Laura Boushnak para The New York Times
Laura Boushnak para The New York Times

Albergue de Sarajevo recria experiência de guerra para turistas

'Turismo dark' vira nicho de mercado e não preza pelo conforto

Andrew Higgins, The New York Times

06 Janeiro 2019 | 06h00

SARAJEVO, BÓSNIA E HERZEGOVINA - Arijan Kurbasic, o gerente do Hostel de Guerra de Sarajevo, a capital da Bósnia, sabe que a sua ideia de hospitalidade talvez não agrade a todos e está disposto a abrandar um pouco as normas da casa. Por exemplo, quem sabe, baixar o volume do som que, dia a noite, enche o lugar com o estrondo incessante de tiros e explosões.

Mas conseguir dormir ainda pode ser um problema. Não há camas, apenas colchonetes no chão sem travesseiros ou lençóis, e cobertores pesados que pinicam. A decoração não contribui absolutamente para relaxar - montes de armas e, em um quarto, um pôster que alardeia “Morte” e “Fim”. Kurbasic oferece o que há de mais requintado em privação - “o bunker”, um cômodo num calabouço sem janelas, tão desconfortável que, afirmou, “é insano querer dormir ali”. Alguns hóspedes preferiram o bunker.

Ex-guia de turismo de Sarajevo, Kurbasic, 27, disse que entendeu perfeitamente o que muitos turistas queriam saber a respeito da agonia desta gloriosa cidade, durante a guerra da Bósnia de 1992-95. O termo  que a indústria do turismo usa para definir o que ele oferece é “turismo dark”, um nicho de mercado que vem crescendo globalmente. Sarajevo tem uma abundância destes locais dark, inclusive o ponto exato em que um nacionalista sérvio assassinou o arquiduque Francisco Ferdinando, o herdeiro do trono austro-húngaro em 1914, o estopim da Primeira Guerra Mundial na Europa.

Mas foi também na Bósnia que uma primeira versão de turismo dark deu uma guinada sinistra, contou Zijad Jusufovic, sobrevivente do cerco a Sarajevo durante a guerra, que conduz os tours na cidade. “Esta é a atração número um do turismo dark”, afirmou em um local sobre as colinas de onde é possível ter uma visão panorâmica da cidade. Os turistas, em geral cristãos ortodoxos fanáticos da Rússia e da Grécia, costumam tirar fotos, pagando, com rifles de franco atiradores e armamento antiaéreo contra moradores muçulmanos que correm para se esconder na cidade lá em baixo.

No hostel, que custa 20 euros (ou 22,50 dólares) por pessoa, celulares, joias e relógios são proibidos. O bunker tem um relógio de corda, mas está quebrado. Kurbasic, que pede para ser chamado Zero One, o codinome do seu pai na guerra, acerta o relógio na hora da chegada dos hóspedes.

A maioria dos visitantes vem da Europa, Austrália e Estados Unidos, muitos deles são jovens demais para lembrar das imagens arrepiantes da televisão sobre a miséria de Sarajevo durante os 1.425 dias do cerco das forças sérvias à cidade. Jusufovic disse que os bósnios começaram a encarar mais tranquilamente o turismo de guerra depois que uma família muçulmana, cuja casa perto do aeroporto de Sarajevo era o ponto de partida de um túnel de guerra escavado em baixo da pista, começou a ganhar dinheiro vendendo ingressos aos turistas que queriam visitá-lo.

Chamado Túnel da Esperança, foi encampado pelo governo em 2013, e hoje é uma atração popular. Entretanto, a comercialização da guerra é um negocio ardiloso considerando as autoridades de Sarajevo.  Kurbasic se recusa a dizer se é muçulmano, sérvio ou croata, os três principais grupos étnicos da Bósnia. Sua única mensagem é que agora os hóspedes devem olhar Sarajevo como uma cidade cosmopolita, e lembrar que o que aconteceu aqui, pode acontecer onde quer que haja seres humanos”.

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