

17 de maio de 2019 | 06h00

CABUL, AFEGANISTÃO - No começo do período em que o Taleban controlou o país, nos anos 1990, um agricultor de baixa renda começou a viajar a diferentes vilarejos no Afeganistão apresentando uma ideia aos agricultores: abandonar o cultivo do algodão para se concentrar no açafrão.

Esse funcionário das agências de ajuda, Hashim Aslami, dizia que apesar de a colheita desse tempero ser difícil e demorada, o retorno financeiro poderia ser substancia: conhecido como "ouro vermelho", o açafrão pode ser vendido por até US$ 1.540 o quilo no mercado local, alcançando valores muito maiores em outros lugares. 

Segundo ele, o gênero pode até se tornar uma alternativa capaz de concorrer economicamente com a papoula usada na fabricação do ópio. Desse modo, Aslami conseguiu convencer seus superiores, obtendo uma doação de US$ 100 para dar início a um programa piloto de plantio do açafrão em quatro fazendas. 

Duas décadas mais tarde, Aslami, de 63 anos e voz calma, é um dos orgulhosos visionários por trás de uma rara história de sucesso: uma indústria exportadora de US$ 25 milhões que segue crescendo. O Afeganistão é, agora, o terceiro maior produtor mundial de açafrão, perdendo apenas para Irã e Índia.

A ascensão de Aslami fez dele o principal assessor do governo no setor do açafrão, que está crescendo em ritmo de aproximadamente 20% ao ano, de acordo com ele. Como alguém que enxerga no trabalho seu propósito na vida, ele investe cada momento imerso em reuniões, leituras e conversas diárias.

"Dedico todo o meu tempo ao açafrão, menos quando estou dormindo", disse Aslami sorrindo em seu apartamento em Cabul, onde mora com a mulher. Até seus sonhos foram tomados pelo tempero. "Certa vez, sonhei que todos os meus desejos tinham sido alcançados e estávamos produzindo 50% do açafrão do mundo, esse tipo de coisa. E eu não sabia o que faria agora".

No momento, esse sonho está longe de se tornar realidade. O açafrão afegão corresponde a apenas cerca de 4% da produção global. Das cerca de 390 toneladas de açafrão produzidas no ano passado, quase 15 vieram do Afeganistão. A maior parte veio do Irã, onde ele conheceu o tempero: chegou ao país como refugiado em 1981 para escapar e um governo brutal. Foi também no Irã que ele começou a se dar conta do quanto o açafrão seria promissor para os agricultores afegãos.

O açafrão é colhido a partir de uma variedade da flor crocus, resistente planta perene que cresce a partir de bulbos e consegue suportar o clima difícil do Afeganistão. As flores, cada uma contendo três estigmas vermelhos que são transformados no tempero, devem ser colhidas manualmente de madrugada, antes da abertura dos botões.

As plantas florescem por cerca de três semanas por ano, entre o fim de outubro e o começo de novembro. Depois de colhidas, as flores são secadas, e os estigmas, separados. Os trabalhadores devem usar roupas limpas, luvas e máscaras, pois o mais leve odor pode ser absorvido pela flor, reduzindo a qualidade do tempero. A abundância de mão de obra barata confere ao Afeganistão uma vantagem no ramo do açafrão, que requer trabalho intensivo.

De acordo com Aslami, atualmente, cerca de 24 mil agricultores cultivam o açafrão em 33 das 34 províncias do Afeganistão, frequentemente em terrenos pequenos. Por meio de seu trabalho, e apesar de todo o caos do Afeganistão, Aslami conseguiu prosperar. Ele se diz contente, mas fica claro que ainda não está totalmente satisfeito.

"Talvez eu tenha perdido muitas oportunidades perseguindo essa meta", disse ele. "Poderia ter ido à Europa, me tornado um cidadão local e desfrutado uma vida segura, garantindo o futuro dos meus filhos. Mas, enquanto ser humano com um objetivo de vida, que teve uma ideia e buscou difundi-la, estou 100% satisfeito".

"Mas o que eu queria - o que eu quero", disse ele, corrigindo-se após uma pausa, "essa capacidade ainda não foi criada". / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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