Federico Rios Escobar/The New York Times
Federico Rios Escobar/The New York Times

Enquanto viveu, ela desafiou o Alzheimer. Na morte, o seu cérebro talvez mostre como

Uma mulher na Colômbia com uma mutação genética rara fez uma doação importante para a Ciência

Jennie Erin Smith, The New York Times - Life/Style

13 de janeiro de 2021 | 05h00

MEDELLÍN, Colômbia - Aliria Rosa Piedrahita de Villegas tinha uma rara mutação genética que praticamente garantia que ela teria a doença de Alzheimer quando estivesse com pouco mais de 40 anos. Mas foi somente aos 72 que os primeiros sintomas apareceram. A sua demência não estava terrivelmente avançada quando morreu de câncer no dia 10 de novembro, um mês antes de completar 78 anos, na casa da filha em um lado da montanha de onde se visualizava toda a cidade.

Os pesquisadores da área de neurologia da Universidade de Antóquia, em Medellín, chefiados por Francisco Lopera, acompanham os membros da vasta família Piedrahita de Villegas há mais de 30 anos, na esperança de desvendar os segredos do aparecimento prematuro da doença de Alzheimer. Naquela época, eles encontraram várias pessoas fora do comum, cuja doença se desenvolvia mais tarde do esperado, depois dos 50 ou mesmo dos 60 anos. Mas nenhuma delas foi um caso tão notável do ponto de vista da medicina quanto a mulher que todos eles conheciam como Doña Aliria.

Nos últimos anos, Alíria foi para Boston, onde os pesquisadores do Massachusetts General Hospital realizaram exames de ressonância magnética do seu cérebro para um estudo atualizado desta família colombiana, a mais extensa do mundo com sintomas genéticos precoces de Alzheimer. Em Boston, descobriu-se que Alíria tinha quantidades excepcionalmente elevadas de uma proteína encontrada na doença de Alzheimer - a amiloide beta - sem muita tau, a proteína tóxica que mais tarde se espalha em cascata com a doença. Algo interrompera o processo degenerativo usual, permitindo que o funcionamento cotidiano permanecesse relativamente preservado.

Em 2019, os pesquisadores da Escola de Medicina de Harvard e a Universidade de Antióquia publicaram a descoberta surpreendente de que, embora Alíria carregasse uma mutação bastante conhecida, exclusiva da Colômbia, que causa o aparecimento precoce do Alzheimer, ela também carregava duas cópias de outra mutação rara que aparentemente impediram a atividade da primeira. Desde então, os cientistas do mundo todo vêm estudando a mutação de Chistchurch, como é chamada, uma variante em um gene, APOE, que pode acarretar o risco de uma pessoa desenvolver o Alzheimer. Até o momento, medicamentos que visam o amiloide beta decepcionaram em testes clínicos. Se o efeito protetivo da dupla mutação de Christchurch de Alíria puder ser replicado, poderá abrir-se um novo caminho para novos tratamentos.

Alíria Piedrahita de Villegas, uma mulher pálida, com ossatura de um passarinho, morreu de um melanoma metastático descoberto somente em setembro. Semanas antes de morrer, ela ainda contava piadas e lembrava da vida em uma aldeia rural de Angostura, a cidade da região montanhosa onde ela nasceu e cresceu, ao lado de sete irmãos. No início dos anos 1970, ela fugiu de Angostura e do marido que abusava dela, com as duas filhas ainda novas, Magaly e Rocio, para a cidade. Lá, lavou e passou roupa para os outros para sustentar as meninas, cujos irmão se juntaram à elas mais tarde. Como muitas famílias recém-chegadas das montanhas, elas se mudaram frequentemente nos bairros montanhosos ao redor de Medellín, até se estabelecerem em Barrio Pablo Escobar, construído pelo rei da droga numa aparente estratégia de relações públicas nos anos 1980.

Alíria não tinha hábitos muito saudáveis que poderiam ter impedido o aparecimento do Alzheimer. Ela não resistia a uma festa, contaram as filhas, e mesmo nos últimos anos ela gostava de tomar umas semanalmente com suas amigas. As vizinhas apreciavam sua natureza carinhosa e extrovertida, e no dia 20 de novembro compareceram em bloco a uma missa em sua memória.

