Jamil Baldwin/The New York Times
Jamil Baldwin/The New York Times

Além do 'Pantera Negra': o afrofuturismo está fazendo grande sucesso nos quadrinhos

Uma safra abundante de histórias em quadrinhos mescla cultura africana e ficção científica, com influências tão abrangentes quanto viagens espaciais, folclore caribenho e Janelle Monáe

Robert Ito, The New York Times - Life/Style

27 de fevereiro de 2021 | 05h00

Quando Barak Obama foi eleito presidente em 2008, este fato impressionou particularmente o autor e ilustrador John Jennings por representar um rompimento tão sem precedentes da história americana que parecia algo pertencente a algum futuro muito distante.

“Antes disso, um presidente preto só poderia ser visto em um filme de ficção científica”, ele disse em uma entrevista por telefone em janeiro. Jennings o comparou aos saltos da imaginação que encontramos em obras mais avançadas definidas como Afrofuturistas.

Este ano, os fãs do Afrofuturismo verão uma enorme safra de quadrinhos e graphic novels, como primeiras propostas de uma nova linha dedicada à ficção especulativa preta, e reedições de títulos afrofuturistas de editoras de quadrinhos como DC e Dark Horse.

O afrofuturismo, seja em romances, filmes ou música, imagina mundos e futuros em que a diáspora e a ficção científica africanas se intersectam. O termo foi cunhado pelo escritor Mark Dery em 1993 e desde então tem sido aplicado aos romances de Octavia Butler (Kindred, Laços de Sangue), a gêneros musicais do compositor de jazz Sun Ra e mais recentemente filmes como Corra! e Pantera Negra, que apresentou uma bela visão tecnologicamente avançada da nação movida a vibrânio, Wakanda

“O Afrofutrismo não é uma novidade”, disse Ytasha L. Womack, crítica cultural e autora de Afrofuturism: The World of Black Sci-Fi and Fantasy Culture, uma cartilha  e história do movimento e da sua estética. “Mas a enorme variedade de quadrinhos e graphic novels disponíveis é com certeza uma experiência nova”.

Entre graphic novels publicados em janeiro está After the Rain, adaptação de um conto do autor nigeriano americano Nnedi Okorafor e Infinitum, uma história de reis Africanos e de batalhas espaciais do artista Tim Fielder de Nova York.

Fevereiro é marcado pelo tão aguardado retorno do quadrinho Pantera Negra, escrito por Ta-Nehisi Coates, que o autor premiado pelo National Book Award começou em 2016, bem como o mais recente episódio de Far Sector, uma série escrita por N.K. Jemisin, e inspirada pela atriz e cantora Janelle Monaé, sobre a primeira mulher preta a tornar-se membro do Green Lantern Corps intergaláctico.

Obras mais antigas estão recebendo um novo look. Superheróis pretos da companhia de quadrinhos Milestone dos anos 90 - como Icon, um alien espacial que chega à Terra em 1839 e assume a forma de um afro-americano - estão encontrando novos leitores no serviço por assinatura DC Universe Infinite lançado em janeiro. Ao mesmo tempo, a editora de Oregon Dark Horse planeja lançar os quadrinhos do escritor Roye Okupe nascido na Nigéria, que anteriormente os publicou com recursos próprios, como suas séries afrofuturistas E.X.O., a história de um super-herói ambientada na Nigéria em 2025.

Os quadrinhos são particularmente adequados ao afrofuturismo, disse Womack. Muitas narrativas afrofuturistas não são lineares, algo que os quadrinhos, com a sua capacidade de mover e empilhar painéis para brincar com as noções de tempo, podem transmitir. Os quadrinistas também podem empregar elementos visuais como imagens do Black Arts Movement, ou figuras da mitologia Yoruba e Igbo, em formas não disponíveis aos escritores de prosa.

O afrofuturismo está constantemente se movendo no futuro e de volta ao passado, inclusive com as referências visuais que fazem”, disse Womack.

After the Rain marca o lançamento da Megascope, uma linha de livros da editora Abrams “que quer mostrar as obras especulativas de e para pessoas não brancas”. Entre os seus assessores está o acadêmico e autor Henry Louis Gates Jr.

“O afrofuturismo é genérico”, disse Jennings, fundador e criador da Megascope. “Na realidade, trata-se de ficção especulativa preta. Mas esta é uma espécie de descrição. Só não quero que as pessoas pensem  que a Megascope é exclusivamente afrofuturista. Nós estamos deixando os livros de horror, a ficção policial, a ficção histórica.”

Okorafor, autora do seu título de estreia, Depois da Chuva, considera a sua obra Africanofuturismo, um termo que ela cunhou para descrever  uma subcategoria de ficção científica semelhante ao afrofuturismo, mas mais profundamente arraigada na cultura e história africanas, do que na experiência africana-americana. “Nnedi é um autor muito quente neste momento”, disse Jennings, “por isso acho que  será uma grande estreia”.

Em abril, a Megascope publicará Hardears uma história de aventuras fantástica ambientada na Ilha Jouvert, uma versão de Barbados povoada por criaturas míticas - gigantes ‘admiradores da lua e ‘soucouyants’ que mudam de forma - extraídos do folclore caribenho. Black Star, história de gato e rato de dois astronautas perdidos em um planeta desolado, sairá em maio.

Professor de estudos culturais e de mídia da Universidade da Califórnia em Riverside, Jennings dedicou grande parte da sua carreira ao afrofuturismo, escreveu obras acadêmicas sobre este tema e dirigiu painéis dedicados aos quadrinhos afrofuturistas. Ele trabalhou com o artista Stacey Robinson como o duo Black Kirby, reimaginando a obra do artista da Marvel, Jack Kirby, através de lentes afro-americanas: por exemplo, The Unkillable Buck, baseado em O Incrível Hulk.

Para Jennings, Martin Luther King foi um afrofuturista. “O topo da montanha de que o dr. King falava não existe neste universo”, disse Jennings. “É uma criação da imaginação do que o futuro poderá ser”.

Para Infinitum, lançado pela Amistad Press, da HarperCollins, Fielder criou Aja Oba, um poderoso rei africano amaldiçoado a ter vida eterna. Oba viaja da África para os Estados Unidos, e mais além testemunhando a façanha de Aníbal atravessando os Alpes, o surgimento da escravidão americana, o movimento pelos direitos civis e (entregando o final da trama) a morte do nosso sistema solar.

Infinitum tem uma percepção distintamente cinematográfica - entre as influências de Fielder está o artista Ralph McQuarrie de Star Wars - e as referências e influências compartilhadas entre quadrinhos e filmes deverão continuar. Depois que Coates recomeçar (e acabar, após três edições) Pantera Negra, a Marvel Studios deverá lançar Pantera Negra II, e na Disney, os produtores estão trabalhando com a companhia de quadrinhos Kugali em Iwaju, uma série animada em um Lagos futurista.

Talvez, acima de tudo, os quadrinhos afrofuturistas sejam um meio para fazer uma reivindicação racial inclusiva aos vários futuros possíveis. "E só por se tratar de temas pretos não significa que seja apenas para pessoas pretas", disse Jennings, “Adoro Daredevil, mas  a Marvel jamais diria: ‘Olha, este é só para pobres irlandeses-americanos brancos'. Estas histórias são para todos”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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