Kiana Hayeri para The New York Time
Kiana Hayeri para The New York Time

Nadar nas piscinas de Cabul é refúgio para mulheres afegãs

Desde 2001, 23 piscinas apareceram na cidade, mas apenas duas permitem mulheres

Fatima Faizi e Thomas Gibbons-Neff, The New York Times

26 de dezembro de 2019 | 06h00

CABUL, AFEGANISTÃO - Quando Fatema Saeedi está na piscina, ela não ouve o ruído da cidade cheia de gente, caótica, ao seu redor. Não pensa nas bombas dos suicidas e nem nos ataques do Talibã. Para Fatema, 26, a piscina é um refúgio. A água transparente, as paredes e as mulheres ao seu redor - totalmente separadas dos clientes homens das proximidades - são uma pausa bem-vinda em Cabul, a capital do Afeganistão.

Embora a cidade tenha se tornado mais progressista em termos políticos em quase duas décadas de governo por uma democracia respaldada pelo Ocidente, Cabul ainda está imbuída de uma cultura afegã socialmente conservadora, que muitas vezes relega as mulheres a papéis ocultos ou submissos.

“Em Cabul, as mulheres não vão a parte alguma”, disse Fatema recentemente, depois de sair da piscina. “Mas aqui, eu não preciso me cobrir da cabeça aos pés e fingir alguma coisa. Sou apenas eu mesma”. Embora a matrícula seja cara e a piscina esteja longe de sua casa, “Quando venho aqui, esqueço de todo o resto”, afirmou. “Sou somente eu e a água, e este é um lugar seguro”.

A primeira piscina foi inaugurada em maio de 2001, meses antes de a invasão apoiada pelos americanos expulsar o Talibã do país. Desde então, surgiram 23 piscinas privadas e públicas em Cabul, uma cidade de quase cinco milhões de pessoas, mas somente duas aceitam mulheres.

Helena Saboori, a diretora do comitê feminino da federação de natação do país, disse que o interesse pelo esporte aumentou desde a abertura das piscinas para mulheres. Uma delas, a Amu, abriu há quatro anos na parte ocidental da capital. A outra piscina só para mulheres foi inaugurada no ano passado, no centro da cidade.

A piscina Amu custa US$ 75 ao mês para as mulheres, cerca de US$ 20 a mais do que a dos homens. Quando perguntamos o por quê da diferença de preço ao gerente do lugar, Mohamed Rahim, disse que a manutenção da piscina feminina e a o vestiário custam mais. Mas, acrescentou, a piscina está pretendendo baixar o preço.

Rahim nãos sabe exatamente quantas mulheres nadam lá. Não há um registro da entrada das sócias, que varia de 15 a 70 por dia. “Quando abrimos as portas e começamos a permitir que as mulheres nadassem, também recebemos muitas ameaças”, afirmou. Arezo Hassanzada é a treinadora aquática da Amu.

“Desde que eu era criança, queria aprender a nadar, mas não havia um lugar para ir e aprender”, ela falou a respeito do país que não tem uma saída para o mar. Agora, ela ajuda outras mulheres a colocar o salva-vidas amarelo e marrom ao entrarem na água pela primeira vez.

Fora do esguicho na água e das risadas típicas da Amu está a possibilidade de o Talibã voltar ao poder. Quase certamente ele tentaria acabar com o esporte. O medo era palpável em julho, quando foguetes do Talibã atingiram o bairro da Amu. Hassanzada vigiava a piscina repleta de mulheres quando ouviu as explosões. “Pensei: ‘Talvez as nossas clientes não voltem mais’”, ela contou. “Mas na manhã seguinte, elas voltaram”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.