Adriana Zehbrauskas para The New York Times
Adriana Zehbrauskas para The New York Times

Alfonso Cuarón revela detalhes de 'Roma'

O diretor revisita a paisagem e os sons da Cidade do México, inspiração para seu aclamado novo filme

Kirk Semple, The New York Times

10 Janeiro 2019 | 06h00

CIDADE DO MÉXICO - Há um personagem no filme Roma que aparece na tela apenas por um instante. Entretanto, deixa uma impressão profunda. É um vendedor de batata doce. O que ouvimos dele é somente o seu chamado característico: um apito como de trem que sobe até o tom mais alto, e depois vai diminuindo até desaparecer como uma espécie de morte lamentosa.

“É extremamente melancólico”, disse Alfonso Cuarón, autor do roteiro e diretor do filme. “Há uma sensação de solidão nesse apito”. Cuarón, 57, e eu estávamos presos em um engarrafamento de trânsito na Cidade do México. Ele viera promover o filme - candidato ao Oscar - e me mostrava o bairro onde passara sua infância, Roma.

No filme, o vendedor de batata doce não está sozinho: há também um catador de lixo que toca uma sineta e o amolador de facas que sopra uma flauta peruana. Os seus chamados fazem parte da tumultuosa atmosfera sonora da cidade do México, tão familiar hoje para os moradores da cidade quanto nos anos 1970, quando se desenrola a ação de Roma.

O filme se baseia em acontecimentos da vida de Cuarón. Roma fala de uma empregada e dos seus patrões, uma família mexicana de classe média que está se desfazendo. Mas o filme fala também da Cidade do México em um momento de sua história. Embora grande parte do filme se passe em interiores, o coro das ruas sempre acaba penetrando, como para nos lembrar de que a cidade é um personagem por direito pleno. “Esta foi a intenção”, disse Cuarón. O filme, acrescentou, expõe tanto o contexto social mais amplo quanto a família que está no centro deste contexto.

“É um bairro lindo. Olhe só a arquitetura”, disse quando voltamos para Roma, Cuarón, apontando para os edifícios com toques de Art Nouveau e Art Deco. O bairro foi construído no início do século passado para a elite da capital, com grandes palacetes de frente para avenidas arborizadas, e praças lembravam os elegantes espaços verdes da Europa. Em meados do século 20, muitos moradores deixaram o centro e foram substituídos pela classe média, explicou Enrique Krauze, um historiador mexicano. 

“Em 1970 e 1971, os anos recriados por Cuarón em Roma, o bairro foi um laboratório da coexistência real, não idealizada, com suas escolas de prestígio e seus cabarés e bordéis, afirmou em um recente artigo sobre o filme. Roma foi duramente atingido pelo terremoto devastador de 1985, o que acelerou a sua desintegração. Mas na década passada, o bairro recuperou o seu brilho.

Estacionamos e começamos a caminhar pela calçada. Cuarón parou no cruzamento da Avenida Insurgentes com Baja California. Uma réplica do cruzamento como era no início dos anos 1970 aparece no filme quando o personagem principal, a governanta, Cleo, corre atrás das crianças. Mas a interseção é mais calma e mais ordenada na tela. Cuarón contou: “Quando nós chegamos aqui, era o sonho do cosmopolitismo e da modernidade, que o México começava a viver naquele período”.

Mas agora, havia o tumulto urbano. Passamos por anúncios de Roma colados em uma parada de ônibus. Em uma banca de jornais, Cuarón viu uma foto de Yaitza Aparicio, que é Cleo no filme, na capa de uma revista. As suas imagens provocaram debates sobre a má representação dos mexicanos indígenas na cultura popular, e o racismo e a discriminação de classes profundamente arraigados no México.

Cuarón cresceu a poucos quarteirões dali, na Rua Tepeji. Ele lamentou as mudanças que os proprietários  dos imóveis fizeram, escondendo detalhes que emprestavam todo o charme à arquitetura dos edifícios.

Cuarón e a sua equipe fizeram um trabalho meticuloso na recriação das situações e dos ambientes.

Eles deram uma enorme atenção principalmente à reconstituição da casa da infância de Cuarón. Adaptaram a fachada de uma casa do outro lado da rua para as cenas externas e uma segunda locação para as tomadas no topo do prédio. Para o pátio e as cenas de interior, reformaram outra casa, contratando inclusive um artesão para reproduzir os azulejos originais. Perguntei a Cuarón por que motivo mostrou um cuidado tão obsessivo com os detalhes de sua casa, quando poucas pessoas teriam condições de notar a diferença. Ele  respondeu simplesmente: “É que eu sei como era”.

Uma mulher varria a rua e a calçada em frente à casa perto daquela onde ele passou a infância.  Ela pegou um balde de água e começou a jogá-la sobre a calçada e na fachada da casa. “Esse som!” exclamou Cuarón, com os olhos brilhando. O filme começa com Cleo limpando a calçada da família usando água e uma vassoura, e parecia apreciar essa interseção da vida imitando a arte que imitava a vida. Apesar de tudo estar mudado, algumas coisas continuavam como ele as recordava.

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