Nelson Parker/The New York Times
Nelson Parker/The New York Times

O guia do mochileiro para uma perturbação geomagnética ancestral

Uma alteração nos polos magnéticos da Terra ocorrida 42 mil anos atrás pode ter mudado drasticamente o clima do planeta, descobriram cientistas - e eles estão batizando o período em homenagem ao escritor Douglas Adams

Alanna Mitchell, The New York Times - Life/Style

22 de março de 2021 | 05h00

Cerca de 42 mil anos atrás, a Terra era assolada por estranhos fenômenos. O campo magnético do planeta se desintegrou. Camadas de gelo cobriram a América do Norte, a Australásia e os Andes. Corredores de vento varreram os oceanos Pacífico e Antártico. Seca prolongada atingiu a Austrália, extinguindo os grandes mamíferos do continente. Os humanos ocuparam as cavernas e cobriram suas paredes com pinturas em tons de ocre. E todos os neandertais morreram.

Em meio a isso tudo, uma gigantesca árvore kauri (Agathis australis) se manteve firme de pé - até que, depois de aproximadamente dois milênios, ela morreu e caiu em um pântano, que preservou os componentes químicos de seu tronco impecavelmente. Aquela árvore, desenterrada há poucos anos nas proximidades de Ngawha Springs, no norte da Nova Zelândia, permitiu que pesquisadores finalmente estabelecessem uma cronologia precisa para uma série de eventos que, anteriormente, já pareciam intrigantes, mas vagamente correlatos.

Os pesquisadores postularam: e se foi a desintegração do campo magnético que desencadeou as mudanças climáticas daquela era? E pensar que a árvore kauri de Ngawha testemunhou a coisa toda…

“Aquilo deve ter parecido o fim dos tempos”, afirmou Chris S.M. Turney, geólogo da Universidade de Nova Gales do Sul, em Sydney, que integra a grande equipe de pesquisadores que relatou as descobertas em um estudo publicado na revista Science. “Essa árvore sobreviveu a tudo, o que é realmente incrível.”

Ao confrontar os dados dos anéis de crescimento e das concentrações de carbono daquela árvore kauri com outros três exemplares similares, aplicando informações recentes de datação derivadas de estalagmites das cavernas Hulu, na China, Turney e os 32 coautores do estudo conseguiram estabelecer o período em que a árvore viveu e quando ela morreu. Isso lhes conferiu o que eles qualificam como “curva de calibragem”, permitindo converter datação por radiocarbono daquele período em anos do calendário.

Cientistas de vários campos do conhecimento afirmaram que os dados da árvore kauri são uma espetacular contribuição para a datação por radiocarbono, aguardada há muito tempo.

“Para um pesquisador que usa datação por radiocarbono, os registros da árvore kauri são simplesmente impressionantes”, afirmou Luke C. Skinner, paleoclimatologista da Universidade de Cambridge que não se envolveu no estudo. Ele afirmou que os fósseis das árvores kauri foram o principal elemento para os cientistas obterem informação de datação por radiocarbono de tanto tempo atrás.

A árvore sobreviveu a uma prolongada desintegração do campo magnético, um período conhecido como Excursão de Laschamp, quando os polos magnéticos tentaram, sem sucesso, trocar de lugar. Como resultado, Turney e seus colegas puderam usar os novos dados para descrever mais precisamente quando a excursão ocorreu e rastrear o que mais estava acontecendo naquele período, incluindo fenômenos climáticos bizarros e extinções de espécies.

“De repente, nos demos conta, 'Nossa, essas coisas estavam realmente acontecendo de maneira simultânea no mundo, tudo ao mesmo tempo”, afirmou Turney. “Foi uma descoberta extraordinária.”

A descoberta desencadeou um experimento multidisciplinar. O campo magnético da Terra, que é gerado constantemente nas profundezas derretidas do núcleo externo do planeta, nos protege contra perigosos raios galácticos e solares. Estariam todos aqueles peculiares fenômenos climáticos, biológicos e arqueológicos de 42 mil anos atrás ligados à desintegração do campo magnético? Essa desintegração alterou o curso da vida na Terra? E o que dizer a respeito de outras perturbações no campo magnético, incluindo aquela vez, 780 mil anos atrás, quando os polos magnéticos de fato trocaram de lugar?

Cientistas estão tentando encontrar respostas a essas perguntas desde que a reversão dos polos magnéticos da Terra foi constatada, várias décadas atrás. Consequentemente, esse fenômeno descoberto mais recentemente atraiu uma enorme atenção.

Os dados revelaram “alterações modestas, mas significativas, na química atmosférica e no clima”, de acordo com o artigo. Entre elas: uma leve diminuição na camada de ozônio; um leve aumento na radiação ultravioleta, particularmente próximo ao Equador; uma elevação de radiação ionizante que danifica tecidos; e a ocorrência de auroras até as latitudes dos paralelos 40, ao norte e ao sul do Equador, que chegavam à metade do território continental dos Estados Unidos, no Hemisfério Norte, e até o litoral da Austrália, no Hemisfério Sul.

As simulações sugerem que o campo magnético enfraquecido provocou algumas das mudanças climáticas de 42 mil anos atrás e que essas alterações podem ter causado efeitos mais amplos, extinguindo vários mamíferos grandes na Austrália, apressando o fim dos neandertais e, talvez, estimulando a arte rupestre, enquanto os humanos se escondiam por longos períodos dentro das cavernas, para evitar queimar a pele com os raios ultravioleta, sugeriram os autores.

Na verdade, os efeitos são impressionantes ao ponto de os pesquisadores terem dado um novo nome ao período anterior à metade da Excursão de Laschamp. Eles o batizaram de Evento Transicional Geomagnético Adams.

“O Evento Adams parece delimitar um período de grande importância climática, ambiental e arqueológica que anteriormente não havia sido reconhecido”, escreve a equipe, concluindo que, “De maneira geral, essas descobertas levantam importantes questões a respeito dos impactos evolucionários de reversões e excursões geomagnéticas nos registros geológicos mais profundos”.

O novo nome é uma homenagem ao humorista britânico Douglas Adams, autor de O guia do mochileiro das galáxias e da série de livros e programas de rádio Last Chance to See, a respeito de extinção. O nome também remete ao famoso trecho em que Douglas afirma que “a resposta para a vida, o universo e tudo mais” é 42 - que Turney afirmou tê-lo lembrado do episódio magnético, 42 mil anos atrás.

“Parece misterioso”, afirmou ele, rindo. “Como ele podia saber?”. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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