Hana Asano/The New York Times
Hana Asano/The New York Times

O açúcar no seu sangue está prejudicando seus treinos?

Estudos epidemiológicos mostram que pessoas com açúcar elevado no sangue costumam ter baixa aptidão aeróbica

Gretchen Reynolds, The New York Times - Life/Style

17 de agosto de 2020 | 05h00

Pessoas com níveis consistentemente altos de açúcar no sangue podem obter menos benefícios com seus treinos do que aquelas cujos níveis de açúcar são normais, de acordo com um novo estudo sobre nutrição, açúcar e exercícios físicos. O estudo, que envolveu roedores e humanos, sugere que a ingestão de uma dieta rica em açúcar e alimentos processados, a qual costuma preparar o terreno para um aumento na taxa de açúcar no sangue, pode prejudicar nossa saúde a longo prazo, alterando a forma como nosso corpo responde aos exercícios.

Já temos muitas evidências, é claro, de que a taxa de açúcar elevada não é saudável. Pessoas com hiperglicemia tendem a estar acima do peso e, no longo prazo, a enfrentar maiores riscos de doenças cardíacas e diabetes tipo 2, mesmo que, nos estágios iniciais, sua condição não preencha os critérios para essas doenças.

Elas também tendem a estar fora de forma. Segundo estudos epidemiológicos, as pessoas com açúcar elevado no sangue também costumam ter baixa aptidão aeróbica. Segundo estudos com animais, ratos criados com baixa atividade física desde o nascimento também apresentam problemas precoces com as taxas de açúcar no sangue. Essa interrelação entre o açúcar no sangue e o condicionamento físico muitas vezes se dá porque a baixa aptidão aeróbica está intimamente ligada a um alto risco de morte prematura.

Mas a maioria dos estudos anteriores sobre açúcar no sangue e condicionamento físico era epidemiológica, o que significa que eles identificaram vínculos entre as duas condições, mas não sua causalidade ou mecanismos. Eles não esclareceram se a hiperglicemia geralmente precede e provoca o condicionamento ruim ou vice-versa, nem como uma das condições consegue influenciar a outra.

Assim, para o novo estudo, publicado no mês passado na Nature Metabolism, pesquisadores do Joslin Diabetes Center de Boston e de outras instituições decidiram aumentar os níveis de açúcar no sangue de ratos e ver o que acontecia quando se exercitavam.

Eles começaram com camundongos adultos e, para alguns deles, trocaram a comida normal por uma dieta rica em açúcar e gordura saturada, semelhante àquela que muitos de nós consumimos hoje em dia no mundo desenvolvido. Esses ratos logo ganharam peso e desenvolveram altos níveis de açúcar no sangue.

Os pesquisadores injetaram em outros ratos uma substância que reduz sua capacidade de produzir insulina, um hormônio que ajuda a controlar o açúcar no sangue, semelhante ao aplicado em pessoas que sofrem de certas formas de diabetes. Esses animais não engordaram, mas os níveis de açúcar no sangue aumentaram na mesma proporção que os ratos do grupo da dieta açucarada.

Outros animais continuaram com a ração normal, como grupo de controle.

Depois de quatro meses, os cientistas avaliaram o condicionamento de cada camundongo, medindo quanto tempo eles conseguiam correr na esteira antes da exaustão. Depois, os cientistas colocaram uma roda na gaiola de cada animal e os deixaram correr à vontade pelas seis semanas seguintes. Em média, cada rato percorreu cerca de 480 quilômetros durante esse mês e meio.

Mas nem todos obtiveram o mesmo nível de condicionamento físico. O grupo de controle passou a correr por um período muito maior na esteira antes da exaustão; eles ficaram muito mais em forma. Mas os animais com alto nível de açúcar no sangue mostraram pouca melhora. Sua aptidão aeróbica mal havia mudado.

Curiosamente, sua resistência ao exercício era a mesma, independentemente de seus problemas de açúcar no sangue serem decorrentes da má alimentação ou da falta de insulina, de estarem magros ou acima do peso. Se eles tinham alto nível de açúcar no sangue, eles não sentiam os benefícios do exercício.

Para entender melhor o porquê, os cientistas deram uma olhada nos músculos internos. E as condições foram reveladoras. Os músculos dos animais do grupo de controle estavam cheios de fibras musculares novas e saudáveis, com uma rede de novos vasos sanguíneos transportando oxigênio e combustível extras. Mas os tecidos musculares dos animais com alto nível de açúcar no sangue exibiam principalmente novos depósitos de colágeno, uma substância rígida que parecia ter aglomerado os vasos sanguíneos e impedido que os músculos se adaptassem ao exercício e contribuíssem para melhorar a forma física.

Por fim, como os roedores não são pessoas, os cientistas avaliaram os níveis de açúcar no sangue e a resistência física de um grupo de 24 jovens adultos. Nenhum tinha diabetes, embora alguns apresentassem níveis de açúcar no sangue que poderiam ser considerados pré-diabéticos. Durante os testes de condicionamento na esteira, os voluntários com o pior controle de açúcar no sangue também tiveram a pior condição física. E, quando os cientistas examinaram microscopicamente seus tecidos musculares após o exercício, encontraram alta ativação de proteínas que podem inibir melhorias na condição aeróbica.

Tomados como um todo, esses resultados em camundongos e humanos sugerem que “o hábito de banhar seus tecidos com açúcar simplesmente não é uma boa ideia” e pode minar os benefícios subsequentes do exercício, diz Sarah Lessard, professora assistente do Joslin Diabetes Center e da Faculdade de Medicina de Harvard, que supervisionou o novo estudo.

Em termos práticos, as descobertas sugerem que, para aquelas pessoas cujos níveis de açúcar no sangue dependem da dieta, o ideal é “reduzir o açúcar” e os alimentos gordurosos altamente processados que também podem aumentar o açúcar no sangue e limitar os efeitos dos exercícios, ela diz. (Os ratos do grupo de controle comeram uma comida rica em carboidratos, portanto, os carboidratos, por si só, não são necessariamente o problema, ela diz; a qualidade da dieta, sim).

Mais fundamentalmente, o estudo sugere que “devemos pensar a dieta junto com o exercício” quando queremos melhorar nossa saúde, diz Lessard. Os dois aspectos afetam um ao outro e influenciam como cada um deles nos afeta mais do que esperávamos, diz ela.

Ainda mais importante, talvez: o estudo traz alguns dados encorajadores, aponta Lessard. Os ratos hiperglicêmicos ganharam pouca resistência em suas semanas de exercícios, mas estavam começando a mostrar sinais precoces de um melhor controle do açúcar no sangue, diz ela. Então, é preciso tempo e determinação, mas o exercício físico pode ajudar as pessoas com hiperglicemia a estabilizar o açúcar no sangue, diz ela. Depois, essas pessoas vão sentir o condicionamento físico melhorar. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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