Julie Glassberg / The New York Times
Julie Glassberg / The New York Times

Adèle Haenel: 'Levei muito tempo para me considerar uma vítima'

A atriz foi a primeira da França a falar publicamente sobre abusos na indústria cinematográfica do país; à época, o movimento #MeToo completava dois anos

Elian Peltier, The New York Times

04 de março de 2020 | 06h00

PARIS - No fim do ano passado, quando Adèle Haenel disse que havia sido abusada sexualmente quando criança por um diretor de cinema, ela se tornou a primeira atriz da França a falar publicamente sobre abusos na indústria cinematográfica do país. Na época, o movimento #MeToo tinha dois anos.

Em uma entrevista recente ao New York Times – a primeira de Haenel desde que ela fez as acusações em novembro –, a atriz pediu ao governo do presidente Emmanuel Macron que intensifique seus esforços para combater a violência contra as mulheres. “O sistema judicial precisa mudar para tratar melhor as vítimas de violência sexual”, afirmou a artista.

O diretor Christophe Ruggia, a quem Haenel acusou de assédio sexual e contatos inapropriados, os quais ela disse terem começado quando ela tinha 12 anos de idade, negou as acusações. Em janeiro, ele foi acusado de agressão sexual a menores de 15 anos e uma investigação está em andamento.

Histórias semelhantes se seguiram, entre elas uma acusação da fotógrafa Valentine Monnier de que o diretor de cinema Roman Polanski a estuprou em 1975. Ele nega a acusação.

Semanas antes do lançamento americano de seu último filme, Retrato de uma jovem em chamas, Haenel, de 31 anos, concedeu uma entrevista em Paris. A transcrição foi editada para maior clareza e concisão.

Como você descreveria a maneira como o #MeToo se desenrolou na França?

O #MeToo vive um paradoxo aqui: a França é um dos países onde o movimento foi mais seguido de perto nas redes sociais, mas, de uma perspectiva política e nas esferas culturais, a França perdeu completamente o bonde. Muitos artistas apagaram, ou quiseram apagar, a distinção entre comportamento sexual e abuso. O debate se centrou na questão da “liberdade para abordar” [dos homens]. Mas abuso sexual é abuso, não comportamento libertino. As pessoas continuam confundindo isso.

Como isso ajudou você a contar sua própria história?

Me ajudou a perceber que minha história não era apenas pessoal, que era a história de muitas mulheres e crianças. Mas não me sentia pronta para compartilhá-la quando surgiu o #MeToo. Levei muito tempo para me considerar uma vítima.

As conversas recentes sobre violência sexual no mundo do cinema se concentraram em Polanski, que foi indicado ao Césars por seu último filme, ‘O Oficial e o Espião’. Você também foi indicada.

Indicar Polanski é cuspir na cara de todas as vítimas. Significa que estuprar mulheres não é tão ruim assim. Quando O Oficial e o Espião foi lançado, ouvimos protestos sobre censura. Não é censura. Não, a verdadeira censura no cinema francês é a invisibilidade de algumas pessoas. Onde estão os atores negros? Os diretores negros?

Mas ‘Retrato de uma jovem em chamas’ oferece uma visão diferente do amor.

Não aplicamos um manual tradicional, aquela história do “se apaixonar sem entender o porquê”. Isso geralmente envolve dominação e relações desiguais de poder. O filme se liberta disso. Oferecemos algo que, em termos políticos e artísticos, nos torna menos submissas. É uma nova versão do desejo.

Quais são seus planos agora? Eles foram afetados pela sua história?

É muito cedo para dizer, mas realmente não importa se isso vai prejudicar minha carreira. Acho que fiz algo de bom pelo mundo, algo que faz com que eu me sinta forte. Ando a pé por Paris – não vivo em uma bolha. Às vezes, quando me veem pela rua, as pessoas me agradecem por ter erguido a voz. Isso me deixa orgulhosa e feliz. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.