Lam Yik Fei / The New York Times
Lam Yik Fei / The New York Times

Alta no preço dos alimentos gera descontentamento na China

Com a desaceleração da economia e a guerra comercial deflagrada pelo presidente Donald J. Trump, Pequim agora precisa preocupar-se com a inflação no custo 

Alexandra Stevenson e Keith Bradsher, The New York Times

18 de junho de 2019 | 06h00

PEQUIM - A atividade normalmente é intensa no entreposto de hortifrutigranjeiros Xinfandi em Pequim, onde lojas, restaurantes e consumidores adquirem frutas e verduras no atacado. Mas recentemente, era possível ver mais vendedores de maçãs cochilando do que vendendo. O preço das maçãs praticamente dobrou para mais de US$ 2 o quilograma, e as pessoas gastavam o seu dinheiro em outros lugares. Trabalhadores migrantes em geral podiam comprar maçãs, disse Li Tao, vendedor de maçãs.  “Agora, são muito caras”.

Já às voltas com uma desaceleração da economia e com a guerra comercial deflagrada pelo presidente Donald J. Trump, Pequim agora precisa preocupar-se com o aumento dos preços dos alimentos. Aparentemente, a China não tem o problema do aumento da inflação. Mas a elevação do custo dos alimentos tornou-se o assunto principal no país. 

As autoridades procuram tranquilizar a população afirmando que o fornecimento de alimentos é abundante, embora estejam tomando medidas para a estabilização dos preços. George Magnus, pesquisador associado do Centro de estudos sobre a China da Universidade Oxford, disse que a elevação dos preços de produtos como carne suína, frutas e verduras pode afetar os gastos dos consumidores - um problema em potencial para a economia chinesa.

Várias forças contribuem para o aumento dos preços. Mais de um milhão de suínos foram abatidos na tentativa de deter o alastrar-se da febre suína, mas aparentemente sem sucesso. Em relação às frutas e verduras, as autoridades chinesas alegam que as temperaturas têm sido prejudiciais, e afirmam que os aumentos serão temporários.

Os especialistas também observam o aumento de uma praga chamada lagarta militar, uma espécie de gafanhoto que come as plantações de  arroz, sorgo e milho. Mais de 900 quilômetros quadrados  de culturas foram devastados, segundo a imprensa oficial.

Os preços dos alimentos sobem em um momento crítico. O presidente Xi Jinping alertou que o futuro será difícil com o aumento das tensões com os Estados Unidos. Os dados divulgados no dia 31 de maio sugerem que a incipiente melhoria econômica começa a desaparecer e que a China poderá voltar a cair na desaceleração da economia.

O governo teme há muito a ameaça da inflação, que influiu nos enormes protestos  realizados na Praça Tienanmen, há 30 anos. A inflação acelerada nos anos 90 ameaçou fazer fracassar as tentativas de abertura da economia chinesa. Por enquanto, a subida dos preços parece limitada aos alimentos. A elevação dos aluguéis baixou para um aumento percentual de apenas um dígito este ano. Os aumentos salariais também diminuíram, e o desemprego está aumentando. Nas fábricas, os preços das matérias primas e de outros bens parecem regulares.

Entretanto, os preços dos alimentos concentram as atenções das famílias e dos líderes chineses. O preço da carne suína registrou um salto de 14% em abril em comparação ao mesmo período do ano passado, enquanto os preços dos alimentos aos consumidores subiram 6,1%, segundo as estatísticas oficiais. Em maio, o preço médio de sete tipos de frutas registrou a maior alta em quase cinco anos de US$ 1,10 o quilograma.

Os preços começam a afetar outros produtos alimentícios. O aumento da carne suína levou alguns restaurantes e famílias a consumir em seu lugar frango, carne bovina ou cordeiro, contribuindo para elevar o preço também destas. Comerciantes e frigoríficos que adquirem quantidades extras para vender a preços mais altos também afetaram a “cadeia gelada” do país, a rede de caminhões refrigerados e de temperatura controlada que transportam a carne das fazendas às mesas.

Não está claro se o aumento dos preços se atingirá com um efeito cascata outros setores da economia. A percepção da inflação poderá levar os trabalhadores das estatais a reivindicar salários maiores, segundo Harry Broadman, diretor de práticas dos mercados emergentes do Berkeley Research Group, uma empresa de consultoria global na Califórnia. “Não se trata de um problema estritamente econômico”, definiu Broadman. “É um problema de economia política”.

Na internet, o descontentamento cresce. Uma pesquisa realizada na maior plataforma da mídia social da China pela Phoenyx Finance pediu que as pessoas escolhessem uma explicação para o repentino aumento do preço das frutas. As escolhas não incluíam o aumento da inflação em geral, por isso, as pessoas a acrescentaram nos seus comentários. “Estas quatro opções só tentam amenizar a situação”, escreveu uma pessoa. “Trata-se obviamente de inflação”.

Outras concentraram-se nas novas diretrizes da associação de nutrição do governo da China, que afirmou que os indivíduos deveriam comer diariamente pelo menos 500 gramas de verduras e 250 gramas de fruta.“Eu não tenho condições de comer agora”, disse um comentário. “A fruta é vendida a preço de ouro”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

 

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