Hannah Reyes Morales para The New York Times
Hannah Reyes Morales para The New York Times

Alta no preço dos alimentos reduz aprovação de Duterte nas Filipinas

Para moradores de Manila, até mesmo a carne se tornou inacessível

Aurora Almendral, The New York Times

19 Outubro 2018 | 06h00

MANILA - O presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte, sempre pôde contar com o poder de seu carisma entre a população mais pobre do país. Mas uma alta no preço de gêneros básicos começa a afastar sua base de apoio.

Durante sua presidência, Duterte entrou em confronto com instituições importantes como a Igreja Católica, fez piadas com estupro e comandou uma brutal guerra contra as drogas que deixou milhares de mortos. Mas, agora, ele enfrenta a insatisfação num setor de afeta particularmente a população urbana pobre: o preço dos alimentos. A inflação no país chegou ao ponto mais alto em nove anos - 6,7% - depois de nove meses seguidos de alta, disse recentemente a Agência Estatística Filipina..

A situação é tão ruim que Duterte ordenou a restrição à importação de arroz, encerrando décadas de políticas protecionistas comandadas pela Agência Nacional de Alimentos.

Ao longo do ano passado, o preço dos legumes aumentou quase 20%; do peixe, 12%; e da carne, 7%. Ainda que o preço global do arroz esteja estável, o preço nas Filipinas tem sido equivalente ao dobro do valor de importação.

"Quinhentos pesos mais parecem um peso agora", disse Lilian Gomez, 52 anos, para quem ficou fácil estourar o limite das compras no mercado Agora, em Manila. "Todos os preços aumentaram depois que Duterte se tornou presidente". Ela disse que não comprava carne fresca ou peixe há dois meses. Para fazer render o arroz que compra para a família, ela o transforma em mingau.

Duterte começou a indicar que haveria corrupção entre os negociantes de arroz. Descreveu-os como cartéis, açambarcadores e contrabandistas, ordenando que "parassem de prejudicar o povo".

"Considerem-se avisados, ou todo o poder do estado será usado contra vocês", disse Duterte.

O secretário da agricultura, Emmanuel Pinol, fez valer as ameaças de Duterte com operações de destaque contra armazéns de arroz, anunciando uma recompensa de 250 mil pesos (cerca de US$ 4.600) por informações levando à prisão de açambarcadores de arroz.

A responsabilidade começou a ser cada vez mais distribuída, com Duterte sugerindo que a guerra comercial do presidente americano Donald J. Trump contra a China seria parte do problema. No mês passado, a chegada do tufão Mangkhut destruiu cerca de 250 mil toneladas de arroz, de acordo com o departamento de agricultura.

A Agência Nacional de Alimentos deu início a várias importações emergenciais de arroz, sempre garantindo ao público que sua intervenção faria os preços caírem, mas a iniciativa foi insuficiente e tardia.

"Foi incompetência da ANA não ter mantido um estoque adequado, alimentando assim a inflação", disse Ramon Clarete, professor de economia da Universidade das Filipinas Diliman, em Quezon, falando a respeito da Agência Nacional de Alimentos, responsável por conservar os estoques de arroz e influenciar os preços dentro do regime protecionista de importação das Filipinas.

A população urbana pobre é o maior bloco eleitoral das Filipinas, e Duterte conquistou seu voto com promessas de transformar suas vidas e trazer uma onda de melhorias que modernizaria o país. Uma nova legislação tributária aprovada para financiar a infraestrutura resultou na redução de impostos para as classes média e alta. Mas foram aumentados os impostos sobre circulação de mercadorias e sobre o valor agregado, elevando os preços em geral. Enquanto projetos de infraestrutura naufragavam, o contínuo investimento neles contribuiu com a inflação, bem como a alta global no preço do petróleo e o enfraquecimento da moeda local.

Ainda que a aprovação de Duterte tenha começado a cair em meio aos pobres e a classe média, seu governo ainda tem aprovação superior a 60%. Mas as pesquisas de opinião indicam que as questões econômicas estão, agora, entre as principais preocupações nacionais.

Faz tempo que as Filipinas estão entre as economias de crescimento mais rápido do Sudeste Asiático, mas o Banco Mundial rebaixou a previsão de crescimento do país de 6,7% para 6,5%.

Maria Fe Villamejor-Mendoza, professora de políticas públicas da Universidade das Filipinas Diliman, disse que a insatisfação pode se manifestar nas próximas eleições legislativas, em maio, com um menor número de aliados de Duterte vencendo nas urnas.

"Isso começou quando Duterte se tornou presidente. Não podemos respirar. Ele não faz nada além de xingar", afirmou o carpinteiro Angelito Batac, 53 anos, que vive em Navotas, ao norte de Manila.

A mulher de Batac, Evangeline, concordou. "Ele disse que os pobres deixariam de ser pobres", comentou. "Mas estamos ainda mais pobres".

Birgit Hansl, principal economista do Banco Mundial nas Filipinas, disse que algumas das políticas de Duterte ainda podem produzir resultado. Segundo ela, uma medida ampliando o ensino obrigatório em dois anos ajudará a preparar melhor as gerações futuras para o mercado de trabalho e os projetos de infraestrutura podem trazer amplos benefícios. Entretanto, podem ser necessários anos até que os efeitos sejam sentidos.

Maria Villamejor-Mendoza disse que embora as promessas não cumpridas de Duterte tenham causado desapontamento, o sentimento não está se convertendo em raiva, e sim em desilusão. 

"Aprendemos a não ter esperança".

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