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Stephen B. Morton/The New York Times
Stephen B. Morton/The New York Times
Constance Sommer, The New York Times - Life/Style

30 de maio de 2021 | 05h00

A pandemia transformou a casa de Tiffany Lee em um campo de batalha. Com medo da doença, Tiffany começou a tomar precauções já em março de 2020. Ela pediu ao filho Bowen Deal, conhecido como Bo, 15 anos, que praticasse o distanciamento social. E insistiu que usasse máscara. Mas ele não gostou da ideia, porque muitas pessoas em sua cidade do interior não obedecem a estas normas, ela disse.

“Ele vê todos os colegas de classe irem a festas e jogar boliche e ele fica bravo comigo porque não o deixo ir”, contou. Bo está no primeiro ano do secundário em Metter, Georgia, na região de Savannah. “Ele acha que eu sou uma péssima mãe porque fico entre ele e seus amigos”.

Em geral, é na adolescência que os filhos se separam dos pais, mas os adolescentes de hoje passam mais tempo em casa do que nunca. Os adolescentes que estão ansiosos por perambular em grupos estão confinados aos seus quartos conversando com imagens de poucos pixels nas telas dos seus celulares.

“O grupo que mais sofre”, no que diz respeito ao isolamento “é o dos 13 aos 24 anos”, explicou Harold Koplewicz, presidente e diretor médico do Child Mind Institute de Nova York. “Eles estão perdendo o processo de separação dos pais. Estão tendo problemas com seus objetivos acadêmicos. Muitas das coisas em que estavam trabalhando se foram”.

Mas por mais difícil que seja ser adolescente hoje em dia, é desgastante ser o pai ou a mãe de um deles. Uma pesquisa de âmbito nacional entre pais de adolescentes, divulgada em março pelo C.S. Mott Children’s Hospital, mostra os pais alternando táticas diferentes, na tentativa de preservar a saúde mental dos filhos.

Cerca da metade dos entrevistados afirmou que a saúde mental dos seus filhos adolescentes mudou ou piorou na pandemia. Em resposta, a metade destes pais tentou relaxar as normas da covid-19 relativas à família, ou às redes sociais. Trinta por cento falaram com um professor ou com um conselheiro da escola a respeito do filho; outros 30% contaram ter solicitado ajuda formal para a saúde mental.

“Não tivemos nenhuma preparação para isto”, comento Julie Lythcott-Haims, ex-diretora de estudantes novatos de Stanford e autora do livro How to Raise an Adult: Break Free of the Overparenting Trap and Prepare Your Kid for Adulthood (Como criar um adulto: liberte-se da armadilha da paternidade e prepare seu filho para a vida adulta, em tradução livre).

“A maioria de nós, pais, não teve nada que se parecesse remotamente com a prática” em uma pandemia, ela disse, “por isso tivemos de arriscar de qualquer maneira, desempenhando ao mesmo tempo o papel de um pai em quem os filhos podem confiar para o apoio emocional”.

“Não surpreende”, prosseguiu, “que tenhamos chegado ao limite”.

A disponibilidade de vacinas eficazes, embora bem-vinda, acrescenta mais incertezas, segundo ela. Voltaremos ao normal? Quando? O que é normal agora?

“Nós nos encontramos em uma situação de animação suspensa”. Estamos no limbo, literalmente. Isto cria de fato certos temores existenciais: Será que vou ficar bem? Minha família vai ficar bem?”

Confiem nos seus filhos

Para Tiffany, 43 anos, os conflitos com o filho chegaram ao ápice em janeiro. Ela passara a temporada de férias aguentando as ofensas que as clientes que não queriam usar a máscara em sua butique atiravam para ela. Ao mesmo tempo, Bo pediu permissão para voltar a frequentar as aulas presenciais.

“Eu estava perdendo o juízo, não estava querendo brigar ainda mais com ele”, afirmou. E explicou que se ele pegasse covid-19 e "a levasse para a família", a responsabilidade seria dele. “Entendeu isto, não é?”

Um certo grau de autonomia é importante para os adolescentes, mas na pandemia eles pouco tiveram, disse Jennifer Kolari, autora de Connected Parenting: How to Raise a Great Kid (Paternidade conectada: como criar uma ótima criança) e terapeuta e instrutora de pais em San Diego, onde dirige oficinas sobre como ser pais. Para alguns, durante a pandemia, o seu quarto todo bagunçado talvez seja o único lugar em que se sentem no controle, ela disse.

E sugeriu marcar uma conversa com o seu adolescente, mais para o fim da tarde ou durante a semana, para discutir com ele o problema que leva os dois a brigar.

“Você pode dizer, ‘À noite, vamos conversar, eu quero ouvir o que você está planejando’”, ela disse. “Eu acredito que você tenha um plano, e se me contar do que se trata, acho que vai nos ajudar”.

