Associated Press
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Acordo entre militares e manifestantes divide poder (e opiniões) no Sudão

Pacto oferece à população esperança de uma transição para a democracia após 30 anos de ditadura

Declan Walsh, The New York Times

12 de julho de 2019 | 06h00

Faz apenas cerca de um mês que o movimento em defesa da democracia no Sudão foi duramente atacado. Manifestantes tiveram que se esconder depois que soldados avançaram contra a principal área dos protestos, saqueando, estuprando e fuzilando dezenas de pessoas. O acesso à internet foi interrompido. Corpos eram arrastados do Nilo.

Então, no início do mês, lideranças dos manifestantes se reuniram com seus algozes do exército e, em questão de dois dias, foi estabelecido um acordo de partilha do poder no Sudão até que se possa realizar eleições, em pouco mais de três anos. O acordo oferece à população de um dos maiores e mais importantes países da África a frágil esperança de uma transição para a democracia após 30 anos de ditadura do ex-presidente Omar Hassan al-Bashir, deposto em abril.

Os líderes das manifestações tiveram de fazer uma concessão significativa: um general do exército vai governar o Sudão durante os primeiros 21 meses de transição, seguido por um líder civil pelos próximos 18 meses. Muitos duvidavam que o exército aceitaria sequer uma partilha do poder. Agora, o conselho governante será composto por cinco civis, cinco militares e um 11º membro escolhido consensualmente.

Ainda que mediadores da União Africana tenham ajudado na negociação do acordo de partilha do poder, o processo foi iniciado por uma semana de intensa atividade nas ruas em resposta à brutalidade do exército, e uma rodada de negociações nos bastidores promovida por uma incomum coalizão de potências estrangeiras que antes discordavam entre si quanto ao destino do Sudão. Os termos começaram a se definir em uma reunião secreta.

Diplomatas dos Estados Unidos, Grã-Bretanha, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos convocaram lideranças do exército e das manifestações para seu primeiro encontro após o massacre de 3 de junho comandado pelos militares, quando pelo menos 128 pessoas morreram, de acordo com médicos.

Até então, as delegações árabes defendiam abertamente o exército do Sudão no impasse com os civis, aparentemente temendo que a revolução servisse como precedente para seu próprio governo autocrático. Representantes americanos e britânicos defendiam abertamente os manifestantes.

Mas, no dia 29 de junho, os diplomatas participaram de uma reunião secreta em Cartum, com o objetivo de amenizar as tensões entre dois lados cujas diferenças tinham sido escritas com sangue. Líderes dos manifestantes se viram sentados diante do general Mohamed Hamdan, comandante paramilitar acusado de comandar o massacre em Cartum no dia 3 de junho. Representantes ocidentais e sudaneses que não quiseram ser identificados por causa da natureza delicada das negociações descreveram detalhes da reunião.

O súbito interesse da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes em se envolver nas negociações foi suscitado pelas táticas brutais do general Hamdan, que, aparentemente, foi longe demais até mesmo para países que enfrentam críticas pela conduta de suas próprias forças no Iêmen. De acordo com um representante ocidental, eles também perceberam que era grande demais o número de sudaneses contrários ao general Hamdan, obrigando os países do Golfo a defender uma abordagem mais diplomática enquanto mantêm seu apoio ao exército.

Até recentemente, os governantes árabes defendiam abertamente os generais do Sudão, prometendo US$ 3 bilhões em auxílio para reforçar suas unidades. O príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman, e seu equivalente emirático, Mohammed bin Zayed, receberam os generais sudaneses em suas capitais.

Os governantes árabes também foram motivados pelo desejo de proteger seus esforços de guerra no Iêmen. Desde 2015, o general Hamdan comanda uma grande força de soldados sudaneses que combatem pela coalizão liderada pelos sauditas contra os rebeldes Houthi no Iêmen. Mas, conforme aumentou o número de mortos no massacre de Cartum no início de junho, representantes sauditas e emiráticos se disseram surpresos diante de sugestões de que a violência teria sua aprovação. 

Discretamente, eles se aliaram aos esforços ocidentais na busca por uma solução negociada para a crise. Uma impressionante demonstração de poder popular obrigou os generais a ceder. Centenas de milhares de pessoas tomaram as ruas do Sudão no dia 30 de junho, pela primeira vez desde o banho de sangue do dia 3. Representantes ocidentais disseram que os generais sudaneses ficaram desarmados diante do tamanho e da intensidade da multidão.

Os militares ainda não disseram quando o acesso à internet será restaurado, uma das principais demandas dos manifestantes. Há dúvidas se uma prometida investigação imparcial das mortes do dia 3 de junho será conduzida por uma entidade de direitos humanos da União Africana ou por uma entidade local. Não se sabe ao certo o que vai ocorrer se a investigação implicar o general Hamdan, conhecido como Hemeti, nas mortes, resultado que poderia levar ao colapso do processo político. Para alguns analistas, os civis cederam demais.

“Nada indica que isso representará uma transferência significativa do controle dos recursos, decisões e, principalmente, dos serviços de segurança para os civis", disse Payton Knopf, do Instituto da Paz dos EUA. “Essencialmente, a situação dá apenas tempo e espaço para que os militares e Hemeti consolidem de vez seu poder.” Para o especialista Ahmed Soliman, do instituto Chatham House, o trabalho difícil está apenas começando. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALLIL

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