Filip Singer/EPA, via Shutterstock
Filip Singer/EPA, via Shutterstock

Alternativa verde à direita política na Alemanha

Partido Verde, que se mostra liberal e pró-refugiados, conseguiu chegar ao governo em nove dos 16 Estados do país

Katrin Bennhold, The New York Times

05 Dezembro 2018 | 06h00

BERLIM - Uma nova força política convulsiona a Alemanha: os seus líderes fazem campanha em barracas de cerveja da Bavária, as mulheres trajando os tradicionais dirndls, e excursionando pelo país acompanhados pelo hino nacional. Um dos seus integrantes escreveu recentemente um livro sobre patriotismo, outro sobre o “novo conservadorismo”, e entre os principais temas está a imigração.

Em outubro, o partido infligiu à chanceler Angela Merkel um golpe brutal nas urnas, a ponto de ela anunciar que, este mês, renunciaria à liderança do seu partido conservador e não concorreria à reeleição em 2021. Não, não se trata da extrema direita. É a esquerda que está se reorganizando.

Embora a ascensão do partido nacionalista Alternativa para a Alemanha, AfD, tenha recebido a maior atenção, o Partido Verde, liberal, pró-refugiados, foi expandindo o número de simpatizantes sem estardalhaço.

Anteriormente um movimento de protesto ambientalista, o Partido Verde é hoje o segundo mais popular do país, ficando atrás dos conservadores por alguns pontos percentuais apenas, mostram as pesquisas. Entre as mulheres, já é o primeiro.

Qual é o segredo? “Nós somos anti-populistas”, declarou Robert Habeck, um dos líderes da agremiação. “Nós nos consideramos o centro da nação, e isto também implica que reivindicamos os símbolos do nosso país adotados pelos nacionalistas”.

Se a Alternativa para a Alemanha - que fez campanha explorando o medo de que o país caia sob o controle dos muçulmanos e da criminalidade desencadeada com a chegada dos imigrantes - representa a reação contra o zeitgeist (o espírito dos tempos), os Verdes representam a reação contra o retrocesso.

O apelo corrosivo dos antigos partidos de todo o espectro, da esquerda e da direita, deixou muitos votos disponíveis, e a Alternativa para a Alemanha absorveu muitos deles. Mas os Verdes surgiram como “a alternativa à Alternativa”, disse Katharina Schulze, 33, que se destacou no Partido Verde nas recentes eleições na Bavária.

Joschka Fischer, um rebelde de esquerda que foi ministro do Exterior sob o chanceler Gerhard Schröder, representa a evolução do seu partido saindo do protesto radical para uma posição intermediária moderada.

Fischer tomou posse como primeiro ministro dos Verdes da Alemanha no estado de Hesse, em 1985, calçando um par de tênis - na época, uma provocação. Trinta anos mais tarde, o tênis branco de Fischer está exposto em um museu, e praticamente um em cada dois eleitores alemães afirma que pode se imaginar votando nos Verdes. “Os Verdes aprenderam a fazer política no centro”, disse Fischer.

Os eleitores, principalmente os alemães urbanos com elevado grau de instrução, se juntam com os Verdes porque o partido representa um estilo de vida em ascensão, desde a preocupação com uma alimentação saudável até certa autoimagem de inconformismo liberal.

O principal candidato do partido em Hesse, Tarek al-Wazir, é filho de um imigrante do Iêmen. Os trolls da internet alertaram que um voto dado a ele seria um voto para a Sharía, a lei islâmica. Entretanto, como resultado, Wazir mais que dobrou a participação dos Verdes. Ele é o político mais popular do Estado.

Peter Weilbächer, consultor tributário em Wiesbaden, a capital de Hesse, disse que sempre votou nos conservadores, mas desta vez votou nos Verdes, chamando-os de “verdadeiros conservadores”. “Eles querem conservar o que nós temos: o meio ambiente, a nossa prosperidade e os nossos valores”, afirmou.

Esta plataforma já levou os Verdes ao governo em nove dos 16 estados da Alemanha. O crescimento econômico e o baixo desemprego permitiram que o eleitorado, principalmente o dos estados do oeste, voltasse a sua atenção para o meio ambiente.

O maior desafio está na Alemanha do leste, onde há muitas minas de carvão, e onde os Verdes são ainda vistos como “um partido da Alemanha Ocidental que protege os refugiados e não os empregos”, disse Fischer.

Entretanto, não faz muito tempo, a Bavária, reduto dos conservadores católicos da Alemanha Ocidental, também parecia impenetrável aos Verdes. Em outubro, o partido tornou-se o segundo mais votado no estado e conquistou Munique, a capital.

Antes das eleições, Katharina Schulze fez campanha vestindo a roupa tradicional feminina, o dirndl, e conquistou os eleitores com o seu slogan político: “Salvemos o mundo de maneira pragmática - um passo de cada vez”.

No entanto, Fischer alertou que não se deve insistir na propaganda exagerada do seu partido. Ele lembrou da primeira vez em que se elegeu ao Parlamento, em 1983. Dirigindo-se à chancelaria, ele disse a um colega: “Essa é a próxima parada”. Talvez ela ainda esteja um bocado distante./ Christopher F. Schuetze contribuiu para a reportagem

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