James Whitlow Delano / The New York Times
James Whitlow Delano / The New York Times

Altas temperaturas ameaçam 'monstros de gelo' no Japão

Turistas que chegam ao país em busca das 'criaturas da neve' encontram imagens bem diferentes das divulgadas em redes sociais

Motoko Rich, The New York Times

29 de março de 2019 | 06h00

ZAO ONSEN, JAPÃO - Ashley Huang tinha visto as fotos na internet e ficado impressionada: imensas criaturas semelhantes a Godzilla, formadas naturalmente pela neve e pelo gelo, prendendo as coníferas que se espalham pela paisagem montanhosa do norte do Japão. Em fevereiro, ela e uma amiga viajaram de Taiwan até Zao Onsen, um vilarejo na província de Yamagata, para ver de perto as formações. Subiram de teleférico até o cume do Monte Zao, estação de esqui que tem atraído turistas interessados a ver os “juhyo", ou monstros de gelo.

Mas o espetáculo deixou a desejar. Muitas das figuras geladas pareciam versões inferiores daquelas vistas nas fotos da internet. Em vez de feras majestosas, o que se via eram árvores magras cobertas com algumas pelotas de neve. “Eu esperava mais", disse Ashley. “Para mim, não passa de um pouco de gelo em cima das árvores”.

As chuvas e uma temporada inesperadamente quente foram responsáveis pela decadência das criaturas de neve. Mas, no longo prazo, os cientistas dizem que a mudança climática dará cabo dos juhyo.

Os pesquisadores estão acompanhando uma deterioração contínua nos monstros de neve - diminuindo tanto a área em que podem ser encontrados quanto o período de sua formação - por causa de temperaturas cada vez mais altas que derretem a neve nas maiores altitudes. As árvores também são afetadas pelas mariposas, que comem seus espinhos, e besouros que infestam sua casca.

Os juhyo se materializam sob condições específicas. Ventos frios e secos sopram do oeste vindos da Sibéria, atravessando o Mar do Japão, e formam conjuntos de nuvens que depositam água em baixíssimas temperaturas sobre as coníferas do nordeste do país. Ao cair sobre a mistura gelada, a neve fica mais espessa.

Remontando ao início do século 20, cientistas identificaram juhyo que se estendem ao sul até Nagano, cerca de 240 quilômetros a noroeste de Tóquio. Hoje, a província de Yamagata, cerca de 370 quilômetros ao norte da capital, é o ponto mais ao sul onde podemos encontrar os juhyo.

O professor Fumitaka Yanagisawa, da Universidade de Yamagata, disse que as temperaturas médias entre dezembro e março tiveram alta de 2°C desde 1910. “Até o fim do século, os juhyo terão desaparecido da face da Terra", disse o Dr. Yanagisawa.

Visitantes de Taiwan, Tailândia, Filipinas e Cingapura começaram a procurar Zao Onsen em grandes números há cerca de cinco anos, para ver os monstros de neve, que as redes sociais tornaram famosos. Cerca de 77.000 deles passearam de teleférico no inverno mais recente, uma alta em relação aos 47.000 de três anos atrás. Mas, cada vez mais, as autoridades temem que os turistas fiquem decepcionados. Hideo Shimanuki, diretor do teleférico de Zao Ropeway, diss que "se os juhyo desaparecerem, nossos negócios têm muito a perder".

Nos melhores dias, as árvores cobertas de neve ainda são belíssimas. Mas, na Associação do Turismo de Zao Onsen, onde cartazes mostram juhyo do passado em toda a sua glória branca, o presidente, Hachiemon Ito, reconheceu que na montanha de hoje havia apenas versões muito inferiores. Ele disse que a cidade espera sobreviver explorando os turistas atraídos pelas fontes termais e a culinária local. “Isso que vemos hoje nem seria descrito como juhyo no passado", disse Ito. “Antigamente, eram muito mais bonitois”.

 

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