Hiroko Masuike The New York Times
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Jogadora sueca da WNBA leva debate sobre o racismo para o seu país

Amanda Zahui B. promoveu protestos e boicotes para levar os suecos a enfrentar o que ela descreveu como uma história tácita da desigualdade racial

Seth Berkman, The New York Times - Life/Style

09 de agosto de 2020 | 05h00

Quatro anos atrás, o New York Liberty se tornou uma das primeiras franquias do basquete profissional a fazer, na quadra, uma declaração unificada contra a brutalidade policial e a injustiça racial. Antes mesmo de Colin Kaepernick ter chamado a atenção de todos por se ajoelhar durante a pré-temporada da NFL, a liga esportiva de futebol americano, no fim daquele verão, o Liberty entrou em quadra vestindo camisas pretas que diziam #BlackLivesMatter (Vidas Negras Importam).

Aquele verão teve um impacto profundo na pivô do Liberty, Amanda Zahui B., que havia chegado aos Estados Unidos apenas três anos antes para frequentar a Universidade de Minnesota. Em um vestiário liderado por Tina Charles, Swin Cash, Tanisha Wright e Carolyn Swords, Zahui B. mergulhou em discussões com pontos de vista diferentes sobre raça, saúde mental e condição feminina.

Há pouco tempo, essas conversas voltaram à mente de Zahui B., filha de mãe franco-espanhola e pai da Costa do Marfim, depois do assassinato de George Floyd sob custódia policial em Minneapolis. Ela estava observando a quarentena do novo coronavírus em sua cidade natal, Estocolmo, quando soube da morte de Floyd. Inicialmente, ela se sentiu atraída para as manifestações em Minneapolis e aquelas em frente ao Barclays Center, no Brooklyn, local da futura arena do Liberty.

Ela então se lembrou de algo que suas ex-companheiras do Liberty haviam enfatizado para as jogadoras estrangeiras anos antes: a importância de pressionar por mudanças no exterior, e não apenas nos Estados Unidos. Por isso, antes de retornar ao Brooklyn para se preparar para o início da temporada da Associação Nacional de Basquetebol Feminino (WNBA, na sigla em inglês) no fim deste mês, Zahui B. concentrou sua atenção nos problemas da Suécia, promovendo protestos e boicotes para levar a população do país a enfrentar o que ela descreveu como uma história não declarada de desigualdade racial.

"Não falamos de raça aqui. Em Minneapolis, eu queria sair às ruas com todo mundo. Queria fazer o que estivesse ao meu alcance por aquela comunidade. Mas, ao mesmo tempo, temos tanto trabalho para fazer na Suécia. Temos de começar por nossa casa", disse Zahui B., de 26 anos, no mês passado, em seu apartamento em Dalen, na região sul de Estocolmo.

Zahui B. cresceu em uma vizinhança densamente povoada por imigrantes africanos que, como o pai dela, Alex Zahui Bazoukou, se esforçavam muito para conseguir trabalho em Estocolmo. No ano passado, o governo sueco divulgou que 231.276 afro-suecos vivem no país.

A mãe de Zahui B., Ann-Sofi, que nasceu na Suécia e se estabeleceu em Estocolmo depois de uma infância nômade, ajudou a abrir a livraria Sara Bokhandel, que ela afirma ser a primeira livraria curda da Europa. Zahui B. se lembrou de esmiuçar os livros infantis traduzidos para o árabe, como o clássico sueco Píppi Meialonga. Mas, à medida que crescia, Zahui B. foi descobrindo que a diversidade de ambientes em que foi educada era amplamente ignorada em boa parte da Suécia.

Um exemplo disso, segundo ela, é a falta de representatividade na mídia. Existe um programa muito popular chamado Svenska Hollywoodfruar (Esposas Suecas de Hollywood, em tradução livre), que apresenta um elenco de mulheres loiras com olhos azuis. Zahui B. afirmou que, nos jogos televisionados da seleção sueca feminina, as imagens se concentram nela, e não em suas companheiras de equipe com pele mais escura. "Realmente, não promovemos as pessoas não-brancas aqui, e, se fazemos isso, fazemos de forma bem leve", observou Zahui B.

Sofia Ulver, professora de marketing da Universidade de Lund, na Suécia, concordou que raramente se fala em raça no país. Ela ajudou a escrever um estudo submetido à revisão de seus colegas este mês, que examina a representação racial e étnica nos comerciais de televisão suecos. Ulver observou uma história de esforços legislativos no país que procuraram negar a raça como uma fonte concreta de preconceito a ser considerada na elaboração de leis – uma abordagem que, segundo alguns críticos, ignora a existência do racismo verdadeiro.

