Informação para você ler, ouvir, assistir, dialogar e compartilhar!
Tenha acesso ilimitado
por R$0,30/dia!
(no plano anual de R$ 99,90)
R$ 0,30/DIA ASSINAR
No plano anual de R$ 99,90
Rinne Allen/The New York Times
Rinne Allen/The New York Times
Nicole Taylor, The New York Times - Life/Style Portuguese, O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2021 | 05h00

No fervor de junho, as variedades de melancia passadas de geração para geração florescem em jardins de quintais e microfazendas familiares em todo o sul dos Estados Unidos. Sua polpa vermelha, repleta de sementes pretas, é uma notável relíquia de verões passados em comparação com as variedades sem sementes encontradas em supermercados. "Não acredito que exista melancia sem sementes - isso é contra minha religião", disse Gabrielle E.W. Carter, artista multimídia e jardineira em Apex, na Carolina do Norte.

Durante toda a temporada, é possível encontrar pessoas comendo melancia em sua forma mais pura - as palmas das mãos segurando a casca sobre uma toalha de mesa; muito prazer e nada de clichês - em uma reunião de família, em confraternizações em terraços e em torno de uma fogueira. Consumir a fruta é um sacramento do verão americano e, para muitos negros americanos, uma obrigação ao celebrar o dia 19 de junho, o feriado texano conhecido como Juneteenth, que ganha reconhecimento nacional e é celebrado com ponche vermelho, bolo de colher de morango e costela com temperos secos.

Nativa do continente africano, a melancia é parecida com o pepino, a abóbora e a luffa (também conhecida como bucha, no Brasil). Nos últimos 50 anos, as variedades de sementes pretas - apreciadas pelos amantes da melancia - desapareceram lentamente do corredor de produtos hortifrutigranjeiros. Muitas das melancias comercializadas hoje em dia, que os consumidores podem encontrar empilhadas em grandes caixas de papelão fora do supermercado, não têm sementes, resultado de polinização cruzada (e não de modificação genética). Algumas podem ter sementes imaturas comestíveis translúcidas ou "casacos".

Os fãs ansiosos por melancias doces com semente, como a de tom verde-escuro conhecida como "caixa de gelo", ou a Charleston, de cor cinza e formato oblongo, monitoram os grupos de associações de bairro no Facebook atrás do "homem melancia", que, como o Papai Noel, pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo, com seu caminhão cheio de variedades antigas da Carolina do Sul e da Flórida.

"O verão é a época para ficar de pés descalços na grama, cuspindo sementes de melancia a torto e a direito e vendo o surgimento voluntário de plantas. Havia quintais com áreas cheias de grandes folhas de melancia e trepadeiras. Eu me lembro de ver pneus de carros e trepadeiras passando por cima de contêineres", comentou Carter, que morava no Brooklyn, em Nova York, antes de retornar ao leste da Carolina do Norte, onde cresceu, em 2018.

Carter, de 31 anos, é cofundadora da Tall Grass Food Box, empresa dedicada a aumentar a visibilidade dos agricultores negros que trabalham com caixas de produtos agrícolas sustentadas pela comunidade. Em 1955, seu bisavô materno comprou algumas terras em Apex; ele administrou um bar com música dançante antes de construir a própria casa, estrutura que conta a história de seu povo na agricultura arrendatária, no empreendedorismo e na propriedade de uma residência.

Cineasta por profissão, ela é a quarta geração a ganhar a vida - cuidando de ervas, quiabo, abóbora, ervilha, pimentão e melancia - nas terras da família. Suas melancias reluzentes e lustrosas espalham alegria por toda a comunidade.

Seu tio, Andrew Lee, de 77 anos, é sua referência quando o assunto é tratar a terra. Com a confiança e a aprovação dele, sua primeira produção de melancia em 2018 rendeu a Carter frutas suficientes para servir, presentear e incluir em saladas panzanella. "Minha avó cultivava melancia na colina na esquina desta casa", contou ela. Nesta temporada, Carter plantou as variedades jubileu e cascavel da Geórgia na mesma encosta, perto das roseiras, cujas flores ela planeja colher em julho. Até então, comprara melancias com sementes de um vendedor da Carolina do Sul.

Cerca de 530 quilômetros ao sul, na Interestadual 85, é possível encontrar outra cobiçada melancia - lua e estrela, variedade salpicada com polpa vermelha ou amarela que pode pesar até 13,6 quilos quando madura. "Optamos por melancias menores e mais pessoais", disse Sydney Buffington, que administra a Ladybird Farm com seu marido, Derek Pope, em Hull, no estado da Geórgia. O casal, que cultiva morango orgânico, tomate, flores comestíveis e melancia, é fornecedor de restaurantes na vizinha Athens, na Georgia, do mercado de fazendeiros local e de um programa de agricultura comunitário. Espremidas entre seus aposentos e uma modesta propriedade alugada com estrutura de madeira, há fileiras organizadas dedicadas aos itens obrigatórios de verão.

Os clientes deles costumam perguntar se a melancia tem semente e se está madura. A semente de melancia sem semente orgânica é cara, observou Buffington. O aparecimento de uma leve marca de sol (ou riscos na mancha causada pelo sol na melancia lua e estrela) e o escurecimento das gavinhas encaracoladas no caule do melão indicam que é época de começar o processo de colheita. "Você tem de deixar as melancias onde estão; não as pegue, não as gire. Elas têm de ficar exatamente no mesmo lugar no chão, onde sempre estiveram", afirmou Pope.

Ele é um encantador de melancias, que tem uma conexão forte com a fruta. Quando questionados sobre como os agricultores consomem a primeira melancia da temporada, Buffington e Pope responderam, quase em uníssono: "Direto na terra." Usando um canivete de bolso, eles abrem e cortam a polpa. Todo mundo tem um ritual repleto de endorfina ao ver uma fruta perfeitamente madura, o cheiro natural do açúcar pairando no ar.

"Meu avô adora colocar sal na melancia. Eu gosto dela fria, ou em temperatura ambiente, sem sal", disse Carter, da Tall Grass Food Box. Ela se lembrou dos sorrisos que suas frutas geraram em sua jornada para se tornar mestre jardineira autodidata, momento que conectou a nostalgia ao presente. "Três anos atrás, fiz uma aparição rápida no evento Juneteenth do Centro de Tradições Hayti e vendi fatias de melancia fria por US$ 1. Era um símbolo de uma nova retomada que eu estava começando a entender melhor."

The New York Times Licensing Group - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.