Justin Butner/The New York Times
Justin Butner/The New York Times

Você sabe o que é entomofagia? Grilos podem ser o seu jantar

Substituir fontes tradicionais de proteína por insetos pode viabilizar um futuro sustentável, de acordo com relatório da ONU

Joanna Klein, The New York Times

22 de novembro de 2019 | 06h00

A palavra entomofagia é derivada do grego e do latim: “entomon” significa "inseto", e “phagus”, "alimentar-se de". Para alguns, esse é o futuro da alimentação. Em 2013, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura divulgou um relatório declarando a necessidade de substituir as fontes tradicionais de proteína por insetos para viabilizar um futuro sustentável. O relatório ajudou a impulsionar uma explosão nas iniciativas que buscam fazer das larvas-da-farinha nossa próxima refeição.

Quando Cristóvão Colombo voltou das Américas, ele e outros integrantes da sua expedição usaram o hábito dos nativos de consumir insetos como exemplo de sua selvageria, justificando a desumanização das pessoas que ele posteriormente escravizaria, explicou a antropóloga Julie Lesnik, da Universidade Wayne State, em Michigan, e autora de Edible Insects and Human Evolution [Insetos Comestíveis e Evolução Humana].

A era colonial aprofundou a estigmatização da entomofagia na Europa e, por sua vez, entre os colonos europeus nas Américas. A resistência só aumentou com a ameaça que certos insetos representavam para monoculturas agrícolas sustentadas pela escravidão e pela industrialização.

As coisas nem sempre foram assim. Aristóteles adorava cigarras. Plínio, o Velho, preferia larvas de besouro. Evidências do consumo de insetos em relatos escritos, fezes fossilizadas e múmias encontradas nas cavernas de toda a América do Norte - e a corroboração de quase todos os demais continentes - indicam que humanos valorizam os insetos enquanto fonte de nutrição há milênios.

Hoje, bilhões de pessoas ainda consomem mais de 2.100 espécies de insetos em todo o mundo. Nos Estados Unidos, o povo Kutzadika’a  (“comedores de moscas”) saboreia as salgadas pupas do Lago Mono, na Califórnia. Muitos de nós foram programados desde a infância para temer os insetos, e desenvolver um apetite por eles não será fácil. “Tudo bem achar isso nojento. Não há problema em se sentir assim", afirmou Lesnik. “Ninguém pediu para receber essa programação.”

Mas os defensores da entomofagia acreditam que a reprogramação pode transformar a atitude das pessoas em relação aos insetos. Couve, sushi, lagosta e até azeite e tomates já foram considerados repulsivos em algumas culturas. Com a educação e o reconhecimento dos sentimentos negativos em relação ao consumo de insetos, os adultos podem resistir ao instinto de ensinar esses preconceitos aos filhos. “Será melhor para as crianças se não ensinarmos elas a pensar que os insetos são nojentos", continuou Lesnik. “Afinal, é a geração dos nossos filhos que terá de resolver esses problemas.”

Nos Estados Unidos, faz tempo que as moscas soldado negras, capazes de converter lixo em proteína, são usadas como ração de aves e peixes criados em cativeiro.

Para compreender melhor como produzir mais delas, os pesquisadores caracterizaram seu sistema reprodutivo e descobriram que as larvas criadas em densidades relativamente baixas apresentam maior probabilidade de sobreviver, ficando mais pesadas a cada estágio da vida e desenvolvendo-se mais rapidamente.

Esse tipo de pesquisa pode ser um modelo para a eventual produção em massa de outros insetos destinados ao consumo humano, como grilos e larvas-da-farinha. Mas ainda estamos longe de produzi-los em volumes capazes de alimentar as massas. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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