Kiana Hayeri para The New York Times
Kiana Hayeri para The New York Times
Rod Nordland, The New York Times

25 de janeiro de 2019 | 06h00

CABUL, AFEGANISTÃO - O menino de 14 anos estava agachado no chão da prisão e começou a entoar versos de um poema pashtun numa voz aguda e clara. Era uma elegia à capela na qual um prisioneiro implora à família que não o visite no feriado muçulmano do Eid.

Não venham nos buscar durante o Eid, pois não temos liberdade de dar-lhes as boas-vindas.

Não quero que olheis para o meu peito, pois minha camisa não tem botões.

Não venham a este sanatório, pois aqui somos todos lunáticos.

O nome do menino era Muslim, um dos 47 rapazes detidos na prisão juvenil Badam Bagh, em Cabul, considerados ameaças à segurança nacional. A maioria foi acusada de instalar, transportar ou vestir bombas, e muitos deles, como Muslim, foram acusados de se prepararem para missões como homens-bomba.

Nenhum dos parentes de Muslim veio visitá-lo durante o Eid em meados do ano passado. "Estão furiosos comigo", disse ele. "Não posso culpá-los." Para as autoridades, meninos como ele representam um dilema: o que fazer com eles quando terminarem de cumprir suas sentenças, que costumam ser de dois a dez anos. Muitos serão libertados pouco depois de chegarem à idade adulta.

O Ministério da Justiça do Afeganistão permitiu em agosto a visita de uma repórter à prisão. Por causa da idade, os meninos foram identificados apenas pelo nome, e apenas no caso de nomes comuns no Afeganistão.

Os meninos que ocupam a ala destinada pelas autoridades de Badam Bagh aos futuros homens-bomba têm idades entre 12 e 17 anos. Seus casos estavam em diferentes estágios: alguns já tinham sido condenados e cumpriam pena, enquanto outros aguardavam julgamento.

Todos tinham uma queixa em comum: não havia nenhum homem-bomba na ala de suicidas da prisão. Muslim, que é da província de Kunar, no leste do Afeganistão, disse ser apenas um recruta do Taleban. "Não sou um homem-bomba", disse ele. "O Taleban me obrigou a combater nas suas fileiras." Mas, em seguida,  acrescentou com um sorriso, "todos mentem na prisão".

Ele disse que os parentes nunca o visitaram na prisão, onde já estava há 20 meses, faltando cumprir mais dois anos de pena por planejar um atentado suicida. Shakur, de 14 anos, da província de Kunduz, estava na prisão há uma semana quando foi entrevistado. 

Já com quase 1,8 metro de altura, Shakur tinha cortes e contusões na cabeça e nos braços, decorrentes de uma bomba que explodiu acidentalmente no seu colo. Ele disse que estava com outra pessoa, que armou a bomba e em seguida fugiu.

Atiqullah, 16 anos, já estava preso há sete meses depois de detonar uma bomba que deixou seis mortos e oito feridos. A polícia disse que a vida de Atiqullah foi poupada porque a bomba detonou antes da hora, mas, claramente, seu objetivo era morrer no ataque. "Sou culpado", disse ele. "Mas não era um atentado suicida."

Para o funcionário do Ministério da Justiça Mohammad Aman Riazat, essas alegações seriam fantasiosas. "Todos se dizem inocentes na prisão", disse ele. "Muitos desses rapazes são homens-bomba." Os atentados suicidas são endêmicos no Afeganistão. Em 2017, de acordo com relatos reunidos pelos New York Times, o país teve pelo menos 67 ataques suicidas, envolvendo pelo menos 151 homens-bomba.

A frequência de atentados suicidas foi mais alta no ano passado, e acredita-se que o motivo seja a ação do Estado Islâmico no Afeganistão, ainda que a maioria dos homens-bomba seja do Taleban. É difícil encontrar estatísticas para a proporção de crianças entre os suicidas, mas acredita-se que muitos homens-bomba sejam meninos ou jovens rapazes. 

A maioria dos extremistas juvenis presos em Badam Bagh insistiu que foram convencidos por assistentes sociais a rejeitar o Taleban. Não se trata de uma conversão que seus carcereiros levem a sério. Apenas um dos doze meninos entrevistados disse ainda defender o Taleban; até os acusados de envolvimento em atentados suicidas fracassados se recusaram a admiti-lo.

O ministro da Justiça do Afeganistão, Abdul Baseer Anwar, disse que as sentenças para menores infratores costumam ser lenientes, mas o ministério carece de recursos e instalações para oferecer a eles alguma orientação para o retorno à sociedade, afastando-os assim do extremismo. “Quando é libertada, a maioria deles volta a lutar contra o governo", disse ele./ Fatima Faizi contribuiu com a reportagem

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