Ilana Panich-Linsman para The New York Times
Ilana Panich-Linsman para The New York Times

Agentes de patrulha da fronteira dos EUA enfrentam moral baixo

“Ir de um ponto em que as pessoas não nos conheciam bem para outro em que as pessoas nos odeiam ativamente é difícil”, afirmou um ex-agente

Manny Fernandez, Miriam Jordan, Zolan Kanno-Youngs e Caitlin Dickerson, The New York Times

22 de setembro de 2019 | 06h00

Um agente da Patrulha de Fronteira dos Estados Unidos com base em Tucson, Arizona, afirmou que foi xingado de “vendido” e “matador de crianças”. Em El Paso, Texas, um agente afirmou que ele e seus colegas evitavam almoçar juntos, a não ser em certos restaurantes “amigáveis”, caso contrário “sempre há a possibilidade de cuspirem na comida”. Um agente do Arizona se demitiu no ano passado, por conta da frustração. “Encarcerar pessoas em razão de atividades não violentas começou a me corroer as entranhas”, disse ele.

Por décadas, a Patrulha de Fronteira foi uma força de segurança quase invisível. Ao longo da fronteira sudoeste dos EUA, seu trabalho era repleto de poeira e solidão. Entre as perseguições cheias de adrenalina, cascas de sementes de girassol se acumulam do lado de fora de suas picapes estacionadas.

Os agentes chamam essa especialidade em câmera lenta de “ficar incrustado”: se esconder no deserto, em meio à vegetação rasteira por horas, à espera, à espreita. Dois anos atrás, quando o presidente Donald Trump chegou à Casa Branca com o compromisso de fechar a porta para a imigração ilegal, isso mudou. Os quase 20 mil agentes da Patrulha de Fronteira se tornaram o principal instrumento de uma das mais agressivas ondas de repressão à imigração ilegal já realizadas nos EUA.

Eles deixaram de ser uma organização semi-militarizada com a função primária de interceptar traficantes de drogas e perseguir contrabandistas. Seu novo foco principal passou a ser interceptar e prender as centenas de milhares de famílias fugindo da violência e da pobreza - arrebanhando-as em barracas e celas, apreendendo as crianças e mandando seus pais para a cadeia, tentando identificar pessoas doentes demais para sobreviver nas superlotadas instalações de processamento.

Desde setembro de 2018, dez imigrantes morreram sob custódia da Patrulha de Fronteira e da agência de Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA, à qual ela é subordinada. Nos meses mais recentes, a extrema superlotação na fronteira começou a diminuir, com imigrantes rejeitados sendo obrigados a esperar no México o processamento de seus pedidos de asilo. Este mês, a Suprema Corte dos EUA autorizou o governo a exigir que imigrantes que não venham do México provem que já tiveram negados pedidos de refúgio em outros países antes de dar entrada em pedidos de asilo nos tribunais americanos.

Sobrecarregados e demonizados

A Patrulha de Fronteira, cujos agentes passaram de um dos mais obscuros trabalhos entre as forças de segurança para um dos mais odiados, está sofrendo uma crise tanto em termos de missão como de moral baixo. Neste ano, a revelação da existência de um grupo privado do Facebook no qual os agentes postavam referências sexistas e cruéis sobre imigrantes e os políticos que os apoiam reforçou a percepção de que os eles frequentemente veem pessoas vulneráveis sob seus cuidados com frustração e desprezo.

Entrevistas com 25 agentes e ex-agentes no Texas, na Califórnia e no Arizona - algumas conduzidas sob a condição de anonimato - pintam um retrato de uma agência em uma situação precária, em termos políticos e operacionais. Sobrecarregados este ano por imigrantes desesperados, muitos agentes se tornaram amargos e ficam na defensiva.

O presidente do sindicato dos agentes afirmou ter recebido ameaças de morte. Um agente no sul do Texas afirmou que alguns colegas estão procurando por oportunidades de trabalho em outras forças de segurança federais. Um agente em El Paso contou para um agente aposentado que estava tão enojado com os escândalos nos quais a Patrulha de Fronteira é acusada de negligenciar ou maltratar imigrantes que passou a querer que o lema gravado em seus veículos - “Honra em Primeiro Lugar” - seja apagado.

“Ir de um ponto em que as pessoas não nos conheciam bem para outro em que as pessoas nos odeiam ativamente é difícil”, afirmou Chris Harris, que foi agente da Patrulha de Fronteira por 21 anos e atuou no sindicato da categoria até se aposentar, em junho de 2018. “É claro que já tivemos momentos de moral baixo no passado. Mas, agora, parece o fundo do poço. Sei que muitos colegas só pensam em se demitir.”

