Max Whittaker para The New York Times
Max Whittaker para The New York Times

Alta concentração de terra nos Estados Unidos gera debate interno

Hoje, 100 famílias possuem cerca de 17 milhões de hectares do país; domínio territorial na mão de poucos é maior no Oeste

Julie Turkewitz, The New York Times

08 de agosto de 2019 | 06h00

IDAHO CITY, IDAHO - Quando crianças, os irmãos Wilks viviam em um casebre, nunca concluíram o segundo grau, e criaram do zero uma empresa multibilionária de perfuração de gás. Por isso, quando Dan e Farris compraram uma vasta extensão de terra pontilhada de montanhas no sudoeste de Idaho, não foi apenas um investimento, mas uma demonstração de sua imensa sorte.

“Graças ao trabalho árduo e à determinação - eles não tiveram muitos privilégios - alcançaram o sucesso”, disse o filho de Dan Wilks, Justin. A aquisição também elevou os Wilks ao topo da lista dos ricos donos de terras que estão comprando grande parte dos Estados Unidos. 

Nos últimos dez anos, a propriedade privada das terras no país vem se concentrando nas mãos de uns poucos. Hoje, 100 famílias possuem cerca de 17 milhões de hectares do país. Grande parte desta terra vai das Montanhas Rochosas até o Texas, onde as florestas comerciais e as fazendas são um investimento atraente.

As batalhas pela terra definem o Oeste desde os anos 1800, quando o governo distribuiu gratuitamente a propriedade a fim de encorajar a expansão. Durante anos, as lutas se desenrolaram entre indivíduos e o governo, que possui mais da metade da região. Mas agora, como compradores cada vez mais ricos adquirem trechos maiores ainda, a linha de frente da batalha mudou. Muitos moradores consideram estes novos donos uma ameaça a um modo de viver particularmente desejado por seu fácil acesso à vida ao ar livre.

Os Wilks, que agora são donos de cerca de 280 mil hectares em vários estados, tornaram-se o símbolo dos proprietários distantes. Em Idaho, à medida que foram expandindo as suas propriedades, os irmãos fecharam trilhas e contrataram guardas armados para patrulhar suas terras. Com isto, atraíram a ira dos cidadãos comuns que há gerações costumavam fazer caminhadas e caçar naquelas montanhas.

Alguns dos novos proprietários são bem-vistos. O magnata da TV a cabo John Malone foi elogiado pela Nature Conservancy pelo trabalho de conservação de sua família, e outros compradores limparam trilhas e restauraram trechos de terras primitivas. Além disso, a região registra o boom populacional mais acelerado do país, o que eleva os preços das habitações e o custo de vida, fazendo com que muitos moradores temam perder sua cultura e a sua estabilidade econômica.

Em Idaho, Rocky Barker, um colunista aposentado do jornal The Idaho Statesman, definiu o conflito um “choque entre dois sonhos americanos”: de um lado, o respeito da nação pelos direitos da propriedade privada, do outro, o conceito de territórios ricos em belezas que pertencem a todos. Este choque, afirmou, faz parte de uma mudança mais ampla, da cultura da classe trabalhadora para a cultura do dinheiro.

Tim Horting é uma das pessoas envolvidas no debate. Horting, 58, vendedor de equipamentos pesados, cresceu caminhando pelos bosques ao norte de Boise, uma floresta com muitas estradas de terra com a visão dos celebrados picos do estado. Em 2006, ele construiu uma cabana nestes bosques, ao lado da Boise Ridge Road, que levava para uma área de recreação muito frequentada. Horting queria que os seus netos crescessem apreciando a vida rural.

“Este é o motivo pelo qual me mudei para cá”, afirmou. Então, em 2016, os Wilks adquiriram 70 mil hectares no limite da casa de Horting. Logo, a estrada foi fechada por um portão, em uma árvore e foi pregada uma placa: “Atenção: Propriedade Privada. Proibida a entrada”.

O problema, disse Horting, “não é o fato de eles serem os donos da terra. É terem fechado as estradas públicas”. “É uma forma de intimidação”, acrescentou. Nos últimos anos, os antigos investidores em madeira e combustível fóssil tornaram-se um novo tipo de compradores na região.

Segundo os corretores, os recém-chegados são movidos em parte pelo desejo de investir em ativos naturais enquanto ainda são abundantes, particularmente porque temem a instabilidade econômica, política e do clima. As pessoas se dão conta de que “os recursos estão se tornando cada vez mais escassos”, disse Bernard Uechtritz, um assessor imobiliário.

As aquisições ocorrem durante um boom populacional que exacerbou as preocupações locais pela perda de espaço e de cultura. No ano passado, Idaho e Nevada foram os estados de maior crescimento do país, seguidos de perto por Utah, Arizona e Colorado. Em 2018, chegaram a Idaho mais de 20 mil californianos; logo, os preços das casas ao redor de Boise registraram um salto de 17%.

Justin Wilks disse que a sua família cercou a terra para protegê-la, porque, durante anos, as pessoas acamparam e andaram de snowmobile estragando grande parte da paisagem. Os promotores do condado investigaram o fechamento das estradas e analisaram os litígios, e em uma série de propostas de paz, os irmãos restauraram alguns acessos, inclusive a abertura do portão na Boise Ridge Road, e retiraram os avisos de “Proibida a entrada”.

“Queremos ser bons vizinhos”, disse Wilks. “Conheço pessoas que acham que não nos comportamos como bons vizinhos porque não deixamos que eles andem livremente pelas nossas propriedades como estavam acostumados. Mas também pergunto: Será que vocês gostariam que eu acampasse no seu jardim?” / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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