Jawed Tanveer/Agence France-Presse-Getty Images
Jawed Tanveer/Agence France-Presse-Getty Images

Afegãos lutam contra o Talibã para eliminar pólio

Famílias pobres estão mais preocupadas com comida do que com vacina

Fahim Abed, The New York Times

02 Dezembro 2018 | 06h00

KANDAHAR, AFEGANISTÃO - Com apenas 2 anos de idade, Madina foi vacinada sete vezes, mas isto não foi suficiente. Quando ficou doente, este ano, um médico de cidade de Kandahar, no Afeganistão, confirmou que ela estava no grupo de crianças que mais recentemente contraíram a pólio.

Cerca de um milhão de crianças da província de Kandahar, como Madina, precisam de pelo menos uma dose da vacina oral por mês para afastar o risco da doença, afirmam trabalhadores da saúde. Entretanto, muitas vivem nas regiões mais violentas e socialmente conturbadas do sul do Afeganistão, onde o Talibã controla amplas áreas e não quer que os trabalhadores da saúde circulem de porta em porta.

Esta realidade dificulta consideravelmente uma campanha de vacinação sustentada. E o Afeganistão, assim como o Paquistão e a Nigéria, onde a pólio é endêmica, está perdendo terreno. Este ano, as autoridades registraram 19 casos de pólio, em comparação com 13 nos dois anos anteriores, segundo dados da Organização Mundial da Saúde.

Mawlawi Abdul Rashid da cidade de Kandahar, um estudioso religioso membro de uma equipe de vacinação, disse que a maioria dos habitantes é pobre e a sua maior preocupação é o que os filhos irão comer todas as noites. 

“Eles não ligam muito para a vacinação contra a pólio”, disse Rashid.

Apesar dos esforços para que estudiosos religiosos deem o seu apoio à campanha, ainda existe uma forte desconfiança. Muitos têm medo de que as rigorosas interpretações do Islã não permitam a vacina. Alguns questionam o seu conteúdo e acreditam na teoria da conspiração segundo a qual os ocidentais manipularam o medicamento a fim de espalhar a infertilidade.

A pólio foi erradicada antes de 2000 nos países ocidentais, mas no Afeganistão mais de 10 milhões de crianças continuam precisando da vacina.

“O mundo tenta erradicar completamente o vírus”, disse Destagir Nazari do Ministério da Saúde. “É uma responsabilidade internacional que o Afeganistão também acabe com a doença”.

Os vacinadores começam cedo pela manhã, reunindo-se nos centros de saúde de cada bairro da cidade de Kandahar para pegar as vacinas. (Estados Unidos, Canadá e Japão são alguns dos maiores doadores da campanha.)

As equipes partem então em táxis alugados ou de motocicleta, com as listas das famílias que têm crianças com menos de 5 anos. Eles batem de porta em porta.

Às vezes, são acompanhadas por estudiosos religiosos, como Rashid. “Segundo o Islã, a saúde é muito importante, e nós podemos usar tudo o que for possível para garantir a nossa saúde”, afirmou. “Este mês, conseguimos convencer 70 famílias que rejeitavam a vacina”.

Outras vezes, balões coloridos funcionam. Em uma casa, uma mulher disse que não queria a vacina, mas o menino que estava com ela quis um balão - então ele recebeu o balão e a sua dose da vacina.

Muitas famílias temem tornar-se alvos do Talibã se permitirem que os trabalhadores da saúde entrem em suas casas.

Zabihullah Mujahid, o porta-voz talibã, disse que os trabalhadores da saúde às vezes são espiões do governo. Os insurgentes costumam insistir na distribuição das vacinas das mesquitas. Mas os trabalhadores da saúde dizem que somente a abordagem de porta em porta pode fazer com que sejam distribuídas mensalmente as doses suficientes.

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