Kiana Hayeri para The New York Times
Kiana Hayeri para The New York Times

Afeganistão vive nova era de combates, agora nos ringues

O Clube de Luta Maiwand, que sofreu dois atentados a bomba cometidos pelo Estado Islâmico, celebra sua reconstrução

Fatima Faizi, The New York Times

28 de março de 2019 | 06h00

CABUL, AFEGANISTÃO - Os lutadores de Maiwand estão de volta.

Em setembro do ano passado, o Estado Islâmico realizou um atentado a bomba no ginásio deles, matando dezenas de pessoas. Este ano o ginásio foi reconstruído, e eles planejam expandi-lo, com equipamentos melhores e mais treinos do que antes.

No mês de setembro, o jornalista Samim Faramarz, da Tolo TV News, fazia uma transmissão ao vivo do local do atentado à bomba, o ginásio do Clube de Luta Maiwand, num bairro de maioria hazara no leste de Cabul. Enquanto ele falava, outra bomba foi detonada, matando Faramarz e o operador de câmera que o acompanhava, Ramiz Ahmady. No fim, 26 lutadores acabaram mortos, e outros 91 ficaram feridos.

Maiwand é o ginásio de luta mais importante do Afeganistão, responsável por alçar muitos dos campeões do país. Após o atentado, pareceu que a instituição estava acabada. Mas dois ex-lutadores vieram resgatá-la. Um deles era um ex-executivo da IBM de 69 anos, morador de Ridgefield, Connecticut, que se apresentou como "Paul Halsey (114-4)", referência ao número de vitórias e derrotas de sua carreira de lutador amador. 

O outro era o americano de ascendência iraniana Hooman Tavakolian, 42 anos, gestor de investimentos em Nova York e Londres, ativo na United World Wrestling. Ele se descreve como um "diplomata esportivo".

Tavakolian iniciou uma campanha no GoFundMe para reconstruir o ginásio Maiwand. Halsey , por sua vez, trabalhou com aqueles que ficaram sabendo do atentado e se dispuseram a ajudar. "A luta é um esporte que exige muito sacrifício, e ajuda os jovens a canalizar suas emoções de maneira positiva", disse Halsey. "A tragédia criou um elo muito positivo entre nós".

No fim, Halsey e Tavakolian uniram forças. Equipes de luta como as da Universidade Pennsylvania State e da Universidade de Iowa contribuíram, e houve também ajuda de empresas como Nike, Adidas e da fornecedora de equipamento da luta Cliff Keen.

Ao todo, eles captaram mais de US$ 10 mil em dinheiro, disse Tavakolian. Com o equipamento doado, a soma foi suficiente para reconstruir o Maiwand. Ele disse que até sobrou dinheiro para outros clubes de luta afegãos.

Já em fevereiro, o Maiwand tinha instalado os novos tatames. Boa parte do edifício, destruída pelas bombas, foi restaurada. "Somos muito gratos a Hooman e Paul", disse Reza Ahmadi, encarregado de organizar a reconstrução. "Se eles não tivessem nos ajudado, jamais teríamos conseguido reconstruir nosso clube".

Agora, o Maiwand tem mais lutadores do que nunca - chega a receber 400 deles por dia, a ponto de o clube ter acrescentando um quarto turno de treinos.

"Todos acreditam que precisamos mostrar aos terroristas que eles podem nos matar, mas não poderão nos deter", disse Maalim Abbas, famoso campeão de luta e principal treinador do ginásio. No dia do ataque, Abbas manteve o homem-bomba do lado de fora do ginásio ao fechar uma porta com seu poderoso braço esquerdo. Agora estava de volta ao ginásio, mas o braço foi amputado.

Muitos dos 91 feridos naquele dia sofreram ferimentos incapacitantes, com perda de membros ou pior. Alguns continuam em estado crítico.

"Não consigo dormir direito", disse Abbas. "Tenho pesadelos no qual perco 26 discípulos, todos eles muito jovens. E eu mesmo não sou mais um ser humano completo. Como posso ensinar luta com uma mão só? É doloroso constatar que só posso dizer a eles como fazer".

Mas ele disse que teria sido muito pior se não houvesse ginásio para lutar.

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