'Conforme avança o Alzheimer dos meus pais, eles esquecem quem eu sou', diz filho trans

'Conforme avança o Alzheimer dos meus pais, eles esquecem quem eu sou', diz filho trans

Há 13 anos, meus pais tentaram esquecer e esperavam que minha transição de gênero desaparecesse; Hoje, com Alzheimer, eles podem me apagar totalmente da sua memória

Les Tyler Johnson, The New York Times - Life/Style

11 de setembro de 2020 | 05h00

Ao contrário dos e-mails normais que minha mãe me enviava, esse que recebi não continha nenhuma mensagem de texto, apenas uma foto anexada. Cliquei no arquivo e vi uma foto dela, raquítica, com um corte profundo acima do seu olho roxo. Telefonei imediatamente a ela para perguntar o que havia ocorrido.

“Eu caí. No lugar plano dos quebra-cabeças”. E em seguida disse: “Estou indo”. E desligou. Entre nossas conversas e imagens sucintas como esta, mal reconheço aquela mãe tagarela que atendia às minhas necessidades e ouvia meus desejos quando criança. Honestamente, como filho transgênero, percebia que às vezes ela também me achava irreconhecível.

Há 13 anos, quando estava com 34 anos, eu injetei testosterona pela primeira vez e comecei minha transição física de mulher para homem. Rapidamente minha voz engrossou, criei músculos e cabelos apareceram em todo o meu corpo, exceto, infelizmente, no contorno do meu coro cabeludo que começou a retroceder.

Pela primeira vez senti-me bem, completo. A imagem que vi no espelho refletia o que eu sentia interiormente. Mas a transição não foi tão fácil no tocante à minha relação com meus pais. No início eles me escreveram uma carta insistindo para eu reavaliar minha decisão de me tornar um homem.

A mensagem, embora cruel, se baseava em informações errôneas, medo e a preocupação por mim, mas não era nada consolador, no meio de uma jornada que significava uma mudança de vida, saber que não contaria com seu apoio. Com o passar do tempo, nossa relação foi restabelecida, em parte.

Na maior parte do tempo simplesmente não falamos a respeito. Mas então, em 2015, meu pai enviou-me um e-mail, reconhecendo sua dificuldade para lembrar palavras e confirmando que um recente exame havia indicado os primeiros sinais do mal de Alzheimer. Três anos depois, minha mãe também foi diagnosticada com a doença.

Uma visita que fiz a eles no ano passado confirmou que ambos estavam numa condição de demência da qual nunca escapariam. Meu pai e eu nos estávamos sentados no sofá ao passo que minha mãe estava pregada na janela da sala e dizia “preciso perguntar ao jardineiro sobre aqueles retângulos brancos”, se perguntando em voz alta por que o vento não tinha derrubado os galhos.

Eu não consegui enxergar os retângulos aos quais ela se referia. Mas logo notei o que ela estava vendo: a luz da claraboia sobre nós que batia no vidro da janela e formava reflexos retangulares, que para ela pareciam vir de fora. As dificuldades em relacionar espaços e ter uma percepção mais profunda das coisas são comuns nas pessoas com Alzheimer.

Meus pais têm outros sintomas típicos também: perda de memória, confusão sobre onde estão ou que horas são, a incapacidade de manter uma conversa, humor instável, paranoia. E, no caso do meu pai, uma dificuldade cada vez maior de andar e comer. Essas mudanças nos inquietam em diferentes maneiras.

Meus pais se formaram jornalistas e trabalharam como redatores. Agora estão frustrados com cuja incapacidade de usar a língua do modo que usavam tão naturalmente. Meu pai raramente fala e minha mãe consegue apenas formar sentenças nos dias em que está bem. Mesmo assim, ela chama as chaves de “aquilo que coloco no carro”.

Isto, e a lenta corrosão da sua independência, que começou com o cancelamento das suas cartas de motorista e necessitarem de cuidadores 24 horas em casa lhes dá um sentimento de derrota. Inesperada, contudo, é a sua percepção de que minha identidade como homem, marido e pai – tudo relacionado com minha transição de gênero – parece ter desaparecido à medida que sua demência avança e eles esquecem quem eu sou.

Minha mudança de gênero foi o início de muitas mudanças: um ano depois de iniciar minha transição, um amigo apresentou-me a uma mulher corajosa com uma forte personalidade e um senso de humor irreverente. Nós nos vimos pessoalmente meses depois quando fui apanhá-la no aeroporto numa noite de sexta-feira.

