Meridith Kohut para The New York Times
Meridith Kohut para The New York Times

Água da Venezuela apresenta riscos para a saúde

População de Caracas está doente em razão dos elevados níveis de bactérias na água

Anatoly Kurmanaev e Isayen Herrera, The New York Times

23 de outubro de 2019 | 06h00

O barraco de tijolos nos arrabaldes da capital da Venezuela está repleto de bacias, jarros e baldes. A água deve durar uma semana para a família de oito pessoas - mas não basta para lavagens frequentes ou para dar a descarga no banheiro. Por isso, panelas engorduradas se amontoam na cozinha, e a casa tem cheiro de urina.

Além disso, a água não é tratada, o que torna diarreias e vômitos um problema recorrente. “Nós praticamente vivemos no banheiro”, disse a mãe da família, Yarelis Pinto. Sua filha grávida, Yarelys, estava sentada ao seu lado, pálida e apática, recuperando-se da última crise de diarreia, quando falta apenas um mês para ela dar à luz.

Na Venezuela, a economia em frangalhos e o colapso da infraestrutura do Estado faz com que a água chegue aos domicílios de maneira irregular - e tomá-la é arriscado. A taxa atual de mortalidade infantil do país por causa da diarreia, que está diretamente relacionada à qualidade da água, é seis vezes superior à de 15 anos atrás, segundo a Organização Mundial da Saúde. Mas o governo parou há anos de fornecer dados sobre a saúde pública.

Por este motivo, o New York Times encomendou a pesquisadores da Universidad Central da Venezuela a retomada do estudo sobre a qualidade da água que eles haviam realizado para a empresa de fornecimento de água de Caracas de 1992 a 1999. Os cientistas constataram que cerca de um milhão de habitantes estão expostos à água contaminada, o que os coloca em risco de contrair vírus transportados pela água. “Trata-se de uma epidemia em potencial”, afirmou Jose María De Viana, que foi diretor da companhia de tratamento de águas de Caracas, a Hidrocapital, até 1999.

No estudo mais recente, foram retiradas 40 amostras dos principais sistemas de água da capital e foram testados para conhecer o conteúdo de bactérias e o teor do cloro que mantém a água saudável. O estudo testou também fontes de água alternativas usadas pelos moradores durante os períodos de interrupção do fornecimento. Um terço das amostras não atendia aos padrões nacionais.

Isto exigiria que a Hidrocapital emitisse um alerta de saúde. Mas o governo da Venezuela não emitiu alertas, pelo menos desde que o Partido Socialista do presidente Nicolás Maduro chegou ao poder, há 20 anos. O governo venezuelano não respondeu às solicitações de comentários. O problema atesta a disparidade social, política e geográfica da capital, e afeta a saúde tanto nos condomínios dos ricos quanto nas favelas, áreas que sustentam a oposição e os cidadãos leais ao governo.

O estudo da água encomendado pelo jornal The Times mostrou que o principal sistema de tratamento da água, que abastece cerca de 60% da capital, estava particularmente comprometido. Em mais da metade das amostras tomadas no sistema principal a quantidade do cloro era insuficiente e quase dois terços das amostras tinham níveis de bactérias acima das normas.

A evidência baseada nas amostras coletadas pelos grupos de defesa da saúde pública mostra uma correlação entre o declínio do abastecimento de água do país e o aumento de doenças transportadas pela água. A incidência de hepatite A, uma infecção do fígado, aumentou 150 vezes em relação ao normal em Terrazas Del Avila, um bairro de classe média, depois de uma falta de água.

O estudo mostrou também um número excessivo de bactérias na maior parte das amostras colhidas em fontes de água alternativas usadas pelos habitantes de Caracas, como minas nas montanhas e água vendida em lojas. Até 2017, Yarelis, a mãe, comprava a água por achá-la mais segura. Agora, não tem mais condições de fazê-lo. Quando a sua caixa de água seca, a família vai até um riacho próximo com jarros. “Quando a gente bebe a água, fica com nojo”, ela disse. Mas a família não tem outra escolha, afirmou. “A gente precisa consumir o que tem”.

A crise econômica fechou durante meses a única fábrica de cloro da Venezuela. As bombas de água, as estações de tratamento, as instalações de injeção de cloro e os reservatórios foram sendo abandonados à medida que o governo ficou sem recursos e sem trabalhadores especializados, segundo sete gerentes antigos e atuais da Hidrocapital que pediram para não ser identificados.

Até 2015, Dorka López geria uma estação de tratamento de água em La Guaira. O processo de purificação da água ficou reduzido  depois que um deslizamento de lama danificou a estação, ela disse. Gradativamente, a estação parou de testar a qualidade da água, “Não tratamos mais a água”, ela disse, “só a fornecemos”. Isayen Herrera contribuiu para a reportagem. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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