Ko Sasaki para The New York Times
Ko Sasaki para The New York Times

Almoço antes da hora? Uma vergonha no Japão

Um trabalhador saía três minutos antes de seu intervalo para buscar comida. Agora, ele será multado. 

Yonette Joseph e Makiko Inoue, The New York Times

30 Junho 2018 | 10h30

Por não ter levado sua comida para o trabalho, um funcionário japonês que habitualmente deixava a sua mesa de trabalho três minutos antes do horário oficial do almoço, teve um desconto de meio dia de trabalho na folha de pagamento.

A transgressão fez com que quatro funcionários de nível superior do Departamento de Águas da prefeitura de Kobe convocassem uma coletiva à imprensa para apresentar um pedido de desculpas público pela conduta do trabalhador.

O empregado de 64 anos, não identificado, foi repreendido e multado em milhares de ienes depois que uma investigação descobriu que ele saiu do escritório para buscar uma refeição antes da pausa geral para o almoço em 26 ocasiões ao longo de um período de sete meses, informou um dos chefes.

O caso chamou a atenção de usuários de mídias sociais neste país conhecido por seus esforços para preservar um equilíbrio saudável entre vida pessoal e profissional.

A cultura do trabalho no Japão pode ser brutalmente punitiva, a ponto de provocar casos como o de Miwa Sado, jovem jornalista de uma emissora estatal que morreu de insuficiência cardíaca congestiva depois de fazer 159 horas extras em um só mês. Ela tinha 31 anos.

Aqui, os trabalhadores consideram cochilar em público - ou no escritório - uma atitude honrada, por expressar diligência e empenho. Ou seja, por demonstrar que dão o sangue para o trabalho.

O caso do funcionário da Companhia de Águas põe em causa os esforços do país para tentar solucionar o problema do aumento de óbitos por excesso de trabalho. Em um relatório do governo de 2016, cerca de 25% das companhias pesquisadas informaram que alguns empregados faziam mais de 80 horas extras por mês.

Em maio, a Câmara Baixa do Parlamento elaborou um projeto de lei que melhora as condições de trabalho, estabelecendo salários iguais para funções iguais e proibindo o tratamento injusto para os trabalhadores não registrados. A medida estabelece ainda um limite máximo de horas extras de trabalho, com penalidades para as violações: o número de horas extras no ano será limitado a 720, com um teto mensal inferior a 100 horas.

Mas segundo os críticos, algumas das cláusulas agravariam o problema de uma excessiva jornada de trabalho: o projeto de lei isentaria trabalhadores altamente qualificados e altamente remunerados, já que seus salários seriam baseados em resultados, não em horas trabalhadas.

Gen Oka, encarregado de recursos humanos no Departamento de Águas da cidade de Kobe, disse que o funcionário explicou aos supervisores que ia a um restaurante vizinho para comprar o almoço porque precisava de uma “mudança de ritmo”.

Só foi descoberto quando um colega mais antigo olhou pela janela do escritório e o viu andando na rua para buscar a comida. Os gerentes calcularam o tempo que ele gastou longe da sua mesa e o puniram com uma multa de “milhares de ienes”, contou Oka, e acrescentou que ele se desculpou: “Nunca mais vou fazer isto”.

O chefe admitiu que desde que o departamento fez o anúncio, no dia 15 de junho, tem havido reações negativas. Por outro lado, também recebeu apoio de funcionários que afirmaram: “Não deveríamos contratar uma pessoa que deixa a mesa de trabalho durante o expediente”.

E defendeu a decisão do departamento: “A dedicação ao trabalho é nossa obrigação como funcionários públicos”.

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