"Temos enormes problemas de integração na Suécia. Não temos sido bons em integrar novos grupos multiculturais que estão chegando aqui. A segregação é muito grande", disse Ulver, acrescentando que, antes da Segunda Guerra Mundial, a Suécia promovia abertamente o conceito de superioridade genética entre certas raças.

Zahui B. afirmou que sua família sempre incentivou o diálogo aberto, mas foi só depois da sua transferência para o Liberty, em maio de 2016, que se sentiu à vontade para expressar sua vulnerabilidade. A pivô do Liberty contou ter se debatido quando criança com a ideia de "ser negra na Europa e ser vista como uma branca quando estou na Costa do Marfim", e que Charles a desafiou a pensar profundamente no que significa ser uma mulher negra no mundo moderno.

"Você vê agora que as pessoas estão saindo de um momento de separação e se perguntam: como nos juntamos para que algo nos leve a uma mudança? Durante aquela temporada, já estávamos lá. Éramos um microcosmo do que vemos acontecer agora", afirmou Wright, que agora é assistente do técnico do Las Vegas Aces.

Finalmente, Zahui B. se sentiu confortável o suficiente para liderar conversas sobre quais ações a equipe deveria tomar ao longo da temporada de 2016. Naquele verão, o Liberty usou camisetas pretas durante o aquecimento com mensagens de apoio ao movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), e pelo menos uma jogadora permaneceu sentada durante a execução do hino nacional.

Cash começou a fazer perguntas a Zahui B. sobre raça na Suécia, o que levou a discussões sobre problemas que são parecidos nos dois países. "Ela começou a se abrir e se tornou muito sincera, alguém que queria impactar e deixar uma impressão duradoura em você", contou Charles, que agora está no Washington Mystics.

Para Zahui B., aquelas conversas lhe permitiram resolver emoções que antes haviam sido abafadas e eram confusas – sentimentos que surgiram depois que ela foi seguida em lojas e bancos em Estocolmo, do seu instinto de dirigir com as duas mãos no volante e deixar a carteira de habilitação perto dela, para o caso de ser parada pela polícia.

"Às vezes, levanto uma parede dentro de mim porque sei como o mundo é. Falo, e vou receber algo de volta. Mas estou aprendendo a mostrar que sou um ser humano real – por exemplo, eu choro até dormir, tenho pesadelos, todos passamos por depressão e todos estamos com medo e aborrecidos – esse é o tipo de crescimento que tive, especialmente depois que cheguei ao Liberty", comentou Zahui B.

No mês passado, Zahui B. discutiu a ideia de organizar um protesto do Black Lives Matter em Estocolmo com seu agente e ativistas locais, antes de participar de uma manifestação que já estava planejada para o dia três de junho. Zahui B. divulgou o protesto no Instagram, no qual estima que a maioria de seus seguidores, mais de 15 mil, sejam suecos.

Entusiasmada com os milhares de suecos que participaram do protesto, Zahui B. entrou em contato com as principais emissoras de notícias do país, oferecendo-se para conversar sobre raça em programas ao vivo. Em resposta, algumas estações de rádio propuseram entrevistas relacionadas ao basquete.

"Respondi que não. Quero falar do que importa de verdade", contou Zahui B, acrescentando que vem se abstendo de dar entrevistas a certas emissoras suecas até que estas façam um esforço conjunto para abordar as questões sobre raça em sua cobertura jornalística. Como alternativa, a jogadora tem postado vídeos sem filtro no Instagram sobre raça para seu amplo público sueco.

Zahui B. disse que não se incomodava com o fato de determinadas conversas serem desconfortáveis para os telespectadores, já que as considerava necessárias para o progresso. Depois do protesto de três de junho, por exemplo, seu vizinho a cumprimentou no corredor do prédio e perguntou como ela estava. A jogadora respondeu que estava cansada de ver pessoas negras serem mortas sem motivo e ressaltou que, se ele não queria conversar sobre isso, não precisava mais falar com ela.

"Estou sendo direta e plantando uma sementinha na cabeça das pessoas. Não preciso que você me diga que sente muito ou que entende como estou me sentindo. Na verdade, preciso que você mude e vá para casa e converse com sua família, com seus filhos. Quando você for para o trabalho e ouvir alguém dizendo algo inapropriado, manifeste-se. Fale, mesmo que seja desconfortável. Faça isso", afirmou ela.

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