Fred Dufour/ Agence France-Presse -Getty Images
Fred Dufour/ Agence France-Presse -Getty Images

Alemanha fica dividida em meio ao embate entre EUA e China

Berlim adota estratégia delicada com seu principal aliado e seu maior parceiro comercial

Anna Sauerbrey, The New York Times

02 Fevereiro 2019 | 06h00

Enquanto prossegue o impasse entre os Estados Unidos e a China, o resto do mundo limita-se a aguardar com ansiedade - principalmente a Alemanha. Nos últimos dez anos, a maior economia da Europa, mas ainda uma potência de porte médio pelos padrões globais, foi se adaptando persistentemente à realidade do predomínio econômico chinês. Recebeu investimentos chineses e encorajou as suas companhias a jogar de acordo com as regras de Pequim a fim de ter acesso aos seus mercados.

Contudo, a Alemanha manteve-se um baluarte da aliança ocidental. O tumulto geopolítico dos últimos seis meses proporcionou uma percepção estratégica aos líderes alemães dos riscos implícitos em procurar jogar dos dois lados. O problema mais sério que a Alemanha encara agora é enfrentar esses desafios.

Até agora, o comércio definiu a política externa alemã em relação à China, o seu parceiro comercial mais importante. Ela buscou relações estreitas com a China, estabelecendo consultas bilaterais regulares a nível de governo. Os alemães acreditavam que o crescimento levaria os chineses a seguirem direções mais liberais em termos econômicos e políticos. Mas estas esperanças foram frustradas pela estratégia cada vez mais nacionalista, expansionista e estatista do presidente Xi Jinping.

Segundo analistas como Mikko Huotari, vice-diretor do Instituto Mercator de Estudos sobre a China sediado em Berlim, a chanceler Angela Merkel há muito tem uma visão cética da evolução política da China. Mas foi somente dois anos atrás que o governo compreendeu a maneira de pensar dos seus governantes, e pressionou as instâncias políticas a forjarem uma nova estratégia multifacetada em relação à China.

Esta nova estratégia começa com a premissa de que a China não está apenas expandindo sua economia, mas busca impor uma agenda global que não só promove os seus interesses, como também vai corroendo a ordem multinacional baseada em normas, estabelecida depois da Segunda Guerra Mundial. A Alemanha precisa mostrar-se mais ativa, talvez até mais combativa, na defesa dos próprios interesses.

Mas foi somente nos últimos meses que o governo começou a mudar sua postura pública, adotando um tom mais ousado em suas declarações a respeito de uma “nova grande luta pelo poder”. Em um discurso pronunciado em novembro, o ministro do Exterior, Heiko Maas, afirmou que a Europa tem “tudo a perder” com as crescentes tensões entre Estados Unidos e China e entre Estados Unidos e Rússia.

Em um documento divulgado há poucos dias, inusitadamente corajoso, a Federação das Indústrias Alemãs, uma das associações da classe mais poderosas do país, declarou que o que existe é “uma competição de sistemas” entre China e Alemanha - em outras palavras, que o comércio entre os dois países tornou-se uma batalha de soma zero. Embora a indústria alemã deva continuar “beneficiando-se das oportunidades oferecidas pelo intercâmbio com a China”, afirmou a federação, “os desafios representados por este país não poderão ser ignorados”.

E em dezembro, a liderança política da Alemanha concordou em baixar o limite no qual os investimentos estrangeiros nos setores ligados à segurança - como as fornecedoras de energia, as ferrovias e a infraestrutura digital - acionará a intervenção do governo, um passo que mira claramente a China. Esta política já estava em vigor na prática; no ano passado, o banco estatal alemão KfW adquiriu 20% das ações da 50Hertz, uma distribuidora de energia, a fim de bloquear uma proposta da State Corporation da China.

Os Ministérios das Finanças e da Economia alegaram razões de segurança para justificar a medida inusitada. Mas isto será suficiente? Os responsáveis pelas decisões e os diplomatas evitam falar em uma mudança de paradigma da política da Alemanha em relação à China. “Nós ajustamos cuidadosamente a nossa estratégia”, afirmou Niels Annen, do Ministério do Exterior.

Ao contrário da política externa alemã em relação à Rússia, as relações do país com a China são alvo de um exame público menos vigoroso e ideológico por parte do governo. A Rússia é um tópico que provoca profundas divisões; a maioria dos alemães não se importa com a China. E os diplomatas provavelmente gostam disso.

Por outro lado, as relações transatlânticas estão abaladas desde que Donald Trump assumiu a presidência; a Alemanha repentinamente descobre que concorda mais com a China em certos aspectos, como a mudança climática, do que com os Estados Unidos, seus aliados de longa data.

Os diplomatas alemães precisam optar por um jogo ardiloso: manter a parceria com um adversário ideológico contra seu grande aliado em determinadas questões, embora aderindo às posições deste aliado repentinamente difícil contra os seus mais importantes parceiros comerciais em outros. E em ambos os casos, precisa respeitar o compromisso com a ordem internacional baseada em normas, quando nenhum desses parceiros se mantém no mesmo nível de compromisso, pelo menos por ora.

Resta ver por quanto tempo ainda a Alemanha poderá seguir esta linha permanecendo comprometida com a antiga relação transatlântica. Huotari acredita que, mais cedo ou mais tarde, a Alemanha se defrontará com uma situação difícil. “A China talvez se sinta satisfeita enquanto a Alemanha não tomar partido ao lado dos Estados Unidos”, afirmou. “Mas os Estados Unidos esperam que nos posicionemos claramente. Já nos encontramos no meio do jogo - e a pressão deverá aumentar”.

Aparentemente, a melhor opção para a Alemanha será encontrar a segurança unindo-se aos aliados europeus, principalmente porque parte da estratégia geopolítica da China é dividir a Europa. Há seis anos, ela criou a estrutura 16+1 a fim de atrair 16 países da Europa Central e Oriental, 11 dos quais são membros da União Europeia, com relações mais estreitas a fim de influenciar a política europeia a seu favor.

No entanto, ultimamente, vários destes países decepcionaram-se. Em alguns, a China está tendo problemas para manter suas promessas de investimentos. Outros, como a Polônia, enfrentam a crescente pressão de Washington a relaxar seus vínculos com Pequim. Esta poderá ser uma abertura para a Alemanha, mas terá de funcionar perfeitamente - além disso, unir a Europa Ocidental, Central e Oriental não é fácil. É o eterno dilema da política externa alemã: a Alemanha não pode seguir sozinha, mas a Europa está demasiado dividida e demasiado lenta para avançar.

Anna Sauerbrey é vice-editora do jornal alemão ‘Der Tagesspiegel”.

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