Jeenah Moon para The New York Times
Jeenah Moon para The New York Times

Advogado exilado adverte sobre o 'longo braço' da China

Segundo Teng Biao, as companhias ocidentais parecem curvar-se à pressão de Pequim

Edward Wong, The New York Times

20 de junho de 2018 | 15h00

De sua casa em Nova Jersey, Teng Biao observa frustrado o que vê como a rapidez e a fúria com que, este ano, as companhias ocidentais trataram de apresentar suas desculpas à China.

Primeiramente, a cadeia de hotéis Marriott International se desculpou com o governo chinês em janeiro por ter divulgado uma pesquisa realizada entre os clientes que definia Tibet, Hong Kong, Macau e Taiwan como territórios separados, uma violação ao cânone do Partido Comunista, a qual provocou a ira de alguns cidadãos chineses.

Depois, a companhia Gap Inc. postou uma mensagem aos chineses pedindo desculpas por uma camiseta com um mapa da China que suscitou críticas do mesmo teor. E em maio, a Air Canada em seu site começou definindo Taipé, capital de Taiwan, como parte da China governada pelos comunistas, o que os taiwaneses repudiam.

Para Teng, um dos advogados mais destacados na luta pelos direitos civis na China, tudo isso não passa de um comportamento medroso das empresas ocidentais, preocupadas em preservar seu acesso ao enorme mercado de consumo chinês.

“Nos últimos dois ou três anos, andei prestando atenção na autocensura de acadêmicos, instituições e companhias ocidentais”, disse recentemente Teng, 44. “É uma questão urgente. A crescente ameaça da China à liberdade e à democracia internacional tornou-se um tema inquietante”.

Sob a crescente perseguição das autoridades chinesas, Teng deixou o país em 2012 e viveu algum tempo em Hong Kong e nos Estados Unidos. Ele não se arrisca a retornar em razão da repressão oficial, ao longo dos últimos anos, contra advogados defensores dos direitos humanos que levou muitos de seus amigos para a cadeia. Atualmente, ele vive com a esposa, Lynn Wang, e duas filhas de 10 e 12 anos em West Windsor, em Nova Jersey.

O interesse de Teng em chamar a atenção para “o longo braço da China”, como o define, decorre de uma experiência pessoal. Em 2016, ele entrou publicamente em conflito com a Associação Americana de Advogados quando a instituição decidiu rescindir uma proposta de publicação de um livro do próprio Teng sobre a história do movimento dos direitos humanos liderado por advogados na China. Em sua opinião, o grupo não quis comprometer suas operações em Pequim. A associação afirmou que a proposta foi retirada por razões econômicas.

“A repressão da qual Teng Biao se tornou vítima faz parte de todo este novo conjunto de questões”, disse Eva Pils, estudiosa do King’s College de Londres, que dirige um centro na Universidade Chinesa de Hong Kong, da qual Teng foi professor convidado. “Estou preocupada porque a repressão está cruzando fronteiras, e o que me assusta é como a China muda as regras”.

Teng cresceu em uma aldeia na província de Jilin, no nordeste do país. Seu pai era pintor e sua mãe, camponesa. Ele conseguiu uma vaga na prestigiosa Universidade de Pequim e decidiu estudar Direito, obtendo o doutorado em 2002.

Enquanto ensinava na Universidade de Ciências Política e Direito da China, envolveu-se no caso de Sun Zhigang, um trabalhador migrante morto pela polícia enquanto estava preso, no sul. Depois disso, Teng e outros advogados passaram a dedicar-se ao ativismo e começaram a ser perseguidos pelas autoridades.

Teng e a esposa observaram com ansiedade enquanto o presidente Xi Jinping endurecia o controle após tomar o poder, em 2012. Teng, que foi preso repetidas vezes e espancado pela polícia, lecionou na Universidade chinesa de Hong Kong como acadêmico visitante em 2012, e dois anos mais tarde foi para os Estados Unidos com a filha mais nova, após receber um convite de Harvard. Em 2015, a esposa e a filha mais velha conseguiram fugir para o sudeste da Ásia com a ajuda de contrabandistas.

Algum tempo depois, Teng criou vínculos com a Universidade de Nova York e o Instituto para Estudos Avançados em Princeton, Nova Jersey. Em abril, escreveu um ensaio para o ChinaFile, um site da Asia Society em Nova York, no qual afirmava que “o novo totalitarismo (de Xi) e o velho estilo de totalitarismo de Mao não diferem muito entre si”.

Teng alertou que alguns cidadãos chineses nos Estados Unidos tentam monitorar os dissidentes no exílio e informar as autoridades da China. E destacou os cerca de 150 capítulos da Associação dos Estudantes e dos Acadêmicos Chineses, em que alguns integrantes mantêm contato com diplomatas chineses e procuram reprimir discussões nas universidades que choquem com a visão oficial chinesa.

De acordo com Eva Pils, embora seja importante ficar de olho em operações de influência, os ocidentais precisam tomar cuidado com os pressupostos que fazem sobre chineses que vivem no exterior.

“É inegável que há um problema, e nós devemos analisá-lo”, disse. “Mas há o risco de voltarmos às ideias da Guerra Fria. É importante ter clareza quanto aos perigos disso. Um risco, obviamente, é que acabemos reproduzindo o que o governo chinês espalha a respeito das pessoas do Ocidente - que são subversivas e estão aqui para minar o sistema”.

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