Frances Andrijich para The New York Times
Frances Andrijich para The New York Times

Aliada histórica dos EUA, Austrália estreita relações com a China

Em meio à guerra comercial entre americanos e chineses, a geografia econômica está se mostrando mais significativa do que velhas alianças

Neil Irwin, The New York Times

24 de maio de 2019 | 06h00

SYDNEY, AUSTRÁLIA - Para compreender por que o governo Trump teve dificuldade para construir uma coalizão de aliados em sua guerra comercial com a China, é importante entender o que está ocorrendo nas colinas e vales do litoral da Austrália.

Vinícolas que antes produziam saborosos vinhos brancos e vinhos tintos frutados populares entre os consumidores americanos agora estão produzindo os tintos mais austeros preferidos pelos consumidores chineses. Desde 2008, a exportação de vinhos da Austrália para os Estados Unidos teve queda de 37%; as exportações para a China aumentaram 959%.

Em todo o mundo, antigos aliados estão fazendo planos para um mundo no qual os EUA não serão mais o centro econômico. Apesar de todas as frustrações envolvidas nos negócios com a China, incluindo a falta de transparência do governo e as alegações de roubo de propriedade intelectual, a própria lógica da geografia econômica está se revelando mais significativa do que as alianças históricas.

A tensão é evidente em muitos países com profundos laços econômicos com os EUA, incluindo Coreia do Sul, Japão e Alemanha. Mas esse poder de atração pode ser visto de maneira mais viva na Austrália, há muito uma das aliadas mais próximas dos americanos, que agora se vê atraída na direção oposta pela China, o maior mercado para suas exportações.

Enquanto país de porte médio, a Austrália está essencialmente tentando encontrar seu rumo na economia mundial ao tentar manter boas relações com as duas superpotências. Confia nos EUA como aliado nas questões de segurança nacional, mas sabe também que seu futuro econômico (e também o presente) estão ligados à China. Austrália e China têm um acordo comercial desde 2015.

A imensa população da China e o rápido crescimento do país vão atrair cada vez mais países para sua órbita econômica. Mas essa atração também reflete medidas recentes tomadas pelos EUA para enfraquecer instituições que os próprios americanos ajudaram a criar para orientar o sistema econômico global.

O governo Trump aplicou tarifas ao aço e alumínio de aliados próximos; desistiu do acordo de Parceria Transpacífico, voltada para a criação de um bloco comercial capaz de equilibrar a influência chinesa; e adotou medidas para enfraquecer a Organização Mundial do Comércio, vista por muitos países menores como órgão essencial para garantir seu justo quinhão do comércio mundial. O atual governo australiano, chefiado pelo primeiro-ministro Scott Morrison, buscou manter laços de proximidade simultaneamente com EUA e China.

Ainda assim, as exportações de maior peso para a economia da Austrália são commodities, incluindo minério de ferro, carvão e gás natural, que ajudaram a fornecer a matéria-prima para o boom econômico da China. Há também nas universidades australianas cerca de 165 mil estudantes nascidos na China, uma importantíssima fonte de receita. Compradores da China ajudaram a abastecer o mercado imobiliário; as restrições mais rigorosas à liberdade dos chineses de transferir dinheiro para o exterior foram um fator no declínio desse setor.

Nos últimos dez anos, a China se tornou o maior mercado para a exportação do vinho australiano. O crescimento da classe média chinesa foi astronômico. Um acordo comercial estabelecido em 2015 entre os dois países reduziu as tarifas. E uma extensiva campanha de marketing ajudou a garantir a preferência de muitos consumidores chineses pelos rótulos australianos.

A combinação de geografia e demografia tornou inevitável uma guinada australiana para a órbita econômica chinesa depois que a China começou a abrir sua economia nos anos 1980. A diferença é que o risco de um sistema comercial mundial dividido criou nova urgência para a tentativa de manter os canais abertos de ambos os lados.

"Não há necessidade de um alinhamento claro e direto das empresas australianas ou do governo do país com os interesses mutuamente excludentes de China ou EUA", disse Adrian Perkins, sócio do escritório de advocacia King & Wood Mallesons, produto de uma fusão entre escritórios chineses e australianos. "O mais sensato é manter todas as opções em aberto". / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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