Em geral, a agência tem se mostrado disposta a pôr em prática as mais duras políticas anti-imigração do governo Trump. Em vídeos publicados no ano passado, agentes da Patrulha de Fronteira apareciam destruindo garrafas de água deixadas em uma parte do deserto do Arizona onde inúmeros imigrantes foram encontrados mortos.   

Alguns ex-agentes que atuaram na Patrulha de Fronteira em outras épocas afirmaram que a agência se transformou na década mais recente, e que uma atitude de desprezo em relação aos imigrantes - a visão segundo a qual eles são oportunistas que trazem consigo seus próprios problemas - é agora a regra, não a exceção. 

“As intensas críticas que têm sido direcionadas à Patrulha de Fronteira são necessárias e importantes, porque considero que existe de fato uma cultura de crueldade ou maus tratos”, afirmou Francisco Cantú, autor de The Line Becomes a River, um livro de memórias sobre o período que passou na agência, de 2008 a 2012. “Falta supervisão. Há muita impunidade.”

História e oportunidade    

A Patrulha de Fronteira foi criada em 1924. O foco dos primeiros agentes era, na época da Lei Seca, contrabandistas de uísque. A agência se tornou um braço - de longo alcance - da agência de Alfândega e Proteção de Fronteiras, a maior força de segurança federal dos EUA, responsável por 11.300 quilômetros de fronteiras terrestres no norte e sul do país, 153 mil quilômetros de costa e 328 portos de entrada.

No nível prático, os núcleos da Patrulha de Fronteira ao longo na fronteira mexicana, conhecidos como setores, operam como feudos em certas situações. Em cidades fronteiriças, os chefes de setor se tornam pessoas conhecidas nas comunidades, fazendo discursos anuais sobre o estado da fronteira.

Nas comunidades fronteiriças, tornar-se um agente é visto, há muito, como uma maneira de ascender à classe média. Um agente iniciante com ensino médio completo pode ganhar US$ 55,8 mil ao ano, incluídas as horas extras - e o salário anual se eleva a US$ 100 mil em quatro anos de carreira. Mas, em razão das longas horas de solidão, frequentemente sob calor intenso e em localidades remotas - e de uma crescente carga de trabalho -, a agência tem encontrado dificuldades no recrutamento: há um déficit de aproximadamente 1.800 agentes em seus quadros.

Uma voz na Casa Branca

Alguns afirmam que a crescente frustração entre os agentes se origina em 2014, quando grandes quantidades de famílias de imigrantes e de crianças desacompanhadas começaram a chegar à fronteira. Muitos agentes dizem que não lhes foram dados recursos suficientes para lidar com a crise. Mães desesperadas e crianças doentes tinham que ser colocadas em espaços cercados, porque não havia outro lugar para colocá-las. Alguns agentes culpavam os imigrantes adultos por terem trazido seus filhos para aquela bagunça.

A raiva deles começou a se formar no governo do presidente Barack Obama. Com a eleição de Trump, esse sentimento encontrou uma voz. “Ele disse isso publicamente: ‘Vou considerar vocês e o sindicato os especialistas no assunto de como lidar com a segurança da fronteira’”, afirmou Harris. “Não tínhamos escutado aquilo de ninguém antes.”

O grupo de Facebook, que foi criado em 2016 e teve mais de 9 mil membros, se tornou um fórum para os desabafos dos agentes a respeito do trabalho e do fracasso de sucessivos governos na missão de tornar a fronteira segura. Uma publicação zombou de um imigrante de 16 anos que morreu sob custódia das autoridades americanas, com uma imagem que levava a frase: “Que peninha”. Um membro usou um palavrão para propor que jogassem burritos em duas congressistas latinas.

A maioria dos agentes entrevistados disse que uma minoria no grupo é responsável pelos posts mais ofensivos. Mas, de certas maneiras, os posts refletem uma cultura que é evidente há muito tempo em partes da agência. Por anos, a Patrulha de Fronteira tolerou terminologias racistas. Alguns agentes se referem aos imigrantes como “wets" (molhados, em tradução livre), uma versão reduzida para o termo “wetbacks” (chicanos molhados, em tradução livre). Outros chamam eles de “toncs”.