O diagnóstico de melanoma, demorado por causa da pandemia do coronavírus, foi um golpe inesperado. As filhas lembravam que ela varria obsessivamente a varanda, expondo-se ao sol.

Alíria recebeu um tratamento paliativo. E foi cuidada pelos membros da família que conservavam suas unhas esmaltadas, as joias arrumadas e o rosto bem maquiado, como a elegante Aliria Rosa insistiu que elas fizessem, até o fim.

Ela morreu de pijama às 8h30 da manhã de uma terça-feira.

“Quisemos doar este cérebro”

Os estudos post-mortem para conhecer como funciona a demência no interior do cérebro fora fundamentais para a doença de Alzheimer desde 1906, quando Alois Alzheimer, um psiquiatra alemão e neuroanatomista, divulgou as suas conclusões a respeito de uma paciente chamada Auguste Deter, que se tornou conhecida na ciência como Auguste D.

Quando Alzheimer conheceu Auguste, ela era uma dona de casa de 51 anos extremamente desorientada que não conseguia dizer corretamente o que ela estava comendo no almoço. Ela morreu aos 55 anos, depois de uma grave demência progressiva que passou a ser chamada de Alzheimer precoce.

Foi o que Alzheimer descobriu nas lâminas de tecido cerebral de Auguste que permitiu distinguir a sua doença das outras formas de demência que ele estudara. Estruturas microscópicas semelhantes a sementes permeavam seu cérebro que encolhera, juntamente com estranhos emaranhados que marcavam onde os neurônios haviam morrido. Posteriormente, estes se tornaram conhecidos como placas amiloides e emaranhados de tau, as marcas fundamentais da doença de Alzheimer.

Lopera, chefe do grupo de pesquisa da área de neurociências da Universidade de Antióquia, chamava Alíria de “a Auguste D. do nosso tempo”, observando que enquanto a observação do cérebro de Auguste contribuiu para elucidar como o dano ocorre no Alzheimer precoce, o de Alíria poderia ajudar a mostrar de que maneira seria possível detê-lo.

Como a maioria das famílias envolvidas no grupo de pesquisa de Lopera, que viveram com Alzheimer precoce por inúmeras gerações e continuam ansiosas por um avanço, os filhos de Alíria - duas moças e dois rapazes - concordaram em doar o cérebro da mãe para estudos quando ela morreu. A Universidade de Antióquia agora tem cerca de 400 cérebros, a maioria dos quais é de pessoas que morreram com Alzheimer precoce genético.

Ninguém esperava receber este cérebro tão cedo, e Alíria gostaria de ter vivido muito mais, não fosse pelo câncer. Sua filha Rocio contou que a mãe estava consciente de que o seu cérebro seria doado para a ciência, “e estava de acordo com isto. Nós até brincávamos que o seu era um ‘cérebro de ouro’”.

Rocio falou que achava que a pesquisa do mal de Alzheimer - principalmente no que diz respeito aos medicamentos - estava estagnada. “Talvez a morte de mamãe, embora tenha sido muito triste para nós, tenha aberto muitas portas”, observou. Sua irmã mais velha, Magaly, concordou: “Nós não somos egoístas. Quisemos doar este cérebro. Esperamos apenas que o campo possa avançar”.

“Este é um momento histórico”

No banco de cérebros da Universidade de Antióquia trabalham membros do corpo docente da faculdade de medicina, residentes e estudantes, que se comunicam pelo WhatsApp e devem estar preparados para agir à notícia de uma morte. O tecido cerebral se deteriora rapidamente, e as amostras devem ser colocadas em substâncias conservantes ou congeladas no prazo de algumas horas para serem usadas.

Na manhã de 10 de novembro, Andrés Villegas, diretor do banco de cérebros, transmitiu solenemente aos colegas a notícia da morte de Alíria Piedrahita de Villegas. “Este é um momento histórico”, escreveu. A equipe ainda não havia trabalhado com o cérebro de uma pessoa totalmente fora do comum, e Villegas não sabia ao certo se outros pesquisadores o haviam feito. Mas disse que para ele este era um momento triste. Muitos no grupo de pesquisa haviam passado a considerar Alíria uma amiga, e a sua morte por câncer havia sido dolorosa e prematura.

