September Dawn Bottoms/The New York Times
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Alfaiates conhecem o segredo dos nova-iorquinos na pandemia: 'Todo mundo engordou!'

Isolamento social criou uma demanda por ajustes nas roupas, o que dá um fôlego para o setor em meio à crise

Sarah Maslin Nir, The New York Times - Life/Style

15 de agosto de 2020 | 21h00

NEW YORK - Com os casamentos adiados e os escritórios fechados, os negócios foram desanimadores na Woodside Tailor Shop, no Queens, durante os longos meses de lockdown por conta da pandemia de coronavírus. Não havia necessidade de modificações em vestidos de festa ou qualquer pressa para que as calças recebam bainha.

Mas, cerca de três meses depois, as coisas começaram a melhorar, em junho, com um serviço em particular com uma demanda repentina: as pessoas precisavam de um pouco mais de espaço para caber em suas roupas.

"Todo mundo engordou!" disse Porfirio Arias, 66 anos, alfaiate da Woodside. "Não é apenas em Nova York. As pessoas engordaram em todo o mundo. "

Em uma cidade com academias fechadas e com Netflix e o sofá como entretenimento noturno mais seguro, o fenômeno do ganho de peso em casa - chamado de "quarentena 15" por alguns (em referência às 15 libras, aproximadamente 7 quilos, adquiridas durante a quarentena) - trouxe uma alegria inesperada para os alfaiates. Alguns disseram que viram os negócios subirem até 80%, com os clientes pedindo que os botões fossem movidos, os cóses alargados e as jaquetas ganhassem mais espaço.

"Se algumas pessoas se sentem desconfortáveis, elas se exercitam e não ligam", disse Michael Shimunoff, do La Moda Custom Tailors, no Queens. "Algumas pessoas simplesmente deixam as calças mais frouxas."

O crescimento nos negócios tem sido bem-vindo para muitos alfaiates, que costumam operar em fachadas compartilhadas com lavanderias, que sofreram muito durante a pandemia. As empresas de limpeza a seco no pico da pandemia perderam cerca de 80% a 90% nas vendas em comparação com os anos anteriores, e ainda agora estão registrando perdas de cerca de 40% a 50%, de acordo com dados coletados pela North East Fabricare Association.

Os alfaiates menores, especializados em modificações, sofreram mais do que fabricantes de roupas customizadas, cujos clientes adiaram o recebimento de vestidos de noiva e smokings, mas, no geral, não cancelaram seus pedidos, disse Alan Rouleau, presidente da Custom Tailors and Designers Association.

"Você não pode costurar sem estar cara a cara com alguém", disse Rouleau. "Estamos em um negócio em que é necessário manter contato direto com o cliente."

Muitos alfaiates temem que o setor não se recupere, mesmo que mais pessoas voltem ao trabalho, se a cultura tradicional do local de trabalho mudar para o novo ethos do home office - isso significa mais calças de moletom e menos roupas sob medida que precisam ser limpas, passadas ou modificadas.

É claro que nem todos os nova-iorquinos foram capazes de trabalhar de casa, e a capacidade de se isolar caiu amplamente em linhas socioeconômicas: ganhar quilos na pandemia é uma pequena desvantagem no meio de algo que é considerado um tremendo privilégio.

Em Woodside, toda a família de Arias - sua esposa, dois filhos, filha, cunhado e sogra - tiveram que alargar suas calças este mês. Ou melhor, eles deram suas roupas para Arias levar à sua loja, para que ele pudesse fazer as alterações necessárias.

Ele disse que os nova-iorquinos não devem se sentir mal por precisarem de mais alguns centímetros de espaço. "Eles não podem sair, não têm espaço para fazer exercícios e, portanto, não têm escolha", disse o alfaiate.

Arias pode falar com propriedade a respeito da situação: ele disse que precisou passar agulha e linha nas próprias calças. "Eu também engordei!"

Na T&J Crystal Cleaners em Long Island City, Queens, David Choi disse que está tentando dissuadir os clientes que pedem para ele afrouxar suas roupas porque ganharam peso durante o lockdown. Às vezes, o processo distorce o ajuste original da roupa, e isso faz com que ela não tenha um bom caimento, ele disse, e teme que seus clientes não fiquem felizes com o resultado.

Em vez disso, ele pede aos clientes que esperem, lembrando-lhes que pandemias - e quilos a mais - também devem passar.

"Eu não digo 'vá fazer ginástica'", disse Choi. "Não posso dizer isso, mas não estou feliz em ganhar dinheiro com esse tipo de trabalho." Então ele disse que tentou adular os clientes, dizendo a eles que os quilos a mais acrescentavam algo além de puro peso. "Algumas mulheres ainda parecem sexy!", ele disse.

Nicolas Jacquet, especialista em roupas personalizadas do Brooklyn Tailors, que fabrica roupas masculinas, disse que recentemente ajustou alguns cóses nas roupas personalizadas de noivos cujas medidas foram tomadas antes do início da pandemia. Ele recomenda tecidos com strech para lidar com o ganho de peso dos clientes, como lã ou misturas com elastano.

"Vamos adaptar os trajes para que o cliente se sinta bem consigo mesmo", disse Jacquet, acrescentando que, com os casamentos de seus clientes adiados ou dramaticamente reduzidos, poucos se concentram em seu peso. "Eles têm muito mais problemas em que pensar", disse ele.

Na Alteration Concept, uma alfaiataria de porão em West Village, em Manhattan, estava ocorrendo um debate entre Chung Moon, o proprietário, e uma mulher que queria ter o cós de seus jeans aumentado.

Moon sugeriu gentilmente que a mulher talvez não gostasse dos extensores que ele teria que adicionar ao jeans.

"Massa está me fazendo sentir bem agora", disse ela. "Não vou parar de comer pão; preciso me sentir bem agora. A cliente, como sempre, estava certa: Moon acabou alargando três pares de calças.

Em outros lugares de sua loja, cinco pares de calças da marca Theory e um blazer aguardavam pelo mesmo ajuste. Moon, 49 anos, disse ter suas dúvidas se o ganho de peso durante o período de isolamento era a única razão para as alterações.

"As calças estavam apertadas antes, mas estávamos muito ocupados, mesmo que as calças estivessem um pouco apertadas ou pouco confortáveis, realmente não sentíamos isso", disse ele. "Neste momento, você tem muito tempo e pensa demais." / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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