The New York Times
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A busca por vida alienígena dará uma pausa (por enquanto)

O software seti@home, lançado em 1999, processava os dados enquanto os computadores dos usuários estavam ociosos

Dennis Overbye, The New York Times

31 de março de 2020 | 06h00

Uma das grandes fantasias de ficção científica de todos os tempos – a descoberta de seres alienígenas nos testando do espaço exterior no nosso computador – está tirando uma folga. Nos últimos 21 anos, as pessoas comuns puderam participar da busca de inteligência extraterrestre – SETI – graças a um software chamado seti@home. Uma vez instalado, o programa baixaria periodicamente dados da Universidade da Califórnia, Berkeley, os processaria enquanto o computador estivesse ocioso, e depois os mandaria de volta.

No dia 2 de março, os chefões da iniciativa seti@home, os combatidos astrônomos do programa em Berkeley, anunciaram que estavam dando um tempo. Nesta terça, 31, o programa para de enviar dados e entra em “hibernação”. A equipe, explicaram, precisa de tempo para digerir as décadas de descobertas. Lançado em maio de 1999, o programa foi uma das primeiras e mais populares iniciativas a fazer o 'crowdsourcing' de cálculos extremamente complexos.

A curiosidade unia os participantes. A busca de inteligência extraterrestre tornou-se uma das realizações mais repletas de grandes expectativas desde 1960, quando Frank Drake, hoje professor aposentado da Universidade da Califórnia, em Santa Cruz, apontou um radiotelescópio para duas estrelas próximas na esperança de captar uma transmissão interestelar. Ele acreditou ter ouvido algo, e depois mais nada, e esta tem constituído a história da busca desde então: bilhões de estrelas, trilhões de frequências, o silêncio cósmico.

A lógica desta façanha é que seres sensíveis em alguma parte da galáxia, que tivessem alcançado determinado nível de sofisticação tecnológica, se dariam conta de que as distâncias entre as estrelas são fisicamente instransponíveis e optariam por se comunicar pelas ondas do rádio. Mas participar desta conversação cósmica, se é que existe alguma, exigiria que os seres humanos soubessem para qual dos 100 bilhões de estrelas teriam de apontar os seus receptores, e que frequência sintonizar. Uma hipótese otimista.

Inicialmente, participaram do programa quase dois milhões de computadores, mas, desde então, caíram para 100 mil. Como a equipe do seti@home explicou em uma recente videoconferência, depois de 21 anos, ainda não se sabe se o software gravou algum sinal alienígena.

“Os nossos recursos foram reduzidos”, disse Eric Korpela, o atual diretor do programa seti@home. Alguns anos depois do início do programa, a equipe foi para o radiotelescópio de Arecibo com uma lista de sinais promissores que valiam a pena verificar, mas não teve utilidade. Agora, há 29 bilhões de eventos esperando outra verificação.

No meio tempo, a equipe, que nunca foi grande, encolheu e ficou apenas com Korpela; Dan Werthimer, que ocupa a Cátedra Watson e Mary Alberts SETI da Universidade da Califórnia, em Berkeley; David Anderson, o diretor fundador do projeto, e Jeff Cobb, que desenvolveu grande parte do seu software. Eles informaram que andaram muito ocupados mantendo os servidores do computador funcionando para analisar realmente todos os dados. Se não fizerem uma pausa, e agora mesmo, nunca mais a farão.

“Estamos ficando mais velhos”, disse Korpela, e Werthimer acrescentou: “Não publicamos nada. Os nossos colegas nos informam a respeito disto todas as vezes que os encontramos nas conferências científicas. “Vamos continuar trabalhando nos resultados. Um deles poderá ser o de um E.T. Nós não sabemos.” / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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