Ronald Wittek/EPA, via Shutterstock
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Alemanha está indo além da energia nuclear. Mas a que custo?

Fontes suficientes e energia renovável podem não estar disponíveis a tempo para compensar a perda da energia derivada de combustíveis fósseis e nucleares

Jochen Bittner, The New York Times

18 de janeiro de 2020 | 06h00

Seriam os alemães irracionais? Steven Pinker parece acreditar quer sim. O professor Pinker, psicólogo de Harvard, disse recentemente à revista alemã Der Spiegel que, se a humanidade quisesse deter a mudança climática sem deter também o crescimento econômico, o mundo precisaria de mais energia nuclear, e não menos. Para ele, a decisão da Alemanha de abandonar a energia nuclear seria "paranoia".

É verdade que meu país embarcou em um experimento único. O governo Merkel decidiu desativar gradualmente as usinas de energia nucleares e movidas a carvão. O último reator alemão deve ser desativado até o fim de 2022, e a última usina de carvão, até 2038. Ao mesmo tempo, o governo incentivou a compra de veículos elétricos, menos nocivos para o meio-ambiente - aumentando assim a demanda por energia.

E apesar dos esforços para poupar energia nas décadas mais recentes, o consumo elétrico da Alemanha aumentou 10% desde 1990. Os céticos afirmam que o país está embarcando em um rumo perigoso. Fontes suficientes e energia renovável podem não estar disponíveis a tempo para compensar a perda da energia derivada de combustíveis fósseis e nucleares. 

Ainda que as fontes renováveis representem cerca de 40% do fornecimento elétrico da Alemanha, há limites para sua expansão contínua, por motivos que são mais políticos do que tecnológicos. Em certas partes rurais do país, as pessoas cansaram dos “parques eólicos” em eterno crescimento”; um maior número de cidadãos protesta contra a instalação de turbinas novas - e frequentemente mais altas - em seus bairros. 

E cresce a resistência aos novos caminhos necessários para transportar a eletricidade do litoral para os centros industriais. De acordo com cálculos oficiais, quase seis mil quilômetros de novas linhas de energia são necessárias para a “Energiewende” [revolução energética] alemã. Até o fim de 2018, apenas 150 quilômetros tinham sido construídos.

Os riscos do plano vão além de uma escassez de oferta. O resultado pode ser uma dificuldade em lidar com a mudança climática. Ao fechar as usinas nucleares antes daquelas movidas a carvão, a Alemanha pode ser ver dependente dos combustíveis fósseis e todo o estrago causado por eles por mais tempo que o necessário. Independentemente disso, a oposição dos alemães à energia nuclear perdura: 60% deles querem eliminá-la o quanto antes.

Para começar, a energia nuclear não pode ser considerada absolutamente segura, e os alemães sempre a trataram com particular desconfiança. Após o acidente nuclear na usina japonesa de Fukushima, em 2011, a chanceler Angela Merkel autorizou a Atomausstieg, o abandono definitivo da energia nuclear. Por que? A resposta é que, sendo formada em física, Merkel soube explicar: “O risco residual da energia nuclear só pode ser aceito se estivermos convencidos, dentro de nossas capacidades humanas de avaliação, que não teremos de enfrentá-lo". 

Mas e quanto às consequências quase certamente catastróficas do segundo mal, a mudança climática impulsionada pelas usinas de carvão? Merkel admitiu recentemente que “a mudança climática está ocorrendo mais rapidamente do que supúnhamos há dois anos". Ao mesmo tempo, teve que reconhecer que a Alemanha estava com dificuldades para cumprir as promessas do acordo climático de Paris

Poderíamos dizer que nosso entendimento da gravidade da mudança climática foi aprofundado desde 2011 e, consequentemente, os países deveriam fazer tudo ao seu alcance para abandonar os combustíveis fósseis - mas nada indica que Merkel vá mudar de ideia em relação ao abandono da energia nuclear.

Uma volta à energia nuclear parece completamente impensável para o Partido Verde, provável parceiro futuro de coalizão dos Democratas Cristãos de Merkel. Os Verdes têm suas origens no movimento antinuclear do início dos anos 1980: a resistência à energia atômica está no DNA do partido. Mas o mesmo vale para a mudança climática.

Confrontados com essas convicções excludentes, os Verdes parecem não encontrar uma resposta satisfatória. Quando Annalena Baerbock, uma das líderes do partido, foi indagada em rede nacional de TV se o país deveria insistir um pouco mais na energia nuclear para permitir o fechamento acelerado das usinas de carvão, ela rejeitou a ideia. “Nesse país, ninguém quer lixo nuclear enterrado no jardim do vizinho", disse ela.

Isso é verdade, sem dúvida. Também é verdade que a energia nuclear enriquece empresas enquanto deposita o risco do lixo atômico e da falha tecnológica no colo da sociedade. Mas esse cálculo também vale para a energia gerada a partir do carvão e as pesadas emissões de dióxido de carbono resultantes.

A tragédia do experimento energético da Alemanha está no fato de a atitude quase religiosa do país contra a energia nuclear fechar o espaço para avanços na tecnologia. Cientistas americanos, russos e chineses acreditam que é possível gerar energia a partir do lixo atômico - o que resolveria a questão de como armazenar o combustível usado e tóxico, um dos principais argumentos contra a energia nuclear. É claro que esses reatores de rápida implementação também trazem seus riscos.

Mas, conforme fazemos a transição para um fornecimento de energia renovável, eles não seriam uma alternativa mais desejável do que as usinas de carvão e gás? Ao fechar apressadamente todo o setor nuclear, as oportunidades perdidas são mais numerosas que os riscos evitados pela Alemanha.

O país abre mão de desenvolver uma tecnologia que pode se revelar a mais segura e menos nociva para o clima já criada pelo homem. No mínimo, o uso das usinas nucleares alemãs já existentes tornaria possível o desligamento mais rápido das usinas de combustíveis fósseis. Seria irracional fugir a este rumo? Talvez. Mas deixar essa chance escapar pode se revelar um dos erros mais graves da era Merkel. / Jochen Bittner é codiretor da seção de debates do diário Die Zeit. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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