Gabriella Angotti-Jones/The New York Times
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Alegações de abuso sexual agitam grupo budista

Seguidoras de Sakyong Mipham Rinpoche, diretor da Shambhala Internacional, dizem que ele as explorou sexualmente, e muitas se sentem traídas enquanto surgem novas acusações

Andy Newman, The New York Times

21 Julho 2018 | 10h30

Mipham Rinpoche é o diretor de uma das maiores organizações budistas do Ocidente, Shambhala Internacional, uma rede de mais de 200 entrepostos em mais de 30 países onde milhares procuram treinamento em técnicas de meditação.

Ele é conhecido como Sakyong, palavra tibetana que pode ser traduzida como algo semelhante a um rei, e seus discípulos fazem votos de segui-lo. No momento, eles estão se sentindo tristes, furiosos e traídos.

No mês passado, uma ex-professora da Shambhala divulgou um relato alegando que Sakyong teria abusado e explorado sexualmente algumas de suas seguidoras mais dedicadas durante anos.

Mulheres citadas no relato mencionaram episódios em que teriam sido apalpadas e forçadas a ceder favores sexuais. O relato dizia que membros importantes da Shambhala tinham conhecimento do comportamento de Sakyong e acobertaram a situação.

Sakyong pediu desculpas alguns dias antes da divulgação formal do relato, admitindo manter “relacionamentos” com mulheres da comunidade, algumas das quais “compartilharam experiências nas quais se sentiram constrangidas". Seguidores e grupos da Shambhala em todo o mundo exigiram mais.

No dia 6 de julho, veio a notícia: o conselho que governa a Shambhala Internacional, com sede em Halifax, Nova Escócia, renunciou coletivamente, “no interesse de começar o processo de cicatrização da nossa comunidade".

Naquela noite, Sakyong, 55 anos, deixou o comando da Shambhala enquanto uma empresa de fora investiga as alegações de abuso contra ele e outros professores da Shambhala. O anúncio disse que ele “entrará num período de autorreflexão".

Alguns dias antes de Sakyong deixar seu posto, Ramoes Gaston, voluntário do centro de Manhattan que estudou com a Shambhala por oito anos, disse que as revelações tinham devastado seu mundo. “Não quero que a história venha à tona", disse Gaston. “Mas isso precisa ser feito.”

A derrocada de um líder budista ocidental acusado de má conduta sexual já ocorreu antes. No ano passado, Lama Norlha Rinpoche, que fundou um monastério em Wappingers Falls, Nova York, se aposentou após ser alvo de alegações semelhantes. O mesmo ocorreu com Sogyal Rinpoche, autor de “The Tibetan Book of Living and Dying” [Livro tibetano da vida e da morte], acusado de cometer abuso sexual e episódios de fúria ao longo de décadas. Na tradição zen, entre os mestres desgraçados estão Joshu Sasaki e Eido Shimano, dois dos nomes mais importantes do zen nos Estados Unidos.

A organização Shambhala foi fundada pelo pai de Sakyong, Chögyam Trungpa, nascido no Tibete: um homem carismático, professor brilhante e encarnação de um conceito conhecido como “louca sabedoria”, cujo lado alcoólatra e mulherengo era bastante conhecido. Ele morreu em 1987. Entre a gestão de Chögyam Trungpa e a de Sakyong, a Shambhala foi comandada por um budista nascido nos EUA que é lembrado principalmente por manter relações sexuais com as alunas mesmo depois de saber que tinha aids.

A mulher por trás da denúncia contra Sakyong, Andrea Winn, cresceu na comunidade Shambhala em Halifax e diz que ela e muitas outras crianças foram abusadas sexualmente pelos adultos da comunidade.

No início de 2017, ela deu início a uma iniciativa que duraria o ano inteiro, “Project Sunshine", para reunir relatos de sobreviventes desses abusos. O relatório resultante, publicado em fevereiro, levou a Shambhala Internacional a anunciar “um esforço para lidar com questões de constrangimentos anteriores em nossa comunidade".

Sakyong elogiou a “bravura e coragem” das sobreviventes por relatarem o ocorrido.

Uma mulher escreveu que, durante anos, antes de se casar, Sakyong a beijava e apalpava quando ficava bêbado. Ela disse que esperava se casar com ele, e racionalizou os abusos cometidos por ele ao dizer para si que Sakyong tentava mostrar a ela “os padrões da minha própria mentalidade empobrecida”.

O advogado de Sakyong, Michael Scott, disse que ele não comentaria os relatos “por respeito à integridade da investigação independente".

Andrea, 50 anos, coach de liderança que mora em Halifax, disse à respeito da renúncia do conselho e afastamento de Sakyong: “Foi uma surpresa, e também um grande alívio. Agora, vejo a possibilidade de uma cicatrização".

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