E, no domingo, nós nos casamos. Nos anos que se passaram depois disto, adotamos dois garotos quando tinham nove anos de idade: nosso primeiro filho foi adotado em 2012 e o mais jovem três anos depois. Então, alguns meses após a eleição presidencial em novembro de 2016, nós quatro deixamos nossa casa, empregos e amigos e emigramos para o Canadá. As pessoas sempre ficam curiosas com a rapidez com que essas mudanças de vida ocorreram.

Não foi perigoso casar-se com uma pessoa depois de a conhecer há apenas alguns dias? Não perdeu grande parte da vida dos seus filhos ao adotá-los já quando eram mais velhos? Não foi estressante decidir em março mudar de país e em maior partir para o Canadá? Geralmente respondo que essas mudanças, embora importantes, foram mínimas em comparação com a minha mudança de gênero.

Quando você faz isto nada mais parece perigoso, rápido ou profundo. Mas o ritmo dessas mudanças se compara à velocidade do declínio dos meus pais. O problema do Alzheimer é que, com frequência, as pessoas têm mais facilidade em lembrar de eventos do seu passado distante do que de fatos recentes.

Nos dias em que está bem, minha mãe consegue descrever como no final dos anos 1960 ela “encontrou” meu pai quando trabalhava como repórter de um pequeno jornal em Kansas onde, num dos andares, havia “uma única mesa e uma cadeira para dividir”. Quando meu pai chegou, emprestado do The Kansas City Star, a principal reportagem da semana era “Love Connection in the Newsroom”. Ambos lembram do nascimento de sua primeira filha também.

Eles me chamaram de Lesley, homenageando a enfermeira cujo senso de urgência salvou minha vida. A história que minha mãe gosta ainda de contar é que o cordão umbilical enrolou quatro vezes no meu pescoço. Como ela diz, “Lesley, a enfermeira, disse ao médico 'Deixe a disputa de golfe e dê à luz esta criança'”.

As lembranças que meus pais têm da minha vida no Canadá – junto com a adoção dos netos que eles adoram, meu casamento e especialmente minha transição de gênero – estão regredindo, se já não desapareceram. “Querida, qual o nome desse homem? Você lembra?”, e minha mãe apontou para um busto de gesso enorme no alto de um armário de madeira na sua sala de estar.

Esta escultura do seu amigo Ernest foi uma das incursões bem sucedidas do meu pai na arte tridimensional. Esse busto costumava ficar no hall de entrada e era uma das primeiras coisas que as pessoas viam quando entravam na casa. Ela pegou o busto, colocou de lado e tirou uma foto. Era uma foto da própria escultura, não de Ernest.

Se meus pais não conseguem reconhecer a diferença entre uma foto de uma escultura de gesso branca e uma de uma pessoa real, por quanto tempo mais conseguirão me reconhecer como sua prole, muito menos seu filho? No verão passado, sentado com eles na mesa da sua cozinha minha mãe acabou de almoçar e se levantou e anunciou “Vou lá fora para arrancar umas ervas daninhas”. Ficamos dentro da casa, meu pai e eu, e lágrimas escorreram pelo seu rosto.

Perguntei a ele o que havia de errado. “Tenho de me acostumar... ela partiu para sempre”, ele respondeu. Ao que parece, ele achava que, como ela saiu da sua vista, havia morrido. Eu me perguntava se perderia minha nova identidade quando não conseguisse ser identificado. Mas depois de presenciar o choro do meu pai ali na mesa, tive a resposta. Minha mãe apenas saíra da cozinha. O fato de ele não lembrar disto não significava que ela não mais existia.

Do mesmo modo, o fato de meus pais terem perdido sua lembrança da minha transição não significa que deixarei de ser um homem, um marido devotado, o pai adorável e o filho dos meus pais. Eles foram importantes na criação da estrutura que respalda a pessoa que me tornei. Então, durante os últimos 40 anos, eles me viram assumindo a responsabilidade de me desenvolver com base nessa estrutura.

Embora nem sempre tenham concordado com minha opção eles me aceitaram por quem eu sou. À medida que o Alzheimer consome sua percepção de quem eu fui e quem eu me tornei, espero que retenham consigo a minha essência. É o que mais importa, para todos nós. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Les Tyler Johnson é professor e escritor.

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