Seu colega, David Aguillon, no meio tempo, pegou um taxi e foi apresentar as suas condolências à família da paciente e receber os documentos finais de consentimento. Aguillon cuidara de Alíria nos últimos anos e a acompanhava nas viagens de estudo a Boston. Durante a última, em abril, de 2019, quando ela ainda estava se recuperando de uma cirurgia no joelho, ele a empurrou pela cidade fria e chuvosa em uma cadeira de rodas, uma lembrança que foi muito cara a Alíria no que restou de sua vida.

Enquanto esperavam a chegada do corpo de Alíria, Villegas e sua equipe trocaram mensagens entre si a respeito do que fora pedido: verificação dos freezers, luvas estéreis, iodo, meio de cultura de células, substâncias de conservação de tecido misto e pronto. O banco de cérebros muitas vezes envia tecido aos seus colaboradores no exterior, e em poucos dias, duas amostras do cérebro de Alíria seriam estudadas na Alemanha e na Califórnia, além de Medellín.

Cada doação de um cérebro começa não no necrotério de um hospital, mas em uma ampla funerária bem equipada. O que permite aos pesquisadores a retirada do cérebro e seu rápido envio para o seu laboratório de dissecação a um quarteirão de distância, após o qual a família pode seguir com o funeral ou a cremação.

A autópsia de Alíria começou às 11h30, três horas após a sua morte. Os principais integrantes da equipe de Villegas, Aguillon e Johana Gómez, bióloga, colocaram aventais de plástico, máscaras e protetores faciais, precauções necessárias por causa da pandemia de coronavírus, enquanto um estudante de medicina, Carlos Rueda, ao seu lado, tomava notas.

Às 15h30, sete horas após a morte, a equipe de Medellín ainda estava colhendo amostras. Seus integrantes tinham pressa procurando atender às necessidades dos seus colaboradores sem perder muito tempo para não comprometer a qualidade do tecido. “Estamos em uma situação de emergência”, afirmou Villegas, os couriers chegariam no dia seguinte.

Uma história a ser contada

Entre as coisas que distinguem o caso de Alíria de qualquer outro foi o fato de que os investigadores teriam imagens clínicas genéticas e agora a informação dada pela autópsia para trabalhar: um caso único, mas com um amplo volume de dados.

No Centro Médico da Universidade de Hamburgo-Eppendorf, na Alemanha, um neuropatologista pesquisador, Diego Sepulveda-Falla, que trabalhou com o grupo de Medellín por anos, aguardava cerca de dez amostras do cérebro de Alíria. A principal era uma peça congelada de córtex entorrinal, uma estrutura rosada que regula a memória e a percepção do tempo, e a primeira região do cérebro na qual a tau começa a se espalhar. Sepúlveda-Falla disse que usaria o sequenciamento do RNA de célula única apenas e inteligência artificial para comparar amostras do cérebro de Aliria com as de mais de 125 colombianos que morreram com a mesma mutação causadora do mal de Alzheimer.

Em Santa Barbara, Califórnia, um biólogo celular, Ken Kosik, e sua equipe, que recentemente conseguiu uma bolsa do National Institutes of Health para estudar o tecido do banco de cérebros de Medellín, aguardavam mais amostras. Em algumas, eles realizariam o sequenciamento do RNA de célula única, que pode revelar de que maneira genes específicos são expressos nas células cerebrais. Kosik e seus colegas descobriram recentemente o receptor químico envolvido na disseminação da tau de uma célula para outra, um receptor que como se descobriu anteriormente interage com o gene APOE, que pode influir no risco de Alzheimer. Os resultados do sequenciamento poderão esclarecer como uma das duas raras mutações de Alíria podem ter agido uma contra a outra.

Nem Kosik nem Sepulveda-Falla apresentaram uma hipótese a respeito deste cérebro ou do que poderiam  encontrar. Mas era uma questão de devida diligência científica explorá-lo.

“Ela foi uma paciente muito importante, a sua história foi notícia no mundo inteiro”, afirmou Kosik. “Nós aprendemos muito com ela - e agora que ela morreu, depende de nós estudá-la com muito cuidado”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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