Às voltas com o racismo

Entre as tensões raciais e os crimes de ódio, incluindo a onda de violência contra os asiáticos, muitos pais não brancos tentaram  ajudar os filhos a processar o racismo e a agitação civil.

Théa Monyée, uma terapeuta de Los Angeles, viu suas três filhas adolescentes negras participarem das batalhas nas redes sociais enquanto ela e o marido lutavam para descobrir qual era a melhor maneira de apoiá-las. Nós “não quisemos policiar este processo”, afirmou. “Elas precisavam ficar revoltadas por um tempo”. Por outro lado, se uma das meninas precisava de um lugar para descarregar a sua frustração ou raiva, “nós tínhamos de encontrá-lo, e então quando elas estivessem tristes ou frustradas ou magoadas, tínhamos de ter essas conversas”.

Ao mesmo tempo, Monyée continuava com o seu trabalho – além de começar um negócio e comandar um podcast - com os problemas das filhas com a escola virtual, enquanto as pessoas próximas dela lutavam com a covid-19 e a perda da renda. Ela e o marido tinham de lembrar continuamente um para o outro, ela disse, “de deixar um espaço para nós também”.

Ragin Johnson acha que está mais aterrorizada do que nunca por seu filho de 17 anos, um jovem negro alto que tem autismo. “Ele é um menino muito cordial”, disse Ragin, 43 anos, professora do quinto ano em Columbia, Carolina do Sul, “e eu não quero que alguém fique com uma impressão errada, pensando que ele é agressivo quando, ao contrário, é muito brincalhão”.

Criar diferentes caminhos para um relacionamento

Se toda conversação acabar em uma briga – ou se o seu adolescente taciturno não está disposto sequer a começar uma conversa com você – tente uma tática diferente. Proponha dar uma volta de carro com o seu filho, mas com condições específicas. “Deixe que ele seja o DJ”, disse Jennifer Kolari. “E  fique quieta. Não use este momento para dar lições. Deixe seu filho falar”.

Se ele se abrir, então ou mais tarde, tente não resolver os problemas dele. “Fique ouvindo, e ouça compenetrada”, disse Koplewicz. “Estará validando o que ele está falando. E quando ele estiver pronto, diga: “Tudo bem, o que mais?’”

Peça ajuda

Se seu filho parecer inusitadamente triste ou emocionalmente frágil, não tenha medo de procurar ajuda. Koplewicz não era fã da terapia à distância antes da pandemia, mas os sucessos que ele viu neste campo neste último ano o converteram, ele disse. Tiffany encontrou um terapeuta on-line na BetterHelp.com, que a ajudou e ajudou Bo a superar esse período conturbado. “Neste último ano”, falou, “a terapia impediu que eu caísse no fundo do poço”. 

Mas a terapia não é o único tipo de apoio. Johnson preferiu um grupo muito unido de amigas. “A nossa sociedade está treinada para tentar controlar as coisas”, afirmou Patrick Possel, diretor do Programa Cardinal Success, que fornece serviços gratuitos para a saúde mental a pessoas que não têm seguro ou cujo seguro é reduzido, em Louisville, Kentucky. Muitos clientes do programa estão lidando com várias crises, da insegurança do emprego e da casa ao abuso e a suas lutas pessoais para preservar a própria saúde mental.

Quando um adolescente da casa começa a brigar, os pais podem dizer que não dispõem de recursos para tratar deste problema também. Mas Possel e seus colegas os aconselham a olhar em volta, perguntando aos clientes: “Há uma rede, um amigo, um profissional que possa ajudá-lo?”, ele disse.

Cuidem de vocês mesmos

Liz Lindholm supervisiona o ensino à distância das filhas gêmeas de 12 anos e do filho de 18 em casa, em Federal Way, Washington, subúrbio de Seattle, enquanto trabalha em administração na área de saúde.

O que está sendo mais difícil neste ano “é encontrar um equilíbrio entre a vida e o trabalho”, afirmou, “sendo que o trabalho não tem fim e a escola não tem fim e tudo de certo modo se mescla”.

Tentar algo novo – voltar à escola em janeiro – se revelou o segredo para Tiffany e seu filho.

Tiffany ficou agradavelmente surpresa com o fato de Bo ser um dos poucos estudantes que usam máscara quando ela vai pegá-lo na escola. Um dia, no caminho de volta no carro, ele disse à mãe que ficou espantado em descobrir que os seus amigos não entendiam como a vacina funciona. Desde então, ela notou uma mudança no grupo de amigos do filho, e ela diz que a tensão em casa diminuiu consideravelmente.

“Acho que o nosso relacionamento ficou mais forte agora, principalmente desde que eu tive de confiar nele para sair e tomar suas próprias decisões”, afirmou. “Não sou mais a mãe ruim que ele pensava. Sinto que o estou respeitando mais”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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