Brian Otieno/The New York Times
Brian Otieno/The New York Times
Abdi Latif Dahir, THe New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2021 | 05h00

KISUMU, Quênia - Enquanto terminava seu mestrado em escrita criativa na Inglaterra, há dois anos, Troy Onyango se lembra de ter lamentado com seus amigos haver tão poucos veículos literários dedicados a escritores, poetas e fotógrafos negros como eles. Para Onyango, a questão era: "Como podemos reunir todos em um só espaço?"

Essa pergunta levou à Lolwe, revista literária on-line que ele lançou em 2020 com o objetivo de publicar obras de autores negros na África e em todo o mundo. A Lolwe - cujo título foi inspirado no nome Luo, do Lago Victoria, que banha esta cidade no oeste do Quênia, e significa "lago ou corpo d'água sem fim" - já publicou dezenas de obras de ficção, não ficção, poesia e fotografia de mais de 20 países.

Em junho, quando a revista se preparava para lançar sua terceira edição, também conquistou um cobiçado reconhecimento: The Giver of Nicknames, sobre alunos de uma escola particular de elite da Namíbia, foi incluído na pequena lista do Prêmio AKO Caine de Escrita Africana, concedido anualmente ao melhor conto de ficção em inglês para um escritor africano.

Onyango, de 28 anos, também foi selecionado com seu conto This Little Light of Mine (Esta minha pequena luz, em tradução livre), escrito da perspectiva de um homem recém-paralítico que tenta curar sua solidão com aplicativos de namoro on-line. Foi publicado no ano passado na Doek, revista literária sediada na Namíbia, cujo cofundador, Rémy Ngamije, é o autor de The Giver of Nicknames.

"Quando recebi a notícia, achei que fosse um trote", disse Onyango. Ngamije contou em uma entrevista por telefone, de Windhoek, que, quando soube que as duas histórias e as duas revistas haviam sido indicadas, sentiu "um alívio reconfortante, porque confirmei que estávamos fazendo algo certo".

"Como as duas revistas são novas, as indicações representaram uma vitória, porque mostram que as publicações literárias africanas estão funcionando", afirmou Onyango, acrescentando: "Com o apoio certo, mais colaborações desse tipo podem ajudar a desenvolver nossa literatura".

Em toda a África, as revistas literárias administradas por jovens escritores e artistas estão surgindo com o objetivo de publicar tanto vozes novas quanto estabelecidas, colaborando em diferentes regiões e usando a internet e as redes sociais para alcançar seu público. Estão se baseando em antecessoras como a Transition, que moldou a África pós-independência, bem como a Chimurenga, a Kwani, a Jalada, a Brittle Paper e a The Johannesburg Review of Books, que apresentaram poderosos contadores de histórias africanos ao cenário mundial nas duas últimas décadas.

Os novos títulos, que além da Lolwe e da Doek incluem a Isele Magazine, com sede nos Estados Unidos, e o Imbiza Journal for African Writing, costumam provocar reações à simples menção de seu nome.

A Down River Road, por exemplo, é uma revista queniana que foi criada no ano passado e leva o nome do romance de Meja Mwangi de 1976, Going Down River Road (Descendo a estrada do rio, em tradução livre). Doek significa pano ou lenço na cabeça em africâner, mas também é uma brincadeira com o nome da capital da Namíbia, Windhoek. Ngamije comentou que, ao vincular o nome da revista a algo familiar, ele e seu cofundador queriam apresentar a literatura como "algo visível e acessível", ao mesmo tempo que fomentavam a curiosidade dos leitores para além da Namíbia e do sul da África.

"Tudo que se conhece da Namíbia são nossas dunas, nossos leões e nossos rinocerontes-negros", disse Ngamije. Mas, com o foco da Doek na publicação de obras de namibianos, ele espera "levar não só a escrita namibiana para a África e para o mundo, mas também trazer um pouco da África para a Namíbia".

As revistas também estão servindo de plataforma para formas de arte além da escrita e para temas ou perspectivas que não teriam muito destaque em publicações ocidentais. A Down River Road publicou uma performance de áudio como parte de sua edição Ritual, apresentando a poesia de Chebet Fataba Kakulatombo e a música e a mixagem de Petero Kalulé e Yabework Abebe. A segunda edição da Doek incluiu uma série de fotos sobre a ansiedade no local de trabalho do jornalista baseado na África do Sul Rofhiwa Maneta, enquanto um ensaio fotográfico de Laeïla Adjovi na última edição da Lolwe enfoca as mulheres no Senegal, na Costa do Marfim e em Burkina Faso cujo marido emigrou para a Europa.

Nii Ayikwei Parkes, escritor ganense e curador do Prêmio Caine, declarou que os editores e os colaboradores das revistas emergentes estão menos limitados pelas exigências dos financiadores ou "pelo fardo - real ou imaginário - de ter de moldar uma identidade pós-independência para a África regida pela respeitabilidade". Por isso, escreveu Parkes em um e-mail, eles são "capazes de ser mais progressistas, mais radicais, mais expansivos, mais subversivos".

A escritora queniana Yvonne Adhiambo Owuor, que ganhou o Prêmio Caine de 2003 por uma história publicada na revista literária Kwani, vê as publicações atraindo um novo grupo de jovens escritores, artistas e leitores africanos: "Elas parecem entusiasmar uma geração global que transcende a tipologia, que se identifica com elas, para quem temas, ideias, estilo e método substituem a política e a imaginação tradicionais".

Mas, mesmo quando se esforçam para dar voz a uma nova geração, as novas revistas enfrentam alguns dos mesmos desafios de suas antecessoras. O principal são as restrições financeiras, com muitas delas dependendo de doações individuais ou do próprio dinheiro para sobreviver.

Para que se mantenham sustentáveis, revistas como a Down River Road vendem cópias impressas de suas publicações em cidades como Nairóbi com material exclusivo que não é encontrado on-line, destacou Frankline Sunday, um dos fundadores da Down River Road. A Lolwe tem optado por organizar oficinas de redação com escritores africanos, enquanto a Doek fez parceria com um banco local.

Outro desafio que ameaça as revistas literárias emergentes é a alta rotatividade da equipe, com os fundadores às vezes sendo roubados por veículos mais estabelecidos ou atraídos por melhores oportunidades. "Eles vão para uma editora, para um jornal, para o departamento de comunicação de uma empresa. E isso geralmente é o fim da revista", observou James Murua, jornalista cujo blog documenta extensivamente a cena literária africana.

Mas, apesar dos desafios, Murua acredita que essa nova geração de revistas literárias vai abrir caminho para mais publicações e encorajar os jovens africanos a escrever os próximos best-sellers: "Só é bom para o futuro. É uma vitória para todos."

É essa visão em longo prazo que faz com que fundadores como Ngamije continuem, à medida que tentam pôr a Namíbia no mapa cultural africano e global. "Estamos dando passos pequenos nesta maratona literária, e sempre temos de combater esse sentimento de que estamos atrasados, de que estamos em último lugar", afirmou ele.

The New York Times Licensing Group - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.