Reimagine sua relação com o álcool
Julia Bainbridge, The New York Times - Life/Style

04 de fevereiro de 2021 | 05h00

Sete anos atrás, Laura McKowen começou um diário de consumo de bebidas alcoólicas. Ela sabia que o álcool era um de seus grandes problemas – sabia disso quando sua filha de quatro anos a ajudou na limpeza na manhã seguinte a uma bebedeira, e sabia disso na décima vez em que ia para o trabalho de ressaca –, mas precisava ver algo concreto.

"Coisas interessantes acontecem quando colocamos o preto no branco, porque temos uma grande dissonância cognitiva em relação à bebida", disse McKowen. Ela não pode ignorar o que viu escrito: duas garrafas de vinho por noite. Então, parou de beber e passou a ajudar os outros a fazer o mesmo, por meio de oficinas de coaching e ensino.

Em janeiro do ano passado, McKowen publicou We Are the Luckiest: The Surprising Magic of a Sober Life (Somos os mais sortudos: a mágica surpreendente de uma vida sóbria, em tradução literal) e, em março, começou a sediar reuniões gratuitas de apoio à sobriedade no Zoom. Em maio, estava com 12 funcionários e uma empresa chamada Luckiest Club, que oferece aulas e apoio comunitário.

Não é surpresa que McKowen tenha encontrado uma base de clientes ansiosa. De acordo com a Pesquisa Nacional sobre Uso de Drogas e Saúde de 2019, mais de 14 milhões de adultos americanos têm transtorno de uso de álcool (AUD, na sigla em inglês), termo que os profissionais médicos preferem ao alcoolismo.

Porém você não precisa de um diagnóstico para perceber que tem um problema com a bebida. O álcool pode prejudicar o sono, causar ganho de peso, agravar a ansiedade ou mudar sutilmente sua personalidade. Um estudo realizado pela Rand Corp. em setembro sugere que os americanos estão bebendo 14% mais frequentemente em resposta ao estresse relacionado à pandemia, especialmente as mulheres, cujos dias de bebedeira pesada (definidos como quatro ou mais drinques em poucas horas) aumentaram 41% em 2020.

"Quando você trabalha todos os dias em tempos sem pandemia e não tem uma quantidade excessiva de estresse, é bastante fácil limitar a bebida às noites de sexta-feira. Quando toda essa estrutura desaparece – quando você está preocupado com as finanças e a educação de seus filhos em casa e não precisa sair pela manhã, de modo que ninguém vai ver se você está de ressaca –, pode ser muito mais difícil gerenciar o álcool", afirmou James Murphy, professor de Psicologia e pesquisador da Universidade de Memphis.

Se isso soar familiar, aqui estão algumas sugestões para ajudar a controlar seu relacionamento com o álcool ou acabar com ele.

Seja curioso

Tome nota de quanto você está bebendo, assim como os prós e contras desse consumo. Estude seus hábitos – e seja honesto em relação a eles.

Para lhe dar uma perspectiva, as Diretrizes Dietéticas para Americanos 2020-2025, elaboradas pelo governo federal, recomendam não mais do que uma dose por dia para mulheres ou duas para homens, e Murphy sugere o medidor de álcool gratuito no site CheckUp & Choices. Responda ao questionário, que é utilizado por profissionais de saúde, e avalie sua pontuação. Da mesma forma, o Drinks Meter é um aplicativo com uma calculadora diária que pode ajudar você a colocar seu consumo em perspectiva usando um banco de dados anônimo do hábito de consumo de mais de seis mil pessoas em todo o mundo.

"Você não precisa saber o que é preciso fazer além de querer uma mudança. Está fazendo isso agora, sendo corajosa o suficiente para ler este artigo", observou Holly Whitaker, autora de Quit Like a Woman: The Radical Choice to Not Drink in a Culture Obsessed with Alcohol (Pare como uma mulher: a escolha radical de não beber em uma cultura obcecada por álcool, em tradução literal) e criadora de um programa de recuperação on-line chamado Tempest.

Livre-se do álcool

Se você decidiu que o álcool está tendo um impacto negativo na sua vida, tente se distanciar dele. Remova garrafas de seu espaço físico e conteúdo relacionado à bebida do mundo virtual. Limpe seu celular e seu computador de qualquer coisa que possa tentá-lo a beber.

