Ramsay de Give para The New York Times
Ramsay de Give para The New York Times

Temperaturas elevadas e secas ameaçam a pimenta do Novo México

Produtores diminuem o plantio da pimenta para economizar água para plantações mais lucrativas

Amelia Nierenberg, The New York Times

15 de janeiro de 2020 | 06h20

HATCH, Novo México - Nos oitenta anos de trabalho na agricultura, no sudeste do Novo México, June Rutherford nunca viu uma temporada tão ruim para a pimenta-malagueta. “O clima foi péssimo para o chili”, afirmou. June, que foi coroada rainha da Grande Degustação de Chili do Novo México, no fim do ano passado.

Aos 95 anos, June é a matriarca da família Franzoy, uma das primeiras a comercializar a pimenta Hatch, um produto básico da economia da região e uma marca conhecida no mundo inteiro.  “É muito quente” disse a rainha. “Quente e seco”.

Mais de vinte anos de secas acabaram com os reservatórios que são alimentados pelo Rio Grande. Mas a escassez de água para irrigação é apenas um dos enormes problemas que ameaçam o futuro do produto.

As pimentas dependem de dias quentes e noites frescas, elas crescem confortavelmente entre os 12ºC e os 35ºC, para desenvolver o gosto desejado e o picante característico. Desde os anos 70, as temperaturas diurnas no verão chegam a 37ºC ou mesmo acima disto. O calor excessivo, um sintoma da mudança climática, pode queimar a frágil película da pimenta e interromper o ciclo de crescimento.

Alguns produtores que cultivam pimentas há gerações diminuíram o seu plantio a fim de economizar a água já escassa para culturas mais lucrativas e confiáveis, como cebolas e melancias.

Por outro lado, os produtores não podem subir muito os seus preços; as fazendas do México, que vendem suas pimentas nos Estados Unidos, muitas vezes pagam menos aos trabalhadores para poder vender os seus produtos mais barato. Outros, estão tendo dificuldade para encontrar mão de obra na época da colheita, porque a legislação sobre imigração hoje é mais rigorosas e o fluxo de trabalhadores sazonais procedentes do México se reduziu.

São poucos os outros alimentos que representam a identidade do Novo México tanto quanto a pimenta. “Ela incorpora exatamente a essência deste estado”, disse Taeko Nunn, 70 anos, proprietária do Sparky’s, um restaurante em Hatch. A pimenta vermelha seca no pé e é servida em um molho fumegante e picante. As pimentas verdes costumam ser assadas no fogo, cortadas e acompanham todo tipo de comida, das omeletes aos burritos. O Sparky’s põe pimenta até no seu shake de sorvete de chocolate.

Mas as pimentas do Novo México não crescem em qualquer lugar. A altitude elevada do estado proporciona as mudanças de temperatura adequadas entre dias quentes e noites frias.

Os produtores começaram a plantá-las no Colorado, no norte. Mas ali o solo é diferente. E também a água. Os entusiastas das pimentas afirmam que conseguem perceber a diferença.

“Hatch é considerada o Vale do Napa da pimenta”, segundo Chris Franzoy, 50 anos, bisneto de June Rutherford e um dos proprietários da Young Guns Produce. Ele estava em um dos seus campos enquanto os trabalhadores, ajoelhados ao seu redor, arrancavam as pimentas verdes dos pés com as mãos cobertas por luvas. “Hatch não é uma variedade. É um lugar, uma origem”.

Mas todas as variedades têm pela frente um futuro incerto. Nos anos 90, foram cultivados no Novo México 14 mil hectares de chili, em comparação com cerca de 3.400 nos últimos anos, disse Sonja Schroeder, diretora executiva da New Mexico Chile Association.

Em 2018, o Reservatório Elephant Butte, que fornece água ao sul do Novo México, México e a partes do Texas, estava com apenas 3% de sua capacidade. Os produtores viram suas pimentas murcharem nos campos. Graças a um inverno com neve abundante e a uma primavera mais fresca, no ano passado o reservatório estava mais cheio, chegando a cerca de 26% da capacidade, explicou David Du Bois, climatologista e professor da Universidade do Estado de Novo México. Por isso, foi uma boa estação para o crescimento da pimenta, e os campos do vale se encheram de plantas. 

Ainda assim, a linha da tendência aponta para baixo: o Novo México está "no topo" da lista de estados dos EUA com risco de falta d'água, com 80 a 100% da água disponível sendo usada todos os anos, disse Betsy Otto, que dirige o programa global de água do World Resources Institute.

“A preocupação com o tempo tira o sono da gente”, disse Tyler Holmes, 35, que pretende assumir parte da empresa da família, a Morrow Farms, do pai. Seu tio, outro proprietário, parou de plantar pimenta malagueta na sua terra entre 10 e 15 anos atrás. Tyler e seu pai ainda a plantam, mas somente em cerca de 35 dos 485 hectares que irrigam.

“Falamos em deixar de plantar, mas isto não é possível”, ela disse. “Ela é a nossa identidade”.

Outras famílias, como os Franzoys, continuam firmes expandindo suas operações e cultivando novas variedades.

June Rutherford, a rainha da pimenta, viu o pai começar com menos de um hectare. Mais tarde, colheu pimentas com o seu primeiro marido, Jim Lytle. Em sua homenagem, ela cultivou a variedade Big Jim, uma das mais populares do Novo México. Mas agora ela teme que esses tempos tenham acabado.

“Acha que algum dos nossos filhos irá levar adiante a tradição?” perguntou. “Por que eles deveriam vir para cá e plantar se eles não conseguem mais viver da produção?” / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.