Lena Mucha para The New York Times
Lena Mucha para The New York Times

Alemães se unem para salvar pequena cervejaria

Os esforços de moradores de um vilarejo para salvar um bar local retrata a preocupação da Alemanha com o desaparecimento de suas tradições

Melissa Eddy, The New York Times

26 de outubro de 2018 | 06h00

HANDORF-LANGENBERG, ALEMANHA - No ano passado, quando Hubert Frilling morreu pacificamente enquanto dormia, aos 87 anos, a cervejaria do bairro, Zum Schanko, que ele administrava e da qual era proprietário, parecia fadada a morrer com ele.

Durante gerações, os salões da Schanko - também o apelido de Frilling - atenderam à população de Handorf-Langenberg, vilarejo de 1.500 habitantes no noroeste da Alemanha, funcionando como centro comunitário e extensão da sala de estar para incontáveis aniversários, batismos e outras reuniões com amigos e família.

"O coração de Handorf-Langenberg parou de bater", disse o pastor aos enlutados na Igreja de Santa Bárbara, a dois quarteirões do pub, reunidos para o velório de Frilling em novembro.

Mas Maik Escherhaus, diretor do clube esportivo local, e alguns amigos tiveram a ideia de salvar o Schanko com a venda de uma participação no negócio aos moradores e àqueles que cresceram no vilarejo antes de se mudarem, e para quem mais tiver interesse.

Até setembro eles já tinham vendido mais de mil ações. O participante mais velho tinha mais de 80 anos; a mais jovem, Anna, se tornou acionista no dia em que nasceu.

Num momento em que os alemães voltaram ao debate a respeito de sua identidade, depois de terem recebido mais de um milhão de solicitantes de asilo desde 2015, em sua maioria de países muçulmanos, o destino das tradicionais cervejarias se tornou até uma questão política.

Escherhaus procurou o presidente da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, na esperança de embarcar no espírito que levou o chefe de estado a destacar a divisão entre as populações urbana e rural em seu mais recente discurso anual de natal.

A resposta foi uma carta assinada pelo presidente, elogiando os esforços para salvar o Schanko como "notável exemplo daquilo que podemos alcançar nas regiões rurais quando tomamos a iniciativa com projetos de autoajuda".

No segundo semestre desse ano, depois de captar os € 200 mil necessários para comprar o estabelecimento, os novos proprietários do Schanko deram início a reformas e estão aceitando reservas para a grande reinauguração prevista para o primeiro semestre do ano que vem.

"Corremos o risco de perder não apenas nosso último bar, mas um verdadeiro bem cultural", disse Escherhaus.

Ainda que o Schanko tenha sobrevivido, o mesmo não vale para um crescente número de restaurantes e cervejarias tradicionais alemãs, vítimas de uma população cada vez mais velha que esvaziou os vilarejos; uma urbanização que afastou os jovens desses estabelecimentos; um número cada vez maior de pessoas que procuram as redes sociais para trocar histórias; e a expansão da diversidade na cultura alemã.

Entre 2010 e 2016, a Alemanha observou uma queda de 20% no número de pubs tradicionais, de acordo com a Organização Alemã de Hotéis e Restaurantes.

"Recebemos muitas propostas para transformar o lugar numa pizzaria ou num restaurante de fast food oriental", destacou Escherhaus, referindo-se aos outros empreendimentos interessados no espaço do Schanko. Mas, segundo ele, não era disso que o vilarejo precisava para manter sua coesão social.

Numa noite de sexta-feira no final do verão, dezenas de pessoas foram ao Schanko para uma última festa nos salões da versão original, antes do fechamento para reformas.

"O Schanko é um patrimônio de Langenberg, assim como a catedral é patrimônio de Colônia", disse Hubert Beckmann, 61 anos, erguendo uma cerveja para brindar com os amigos. "É o coração da vida num vilarejo".

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