Meghan Marin/The New York Times
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O álbum que Steve Earle nunca quis gravar: um tributo ao filho que morreu

Menos de dois meses após a morte de Justin Townes Earle de uma overdose acidental, seu pai entrou no Electric Lady Studios para gravar um LP de suas canções

Ben Sisario, The New York Times - Life/Style

20 de janeiro de 2021 | 05h00

Na noite de 20 de agosto, Steve Earle falou com seu filho, Justin Townes Earle, pela última vez.

Em um telefonema feito pelo filho de Earle, eles conversaram sobre os negócios da família, e o cantor e compositor de country-rock, que lutou contra o vício durante anos, disse ao filho - que também era um músico bem-sucedido - que o apoiaria se ele estivesse pronto para iniciar a própria recuperação. "Eu disse que não queria ter de enterrá-lo. E ele me respondeu que eu não precisaria fazer isso", contou Earle em uma entrevista.

Naquela noite, Justin Townes Earle, de 38 anos, morreu sozinho em seu apartamento em Nashville, no Tennessee, em decorrência de uma overdose acidental; a autópsia revelou a presença de cocaína com fentanil, um opioide poderoso. Para Steve Earle, a morte de seu filho mais velho deu início a uma onda de luto. Ele viu Justin Townes Earle passar de um adolescente desajeitado, fã de hip-hop e fascinado com Kurt Cobain, a uma estrela em ascensão na música americana, com uma mistura de folk, country e rock.

Justin Townes Earle, que lançou oito álbuns e um EP ao longo de 13 anos, tinha um estilo de composição incisivo, influenciado por Townes Van Zandt, o fatalista oráculo folk que foi o mentor de Steve Earle. O segundo nome do filho era uma homenagem a Van Zandt. Ele também deixou uma marca inegável no próprio Earle, cujas melhores canções - tocadas por bandas ou em versões para voz e violão - sempre têm um espírito rock 'n' roll.

Assim como o pai, Justin Townes Earle foi viciado em drogas por muitos anos. Usava heroína desde a adolescência. O alcoolismo o prejudicou durante toda a sua carreira, especialmente nos últimos anos. Steve Earle disse que o filho foi hospitalizado com pneumonia em meados do ano passado, depois de ter aspirado o próprio vômito, e um médico o advertiu de que morreria se não parasse de beber.

Porém, embora Steve Earle tenha conseguido se livrar das drogas - depois de passar uma temporada na cadeia em 1994 por posse de drogas e arma de fogo -, seu filho sucumbiu à doença. Justin Townes Earle deixou a esposa, Jennifer, e uma filha de três anos, Etta St. James Earle.

"Nunca amei nada neste mundo mais do que ele. Tínhamos uma conexão que... Ele era meu primogênito, sabe? Nós dois fazíamos a mesma coisa e tínhamos a mesma doença", afirmou Steve Earle.

Poucos dias depois da morte de Justin Townes Earle, Steve Earle, de 65 anos, começou a trabalhar no que se tornaria o álbum J.T., com dez canções compostas pelo filho e uma composta pelo pai. Os lucros do disco vão para um fundo em nome de Etta.

"Suas melhores canções são especiais. Ele cantava muito melhor do que eu, também tinha uma técnica muito melhor que a minha no violão. Seu 'fingerstyle' era estonteante. Era uma pessoa que sentia que sempre precisava ir além", comentou Earle.

J.T. - o apelido de infância de Justin Townes Earle - é mais um disco que se tornou uma especialidade sombria para Earle: o tributo a um parceiro musical que partiu. Townes foi lançado em 2009, 12 anos depois da morte de Van Zandt, e Guy, uma homenagem ao compositor Guy Clark, foi lançado três anos depois da morte deste, em 2016. Mas J.T. foi feito num momento em que a dor de Earle ainda estava fresca. Durante as gravações, em outubro, a causa oficial da morte do filho ainda não havia sido determinada.

Gravado com os Dukes, o grupo que acompanha Earle há muito tempo - com Chris Masterson na guitarra, Eleanor Whitmore na rabeca, Ricky Ray Jackson na guitarra havaiana, Jeff Hill no baixo e Brad Pemberton na bateria -, J.T. inclui algumas das músicas mais famosas de Justin Townes Earle, como Harlem River Blues, Champagne Corolla e The Saint of Lost Causes, o título de seu último disco, lançado em 2019.

A voz rasgada de Earle contribui para destacar a temática soturna presente em todo o disco. Harlem River Blues contempla uma morte por afogamento. ("Diga à minha mãe que a amo / Diga a meu pai que tentei / Dê meu dinheiro para meu bebê"). Turn Out My Light, sobre a dor de um amor que chegou ao fim, ganha uma dimensão dupla quando Earle canta: "Ainda que eu soubesse que você partiu / Não preciso mais ficar só / Você está comigo todas as noites / Quando apago minha luz".

"Gravar o álbum foi uma experiência menos catártica que terapêutica. Fiz esse disco porque precisava", disse Earle.

De certa forma, J.T. é um retrato duplo de pai e filho. Justin Townes Earle nasceu em 1982, quando o pai trabalhava como compositor em Nashville. Ele e a mãe de Justin Townes Earle, Carol Ann Hunter, separaram-se quando Justin tinha três anos, mais ou menos na época em que a carreira do pai começava a deslanchar. Durante boa parte da infância de Justin Townes Earle, o pai estava em turnê ou mergulhado no vício das drogas.

Quando Justin Townes Earle chegou à adolescência - depois que Steve Earle havia deixado as drogas e saído da prisão -, foi viver com o pai, e os dois formaram um laço musical profundo. Earle se lembra de um momento especial, quando o filho ainda estava aprendendo a tocar violão e ficou impressionado com Kurt Cobain no instrumento em Where Did You Sleep Last Night, no "Acústico MTV" do Nirvana, sem saber que a canção era do ícone folk Leadbelly. Earle mostrou ao filho a seção "L" de sua coleção de discos, na qual Leadbelly ficava ao lado de Lightnin' Hopkins e Mance Lipscomb.

"Quando dei por mim, ele estava tocando músicas do Mance que eu nunca tinha conseguido compreender", contou Earle.

Para gravar J.T., Earle contou com a ajuda do filho Ian, de 33 anos, para resumir a obra de Justin Townes Earle em dez canções, e alugou por uma semana os Electric Lady Studios, em Nova York.

Earle trabalhou rapidamente. Ele, que tinha evitado ao máximo falar publicamente sobre a morte do filho, gostaria que o disco fosse sua grande declaração sobre o assunto.

Também não queria participar de homenagens feitas por outras pessoas. "Eu não queria ser convidado para participar de um tributo com muitas pessoas que ajudaram a alimentar o vício e a matar meu filho. Por isso cheguei à conclusão de que o melhor seria fazer um registro meu", disse Earle, em uma frase cheia de palavrões.

A música que foi mais difícil de gravar é também a mais poderosa do disco: Last Words, resumo doloroso da jornada de um pai, desde o dia em que ele segura o filho recém-nascido no colo até o momento em que conversam pela última vez. Earle escreveu essa música menos de uma semana depois da morte de Justin Townes Earle, e a descreveu como "possivelmente a única música que escrevi na vida em que cada palavra é verdadeira".

"A última coisa que eu disse foi 'Te amo' / Suas últimas palavras para mim foram 'Também te amo'", canta Earle, acompanhado do violão e de um sinistro ruído de fundo.

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