Segundo McKowen, não se trata de ter uma existência isolada ou evitar qualquer coisa que gere a vontade de beber, e sim de desmantelar o mito de que beber é o que torna a vida divertida. "Você quer que seu mundo on-line reflita a energia de sua meta", disse ela.

Então tente não beber por um mês. Especialistas dizem que essa é a melhor maneira de avaliar o uso do álcool, e é um ponto de partida na redução do seu consumo, se for isso que você decidiu fazer.

"Desintoxicação significa literalmente remover a toxina", comentou George Koob, diretor do Instituto Nacional de Abuso de Álcool e Alcoolismo. Isso pode ser feito por conta própria, a menos que você tenha AUD de moderado a grave; nesse caso, você deve procurar ajuda médica. A abstinência de álcool grave sem tratamento pode ser fatal.

Preencha o vazio com outra coisa

O álcool tem efeitos positivos: alivia a tensão e reduz as inibições. Remova-o e vai sentir sua falta, pelo menos inicialmente.

Identifique outras atividades de que você goste e aumente sua frequência, como fazer exercício ou passar tempo com amigos. "Precisamos de outra coisa para preencher o vazio que o álcool deixa", disse Murphy.

Encontre seu povo

É mais provável que você se abstenha com sucesso do álcool se tiver apoio. "Fale com quantos amigos e familiares você se sentir seguro sobre a isso", recomendou Murphy.

Algo que também ajuda é se conectar com outros que compartilham seu objetivo. Reuniões presenciais de apoio são mais difíceis na pandemia, mas a ajuda on-line cresceu. "Vou a duas reuniões por dia agora. É muito fácil, porque elas são promovidas no meu quarto", contou Braunwyn Windham-Burke, estrela de reality show cuja jornada de sobriedade é exibida na 15ª temporada de The Real Housewives of Orange County.

Um membro do Tempest, Valentine Darling, de 32 anos, de Olympia, em Washington, acha que as reuniões virtuais também são mais amigáveis para os LGBTQ: "Eu me sinto segura sentada ao lado das plantas da minha casa, por isso estou mais presente e também sou mais autenticamente eu – uso vestidos e expresso meu gênero sem temer que alguém me siga até em casa."

Muitas organizações têm reuniões especificamente para pessoas não-brancas, determinadas faixas etárias ou mesmo profissões. O Ben's Friends é um grupo de apoio à sobriedade voltado para os funcionários de restaurantes. "Falamos uma língua comum em restaurantes. Você descobre que 'ok, ele é um cozinheiro de linha. Ela é bartender. Esse é meu povo'", disse Steve Palmer, um dos fundadores do grupo.

Entenda o que a recuperação significa para você

Se manter a sobriedade em janeiro foi relativamente fácil, então simplesmente considere isso um reset. Mas, se está tendo problemas para manter seu plano, você pode precisar de mais do que reuniões em grupo. Você pode ter AUD, que é uma doença, não uma falha moral, e requer tratamento como qualquer enfermidade. A forma mais eficaz de recuperação geralmente envolve terapias comportamentais de longo prazo e apoio da comunidade, bem como medicamentos, se necessário.

Seja flexível

Se você decidir manter sua sobriedade a longo prazo, entenda que os planos de tratamento podem variar com o tempo. "As mesmas práticas que ajudaram você a parar de beber não vão necessariamente mantê-lo sóbrio mais tarde", ensinou Whitaker. Talvez você tenha descoberto um trauma no processo, talvez esteja passando por um divórcio, ou talvez esteja no meio de uma pandemia.

Você não fez nada de errado. Só precisa de novas ferramentas.

Murphy recomenda continuar a manter um registro do consumo de álcool. Aplicativos como DrinkControl e Drinks Meter podem ajudar, mas mesmo o uso de lápis e papel para anotar quaisquer benefícios que você perceba pode manter sua determinação. Quando tiver uma recaída, tome nota disso – e de como se sente em relação a ela.

Provavelmente, muito tempo foi necessário para desenvolver sua relação atual com o álcool. Mudá-la exigirá um esforço permanente e talvez várias tentativas. Se a primeira não durar, disse Koob, não seja severo consigo mesmo. Tente de novo.

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