Finbarr O'Reilly para The New York Times
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África exige devolução de arte saqueada pelos franceses

Cerca de 95% do patrimônio cultural africano mantido fora do continente, muito deles na França

Dionne Searcey e Farah Nayeri, The New York Times

24 de janeiro de 2019 | 06h00

DACAR, SENEGAL - A espada do século 19 fica numa caixa de vidro ao lado de uma frágil edição do Alcorão numa espaçosa galeria. A espada pertenceu a Omar Saidou Tall, importante líder muçulmano dos idos de 1800 na região atualmente ocupada pelo Senegal. 

A busca dele pela conquista de territórios adjacentes o envolveu num conflito armado com a França, que tinha suas próprias ambições territoriais. As forças coloniais francesas foram vitoriosas, conquistando não apenas grande parte da África Ocidental, mas também os tesouros da região, incluindo a espada. Como a maioria dos artefatos das colônias francesas da África, o objeto foi parar num museu francês.

Mas a espada está de volta ao Senegal, e os senegaleses desejam mantê-la no país. A peça está em exposição no novo Museu das Civilizações Negras, inaugurado em meio a um acalorado debate a respeito da retomada de peças de arte africanas que foram saqueadas durante o período colonial. Até 95% do patrimônio cultural da África é mantido fora do continente. Sozinha, a França detém 90 mil objetos da África subsaariana em seus museus.

A espada foi emprestada ao Senegal, que conquistou sua independência da França em 1960. Quando o empréstimo chegar ao fim, o objeto deverá ser devolvido ao Musée de l’Armée, em Paris.

"Ou talvez ela permaneça aqui de vez", disse o diretor do museu, Hamady Bocoum, rindo.

Um relatório a respeito da restituição africana, entregue em novembro ao presidente francês Emmanuel Macron, recomendava que todos os objetos removidos da África subsaariana sem o consentimento de seus países de origem fossem devolvidos permanentemente, mediante o pedido do país de origem. O Senegal, por exemplo, pediu a devolução.

A espada de Omar Saidou Tall estava no topo de uma lista de objetos que, de acordo com o relatório, deveriam ser devolvidos imediatamente. O relatório exigia também a devolução de objetos mantidos no museu de história natural de Le Havre, bem como as joias e medalhões que estão no museu Quai Branly, em Paris.

Na França, alguns temem o esvaziamento de salas inteiras do Quai Branly, que abriga 70 mil artefatos subsaarianos.

"Não podemos ir à França e tomá-los à força, como eles fizeram nos dias sombrios em que levaram a herança do nosso povo", disse Abdou Latif Coulibaly, ministro da cultura do Senegal. "Já a França, por sua vez, deveria nos ajudar a identificar as peças de arte originárias do Senegal. Assim, trabalharemos juntos para trazer todas elas de volta para cá".

Em novembro, Macron anunciou que devolveria 26 tesouros africanos saqueados por forças coloniais francesas no fim do século 19. Os tronos, estátuas, portões do palácio e regalias pertenciam ao antigo Reino do Daomé, território que atualmente faz parte do Benim.

Entre as exposições do novo museu estão "Berço da humanidade" e "África hoje". Outra, chamada "Caravanas e caravelas", rastreia o crescimento das novas comunidades africanas do exterior em decorrência do comércio de escravos.

O primeiro dos painéis rotativos se concentra no Haiti e em Cuba, obras "que nos permitem conhecer o verso da história africana", disse Bocoum. A exibição de antigos crânios e ossos de alguns dos primeiros humanos, encontrados na Etiópia e em outros países, bem como ferramentas e cerâmicas primárias, são uma homenagem às origens da humanidade.

O museu, o mais grandioso e moderno da região, tem como objetivo celebrar a contribuição das civilizações negras para o restante do mundo. Sua criação nasceu da visão do poeta Léopold Sédar Senghor, primeiro presidente do Senegal após o período de colônia.

É curioso que o museu tenha se tornado realidade graças a uma contribuição de US$ 34 milhões oferecida como presente pela China, que conquista aliados na África Ocidental com doações e empréstimos a governos carentes de infraestrutura.

O senegalês Felwine Sarr, coautor do relatório de devolução, disse que o Senegal logo apresentaria um pedido de restituição da espada, bem como de outros objetos. Nas estimativas dele, o Senegal deve exigir de volta "algumas dúzias de artefatos". Ele disse que o país não pretende exigir a devolução de todas as obras de origem senegalesa mantidas no Quai Branly (estima-se que sejam 2.249). Não que faltasse espaço para abrigá-las no museu de Dacar. Seus 14 mil metros quadrados acabam com a ideia segundo a qual a África não teria onde expor seus artefatos.

Numa manhã recente, o artista Yaya Ngom, 53 anos, de Dacar, visitava as exposições. Ele disse que a maioria dos africanos conhece seu patrimônio graças a livros e documentários - cuja maioria raramente é produzida por africanos. Para ele, o museu "é um importante ponto de virada para nós enquanto continente, possibilitando que conheçamos a nós mesmos por meio de nossos próprios ensinamentos, reescrevendo nossa história graças a esses objetos".

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