O termo “tonc" pode ter se originado de um acrônimo que se refere a nacionalidade desconhecida, mas não é assim que ele é entendido atualmente. Jenn Budd, uma ex-agente que passou a criticar abertamente a Patrulha de Fronteira, afirmou que o supervisor do posto em que ela era lotada, na Califórnia, explicou-lhe o significado do termo.

“Ele disse: ‘É o som que uma lanterna faz quando você bate com ela na cabeça de um imigrante’.” Josh Childress, um agente do Arizona que deixou a força em 2018, afirmou: “As piadas não são o problema. O problema é tratar as pessoas como se elas não fossem pessoas.”

Membros da comunidade

Calexico, Califórnia, 195 quilômetros ao leste de San Diego, localizada no Vale Imperial, no sul do estado, oferece um vislumbre da relação entre uma comunidade fronteiriça e os agentes. Cercada por montanhas, um deserto e o Rio Colorado, o vale tem uma economia que gira em torno de empregos sazonais em fazendas e serviço público.

As temperaturas chegam a 43 graus no verão. Cerca de 800 agentes da Patrulha de Fronteira trabalham no vasto setor de El Centro, que se estende por cerca de 115 quilômetros no vale. Eles realizam patrulhas em motocicletas e em seus veículos brancos em Calexico, cujo centro é delimitado pela cerca de pilares cor de ferrugem que separa os EUA do México.

Quando Trump visitou a cidade de 40 mil habitantes em abril, para divulgar novos 3,7 quilômetros de uma nova barreira na fronteira, Angel Esparza organizou uma marcha binacional unificada que atraiu 200 pessoas. Esparza disse que a marcha era um protesto contra Trump. “Os agentes da Patrulha de Fronteira são membros da comunidade”, disse ele.

David Kim, o agente que atua como subchefe do setor de El Centro, é filho de um imigrante sul-coreano. Ele atua na agência desde 2000. Questionado a respeito de sua relação com a comunidade, ele recordou o fechamento do governo iniciado em 2018, quando Trump enfrentava um impasse no Congresso envolvendo o financiamento de uma expansão no muro na fronteira.

Os agentes, que estavam trabalhando sem receber pagamento, ganharam de restaurantes cupons de alimentação. Academias de ginástica lhes ofereceram gratuidade. O quiroprático de Kim só aceitou receber a parte reembolsada pelo seguro saúde. “A comunidade”, disse ele, “ajudou a Patrulha de Fronteira quando nós estávamos sem pagamento.”

Com a atmosfera de tensão que tomou o país em razão da política de imigração de Trump, porém, hostilidades podem aparecer dentro das famílias dos agentes. Ao atuar em comunidades de predominância hispânica, hostis à pauta de Trump, a Patrulha de Fronteira se tornou mais política agora do que em qualquer outro momento na história. Muitos agentes veem Trump como o primeiro presidente que leva a sério a segurança de fronteira. O sindicato o apoiou em 2016, uma manobra que criou atrito nas comunidades fronteiriças, dominadas pelo Partido Democrata.

Congressistas democratas rumaram para a fronteira no Texas durante o primeiro semestre, muitos deles convocando entrevistas coletivas para criticar as condições de imundice e superlotação das instalações onde os imigrantes, incluindo crianças, estavam sendo mantidos. Os agentes afirmavam que estavam fazendo o melhor que podiam - alguns trouxeram brinquedos para as crianças -, mas foram surpreendidos pela quantidade de novas chegadas.

Apenas cerca de 5% dos agentes são mulheres. Algumas entrevistadas falaram bem da agência e seus colegas homens. Outras descreveram uma cultura na qual as mulheres são diminuídas, deixadas para trás em promoções e assediadas. Em um relato escrito de seu período na agência, Jenn Budd declarou que mulheres são forçadas a praticar sexo oral em seus colegas homens. “Eu nunca, jamais conheci uma agente mulher que não tenha sido vítima de agentes homens”, disse ela.

O trabalho ocasiona um desgaste psicológico. De 2007 a 2018, mais de 100 funcionários da Alfândega e Proteção de Fronteiras, muitos deles da Patrulha, cometeram suicídio. Ross Davidson, que se aposentou em 2017 após 21 anos na agência, afirmou ter certeza que o estresse no trabalho é um elemento que contribuiu para os suicídios.

“A monotonia repetitiva de fazer a mesma coisa sempre e não ver nenhum resultado, nenhuma solução para o problema e nenhuma mudança”, disse ele. “Isso só está ficando cada vez mais grave, cada vez pior.” Nicholas Kulish, Mitchell Ferman e Erin Coulehan colaboraram com a reportagem. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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