Daniel Rodrigues para The New York Times
Daniel Rodrigues para The New York Times

Alentejo: conhecendo um paraíso intocado em Portugal 

Turismo local se baseia nas belas paisagens, riqueza de recursos naturais e praias paradisíacas

Eric Lipton, The New York Times

04 de setembro de 2019 | 06h00

O açougueiro local, com a filha ao seu lado, vendia frangos assados inteiros e fatias frescas de filé aos fregueses que precisavam apenas entrar na loja e acenar com a cabeça para fazer seu pedido, como é feito há décadas em Melides, vilarejo nas colinas da zona rural de Portugal

A um quarteirão dali, visitantes falando francês entravam na ruela de pequenas butiques recém-abertas vendendo vestidos e biquínis assinados por estilistas, ao lado de onde o designer francês de sapatos Christian Louboutin prepara a abertura do primeiro hotel da cidade. É uma amostra dos dois mundos que se somaram nesta cidade litorânea.

Melides e o restante da costa do Alentejo estão passando por uma transformação enquanto uma onda de europeus super ricos - artistas, banqueiros, atores e astros do esporte - descobre esse lugar maravilhoso, no meio de um trecho de quase 65 quilômetros de praias virgens do Oceano Atlântico, e no limiar de centenas de quilômetros quadrados de sobreiros, vinícolas e arrozais.

A região conta com o último trecho virgem da costa do Atlântico em todo o sul da Europa. “Viajei durante a vida inteira e nunca vi um lugar na Europa tão intocado quanto esse", disse a condessa Noemi Marone Cinzano. Não há nada de chamativo em Melides - os moradores se reúnem no centro da cidade durante horas para jogar cartas ou conversar.

Faz tempo que a região do Alentejo é conhecida como uma das mais pobres da Europa Ocidental, ainda que o seu solo arenoso seja fértil. Uvas, arroz, trigo, centeio, aveia, azeitonas, mel, aspargos, nozes, frutas vermelhas, cogumelos e outros gêneros são cultivados e produzidos na região, conhecida como celeiro de Portugal.

As partes mais interiores do Alentejo - com cidades e vinícolas históricas - já atraem visitantes há algum tempo. Mas a costa do Alentejo é uma adição relativamente nova ao mapa do turismo internacional, atraindo visitantes endinheirados a partir de 2000, quando muitos deles rumaram para um vilarejo litorâneo chamado Comporta, na mesma estrada de Melides.

Melides é uma cidade simples de aproximadamente 1.500 moradores, cerca de quatro restaurantes, uma igreja, e algumas pequenas lojas, além de um supermercado. O centro da cidade de Melides tem uma agência dos correios, um pequeno café, uma funerária e um açougue, além de algumas mesinhas onde os moradores locais se reúnem para passar o tempo.

Há muitas casas disponíveis para aluguel no curto prazo e uma pousada com pequenos e confortáveis bangalôs para alugar perto da praia. Não há hotel. Louboutin confirmou seus planos para mudar isso com um luxuoso hotel perto do centro da cidade. É extremamente complicado obter alvarás de construção na cidade, e por isso as obras não tinham começado em agosto.

As praias não têm igual. A Praia da Galé, a cerca de 15 minutos de Melides, é acessada por uma escadaria no despenhadeiro de arenito e cercada por arenitos avermelhados e esculpidos pela erosão. Essas formações, de aproximadamente cinco milhões de anos atrás, chegam a uma altura de 40 metros. Ao nos aproximarmos da água, vemos apenas uma vasta praia vazia e, ocasionalmente, algum pescador.

Longos trechos desse litoral são permanentemente protegidos como parte de parques nacionais, e em outras áreas há restrições a novas construções perto da praia. Mesmo no interior, aqueles que compram terras produtivas devem concordar em mantê-las produzindo, nem que seja apenas uvas para o vinho.

Há atividades ao ar livre de todo o tipo. As mais simples são a vasta rede de trilhas de pescadores que se estendem por 450 quilômetros pelo interior e ao longo do Atlântico, chamada Rota Vicentina. Os visitantes também podem fazer passeios a cavalo, aprender a surfar, andar de bicicleta, ver golfinhos e pescar, andar de caiaque ou de balão. 

Várias das praias, incluindo uma área chamada Santo André, apresentam piscinas naturais, com águas calmas e rasas, seguras para as crianças. A região de Santo André é também uma área de preservação ambiental; conta com mais de 240 espécies de aves e centenas de tipos de borboletas. O pintor abstrato britânico Jason Martin, que comprou uma antiga casa noturna para usar como estúdio e construiu seu lar na encosta da colina mais próxima, descreveu o que torna o lugar tão especial. 

Primeiro, ele falou dos quatro tons de verde que iluminam a região: oliva, pinheiro, eucalipto e sobreiro. “A paisagem é extraordinária e verdejante, mesmo nos meses de seca", disse Martin. Em comparação com o restante da Europa, Portugal é um lugar relaxado. No Alentejo, esse relaxamento alcança novos patamares, disse Martin.

“Tudo é tão remoto e despretensioso", disse ele. “Não é algo que pareça parte do mundo contemporâneo com o qual estamos acostumados. É como uma saída de emergência. Quando volto para Londres, preciso de equipamento de proteção.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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