Rebecca Conway / The New York Times
Rebecca Conway / The New York Times

Aishe Ghosh: jovem ganha protagonismo em protestos que se espalham pela Índia

Após nacionalistas hindus baterem em sua cabeça e espancá-la com uma barra de ferro, as imagens do rosto da ativista manchado de sangue se espalharam pelas redes sociais

Jeffrey Gettleman e Hari Kumar, The New York Times

24 de janeiro de 2020 | 06h00

NOVA DÉLI – Embaixo de um viaduto que passa sobre uma rodovia, em Nova Déli, onde uma enorme manifestação fechou várias pistas de trânsito, veteranos dissidentes de uma associação revezaram-se para falar. Mas um choque elétrico passou pela multidão quando uma mulher magra subiu ao palanque e pegou o microfone. Ela não trazia anotações. Tinha a testa enfaixada e um braço engessado. “Muitos me perguntam se tenho medo”, começou.

“E eu respondo: Como posso ter medo?”. Ela não teme Amit Shah, o ministro do Interior, afirmou, nem Narendra Modi, o primeiro-ministro autoritário que levou a Índia pelo caminho de um nacionalismo hindu. “Mesmo que vocês me espanquem, não recuarei”, gritou. “Viva a revolução!”

Grandes protestos, os maiores e mais vigorosos que a Índia testemunhou em uma geração, estão se espalhando pelo país, e uma jovem vem se destacando neste movimento: Aishe Ghosh. No início deste mês, enquanto liderava uma manifestação pacífica no campus da Universidade Jawaharlal  Nehru, ela foi atacada por nacionalistas hindus. Depois de baterem em sua cabeça e de espancá-la com uma barra de ferro, as imagens do seu rosto manchado de sangue se espalharam pelas redes.

Mas foi a foto feita dois dias mais tarde que marcou os indianos: Aishe, de 25 anos, aparecia olhando diretamente para a câmera, com a cabeça enfaixada em bandagens médicas, o cabelo desgrenhado e os olhos brilhando de determinação. Embora tivesse sido atacada nas semanas anteriores, ela estava na manifestação de protesto coordenando greves e recrutando seguidores. “Politizamos inúmeras pessoas”, afirmou. “Eu me sinto cheia de orgulho”.

Obtenção da cidadania indiana

Desde a reeleição de Modi, em maio, o seu governo seguiu em frente com uma contenciosa revisão da cidadania considerada por grande parte da sociedade uma investigação para identificar e marginalizar famílias muçulmanas. Em agosto, ele revogou a condição de estado da Caxemira, até então o único da Índia de maioria muçulmana.

Mas a questão que irritou profundamente milhões de indianos foi a nova lei sobre cidadania de Modi, que cria um procedimento especial para a obtenção da cidadania indiana de migrantes de todas as principais religiões do sul da Ásia, com exceção de uma: o Islã.

Modi insiste que a lei tem como objetivo proteger os fugitivos perseguidos de países vizinhos, mas muitos indianos a consideram abertamente anti muçulmana e discriminatória. Ao ser aprovada, em dezembro, as universidades de todo o país explodiram em protestos.

Testemunhas do ataque a Aishe disseram que os que a espancaram eram estudantes e pessoas de fora pertencentes a grupos favoráveis a Modi, que escolheram como alvos os líderes liberais e os que haviam manifestado a própria oposição contra as medidas do ministro. Um grupo extremista hindu admitiu posteriormente ter participado da confusão, afirmando que havia armado seguidores.

Após a sua fala depois do espancamento, a jovemse tornou a vítima de uma campanha de desinformação. Extremistas hindus espalharam imagens falsas dela.  A polícia a acusou e também a outros estudantes, de instigação à violência, o que ela nega. “Não me importo se me citarem em 70 casos", ressaltou. “Não vou desistir”.

Aishe não vê os pais desde que foi atacada, embora eles queiram visitá-la. Ela mal tem tempo para ficar com o namorado (outro estudante ativista). Este é o momento muito importante na sua vida. “Com tudo o que está acontecendo, estou muito ocupada”, disse, enquanto corria para outro protesto. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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