Hassan Ammar/Associated Press
Hassan Ammar/Associated Press

Águas vivas servem de alimento para criaturas do oceano

Embora sejam constituídas por 95% de água, podem sustentar cadeias alimentares

Carl Zimmer, The New York Times

12 Outubro 2018 | 06h00

Para um peixe faminto em busca de alimento, uma água viva pode parecer uma enorme decepção. Estes animais gelatinosos são compostos por 95% de água, consequentemente, uma xícara de água viva fornece apenas cinco calorias - um terço da quantidade de uma xícara de aipo.

Anteriormente, os biólogos consideravam as águas vivas como um item insignificante no cardápio do oceano. Acreditava-se que os outros animais raramente se davam ao trabalho de em comê-las. As tartarugas-de-couro e os peixes-lua do oceano são notórios consumidores de águas vivas. Mas ambos são excepcionalmente grandes. Muitos cientistas acreditavam que seu tamanho fosse uma adaptação especial para que pudessem alimentar-se de águas vivas.

Mas pesquisas recentes mostraram que muitas espécies, de atuns a pinguins, procuram as águas vivas para comer. É até possível que elas ajudem a estabilizar as cadeias alimentares do oceano.

"Agora, nossa percepção mudou consideravelmente", afirmou Jonathan D.R. Houghton, biólogo marinho da Queen's University Belfast, na Irlanda do Norte. "É quase um reinício da ecologia das águas vivas como elemento central do sistema oceânico".

Houghton, Thomas K. Doyle, biólogo marinho da University College Cork, da Irlanda, e Graeme C. Hays, da Deakin University da Austrália examinaram recentemente uma nova evidência na revista especializada "Trends in Ecology and Evolution".

A presa deixa uma assinatura química nos predadores que a consomem. Elementos como oxigênio e nitrogênio encontrados nos músculos dos animais podem revelar o tipo de presa que eles comem. E de fato, várias espécies de peixes apresentam uma assinatura das águas vivas em seus músculos.

Os cientistas analisam também o DNA no interior do estômago dos predadores em busca de traços de águas vivas. E eles são encontrados em abundância.

Nas larvas das enguias, por exemplo, 76% do DNA da presa pertenciam a águas vivas. Analisando as fezes ds albatrozes, os cientistas determinaram que as águas vivas constituíam 20% de sua dieta. Vídeos obtidos com câmeras em miniatura instaladas em pinguins revelaram que eles também comem águas vivas. Na realidade, as aves as procuram ativamente, mesmo quando existem outras opções. As águas vivas podem constituir mais de 40% da dieta de um pinguim.

Parte da atração exercida pelas águas vivas decorre, talvez, da facilidade com que os animais conseguem apanhá-las. Elas não costumam escapulir velozmente, e uma vez que um animal come um pedaço de água viva, pode digeri-la muito mais depressa do que um peixe repleto de espinhos.

Alguns animais não conseguem engolir águas vivas inteiras, e consomem apenas as partes nutritivas. Embora o estômago de uma água viva seja majoritariamente constituído por água, seus tecidos reprodutivos oferecem calorias e proteínas.

Os animais marinhos são mais vulneráveis ao declínio de suas populações. Eles só podem sobreviver se existir alimento suficiente que tenha o tamanho certo para caber em suas bocas.

As águas vivas são muito mais versáteis. Quando há peixes pequenos disponíveis, uma água viva pode capturá-los em seus tentáculos. Mas se estes bocados estiverem faltando, elas se alimentarão do minúsculo zooplankton. Desse modo, outros animais podem sobreviver nos tempos de privação comendo essas criaturas versáteis.

"IsSo pode trazer estabilidade a uma cadeia alimentar", afirmou Houghton. "Elas poderiam representar um alimento de reserva para o sistema".

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